Mostrando postagens com marcador Boris Schnaiderman. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Boris Schnaiderman. Mostrar todas as postagens

sábado, 23 de março de 2019


Editora Kalinka

Entrevista com Daniela Mountian - Parte I



             El Lissitzky, "História suprematista de dois quadrados em seis construções"


A editora Kalinka completou dez anos de existência em 2018, cumprindo um papel especial no mercado editorial, pois dedica seu catálogo à publicação de escritores da literatura russa. Não bastasse isso, a editora privilegia autores pouco conhecidos do público brasileiro. Com essa linha, a Kalinka demonstra o importante papel que uma Editora pode desempenhar no panorama de um país, alargando as fronteiras de conhecimento de uma literatura que já conta, no Brasil, com um público fiel e interessado na riquíssima tradição literária desse país.
Daniela Mountian e seu pai, Moissei Mountian, são os fundadores da editora. Daniela, pós-doutoranda em teoria literária e literatura comparada – FAPESP/USP, conversou com o blog. A entrevista contou também com o apoio do jornalista Reginaldo Cruz.
Nessa primeira parte, ela fala sobre a trajetória de seus pais, a sua relação com a língua e cultura russas, como surgiu a ideia de criação da editora, comenta um dos pontos altos na trajetória da Kalinka, que foi a publicação do livro Salmo, de Friedrich Gorenstein, faz considerações sobre as razões da forte presença da literatura russa no Brasil e, finalmente, trata da importância de Boris Schnaiderman para a divulgação dessa literatura em nosso país.
*
Búfalo Celeste – Como surgiu a ideia da editora?
Daniela – Obrigada pelo convite, pelo bate-papo. Meu pai realmente tem a ver com isso porque minha família, meu pai e minha mãe são da Moldávia, que fazia parte da União Soviética e hoje é um país independente.
Búfalo Celeste – A Moldávia tem uma língua própria?
Daniela – Hoje tem, mas eles vieram para cá em 1972, eles já vieram casados, já vieram formados, digamos. Então eles estudaram na língua russa.
Minha vida tomou vários rumos antes de eu chegar à Kalinka, não foi uma coisa de família; foi quase casual, eu diria. Eu terminei a faculdade de História e já trabalhava com design, trabalhava também com revisão e preparação de texto e fui convidada por um amigo para abrir uma editora, e aí meu pai sugeriu: “vocês querem um bom título? Eis aqui”. Eu nunca tinha ouvido falar de Fiódor Sologub, o autor simbolista russo, desconhecido aqui, mas muito conhecido na Rússia. Eu já conhecia um pouco de literatura russa, mas não muito.
Búfalo Celeste – Você é falante nativa de russo?
Daniela – Meus avós falavam em russo, mas meus pais falavam com a gente em português. Então, foi a partir desse romance que minha vida deu uma guinada; aí, sim, fui me alfabetizar e comecei a ir para a Rússia.
O projeto do romance do Sologub começou em 2005, com a tradução. A vida se enveredou, assim, para esse lugar e comecei a conhecer as pessoas da área, fazer cursos, o meu pai começou a se envolver muito, começou a traduzir e aí resolvi que seria, de fato, uma editora de livros russos e nunca mais parei.
Búfalo Celeste – Foi de uma forma peculiar então?
Daniela – Sim, foi. E acabei indo para Rússia, encontrei lá familiares que eu não teria encontrado se não fosse por todo esse processo, porque, ao mesmo tempo que foi criada a editora, que começou antes, eu iniciei carreira acadêmica, para me dar um suporte, porque eu não era da área.

"O diabo mesquinho, de Fiódor Sologub,  é um livro-chave da virada do século XIX para o XX e quem trouxe foi meu pai."


Búfalo Celeste – Seu pai já tinha essa paixão por literatura?
Daniela – Meu pai sempre leu muito, como toda a geração dele na Rússia. Eles leem muito. Meu pai lê muito até hoje. Então, ele tem todo esse arsenal, tanto é que boa parte dos títulos é uma escolha dele. O Sologub, por exemplo, ninguém estudava aqui, era totalmente desconhecido. O diabo mesquinho é um livro-chave da virada do século XIX para o XX e quem trouxe foi meu pai. Eu li e falei “nossa, isso é um negócio importante” e acabei estudando esse livro no mestrado que abriu várias portas para mim. E outros livros também, meu pai que traz; por exemplo, Leonid Dobýtchin, um autor modernista russo, é nosso segundo livro e também um escritor pouquíssimo conhecido aqui. Ele tem uma linguagem super radical e vanguardista e hoje é um autor bem respeitado na Rússia. Eu também escolho autores, mas meu pai é realmente uma peça fundamental, digamos que ele é a consciência da editora.
Búfalo Celeste – O que significa Kalinka?
Daniela – Kalinka é o nome de uma música folclórica russa, do século XIX. E é o nome de uma árvore também, uma pequena planta com uma frutinha vermelha. Kalinka é o diminutivo de Kalina.
Búfalo Celeste – Foi ousada essa proposta de criar uma editora, voltada exclusivamente para a literatura russa e, mais ainda, com autores pouco conhecidos.
Daniela – Realmente, nossa linha editorial é literatura russa, séculos XX e XXI, sobretudo de autores pouco conhecidos. Nem sempre eu vou conseguir fazer isso, mas eu acho que 99% de nosso catálogo é voltado para essa proposta. Eu e meu pai temos uma paixão, que é a literatura das vanguardas russas e do modernismo, dos anos 10, 20, até 30 do século XX. A ideia seria fazer uma coleção de contos russos modernos; publicamos dois títulos, mas pode vir mais coisa aí. Tem uma lista enorme de autores, mas também começamos a ir para os contemporâneos, por exemplo o Friedrich Gorenstein.
Búfalo Celeste – É justamente esse autor que chama atenção nas publicações da Kalinka, pois também foi bem ousada a publicação de Salmo: romance-meditação sobre os quatro flagelos do Senhor [Kalinka, 2017], não só pelo tamanho do livro, que tem uma tradução custosa, mas também pela sua complexidade.
Daniela – Sim, foi trabalhoso.

"Salmo é um livro fortíssimo, polêmico."


Búfalo Celeste – Conte um pouco sobre o projeto dessa publicação, quanto tempo demorou a tradução? Foi conjunta com o Irineu [Franco Perpétuo]?
Daniela – É, meu pai convidou o Irineu para fazer a tradução, eu trabalhei como editora. Mas foi bem difícil, porque você viu quantas citações bíblicas aparecem e meu pai fez uma coisa que não tem em nenhuma edição do livro: ele localizou citação por citação, está tudo na edição. Então, foi um processo longo, porque teve uma parte que meu pai fez, uma parte que Irineu fez e eu mesmo demorei muito para editar esse livro. Foram várias revisões e aposto que ainda faria outras, mas tem uma hora que o livro precisa nascer. É um livro fortíssimo, polêmico.
Búfalo Celeste – É uma das principais publicações dos últimos anos, na minha visão, juntamente com o Vasily Grossman, Vida e Destino.
Daniela – Isso também foi uma escolha de meu pai, porque o Gorenstein não é nada conhecido, nem na Rússia. Ele é conhecido como roteirista, não só do Tarkóvsky, mas de outros diretores russos. Ele foi para a Alemanha e só começou mesmo a ser publicado na Rússia depois do fim da União Soviética. Ele é um autor cultuado pela intelectualidade, mas não é tão lido nem conhecido, porque é um autor difícil. É um tema complexo o de Salmo e é um tema que fala muito sobre o nacionalismo russo também. Então, obviamente que ali há polêmicas. Mas tem muita beleza nesse livro, porque o que ele fez, a atualização que ele fez da Bíblia, essa poética que ele criou é, para mim, algo inédito. É um livro totalmente imagético. Você vê que ele é um grande roteirista, porque a gente vê o livro. É impressionante. Quem gosta de Tarkóvsky tem aí muita coisa, porque lembra muito a linguagem dele.
Búfalo Celeste – Na sua opinião, a recepção da publicação do Friedrich Gorenstein foi à altura da importância do livro?
Daniela – Quando você trabalha com autores contemporâneos é normal isso. Eu acho até que teve mais repercussão do que muitos autores. Digo contemporâneos, Gorenstein morreu em 2002. Então, para um autor que morreu há pouco tempo, que é desconhecido, eu acho até que a recepção foi boa e isso não é um problema para a gente. Porque com uma editora, trabalhando com autores desconhecidos, você não tem que esperar algo diferente. Acho que a gente consegue até um pouco mais de visibilidade do que eu imaginava, porque nosso trabalho é super artesanal. Agora estamos trabalhando com a editora Hedra, mas até há dois anos basicamente tudo era feito na minha casa; com a nova parceria, continuamos cuidando pessoalmente de várias partes do livro. Então a gente tem esse processo e, na verdade, a gente gosta disso. Eu, pessoalmente, estou me dedicando ao meu pós-doutorado e a Kalinka continua sob os cuidados da Hedra e de meu pai.

          El Lissitzky, "História suprematista de dois quadrados em seis construções"
  
Búfalo Celeste – Vocês têm algum incentivo institucional da Rússia?
Daniela – Temos. A Rússia oferece uma relação de intercâmbio por meio da qual financia traduções. Então, você se inscreve num concurso e, se for contemplado, eles pagam a tradução; assim, recebemos, já há algum tempo, recursos do Instituto de Tradução, que fica em Moscou, e eles ajudam bastante. E agora com a Hedra teremos uma estrutura um pouco melhor, porque é quase impossível cuidar da parte comercial, venda, distribuição. Então, aqui, eles ajudam muito nisso.
Búfalo Celeste – Como é que vocês lidaram, justamente, com essa parte, que é complexa, a parte comercial, distribuição etc?
Daniela – Tinha uma funcionária que me ajudava, que agora está aqui [na Hedra]. Antes, uma distribuidora passava os livros para a Livraria Cultura, para a Martins Fontes, e eu cuidava das livrarias menores. Agora, dessa parte comercial, quem cuida é a Hedra. Então a gente faz, digamos, edições conjuntas. A Kalinka continua uma empresa independente, com liberdade de escolha dos títulos, mas  agora pode contar com a estrutura da Hedra, que ajuda muito. Isso vai possibilitar que a gente continue, porque, realmente, de outra forma, seria um pouco difícil
Búfalo Celeste – Gostaria de comentar sobre essa peculiaridade da presença da literatura russa no Brasil. Sempre houve publicação aqui de autores russos, mas houve uma forte retomada depois das traduções a partir do original russo.
É claro que há a qualidade óbvia da literatura russa, mas há um contraste entre o tamanho da comunidade russa no Brasil, que é pequena, e, no entanto, a literatura russa tem penetração mais do que proporcional no nosso mercado editorial. Como você explica isso?
Daniela – Para falar a verdade isso não é um fenômeno que acontece só aqui. Eu acho que a literatura russa se tornou algo obrigatório, o que não era. Então, quando ela começou a surgir, a ser descoberta pelos europeus, o que não faz tanto tempo, se você for pensar bem, porque a literatura russa moderna também é recente. Se você pegar o fim do século XIX, eles eram uma literatura considerada exótica, tirando Turguêniev e outros. E, de repente, a literatura russa, de umas décadas para cá, ela ganha esse espaço e se torna mais uma leitura obrigatória, virou um clássico.
Búfalo Celeste – Houve até um espanto na Europa ocidental, quando chegaram aqueles autores hoje clássicos, ao passo que a Rússia era considerada um país atrasado.
Daniela – Era considerada atrasada, e o Dostoiévski não era considerado um gênio. Houve vários motivos para a gente chegar até aqui, vários booms, vários processos, ondas, e eu concordo com você que, de uns anos para cá, no Brasil, houve uma redescoberta; a gente pode pensar, como ponto de redescoberta, o momento em que saiu a tradução, pelo Paulo Bezerra, do Crime e castigo, que foi realmente um grande impacto. Eu posso dizer que foi um best seller isso.
E, de lá para cá, o que eu achei mais interessante é essa busca por novos nomes. Quando eu criei a Kalinka com meu pai, a gente sentiu falta de um espaço para nomes menos conhecidos, porque basicamente era Tolstói, Dostoiévski, a coisa não saia muito disso. Mas as editoras precisavam fazer esse papel com os clássicos, e fizeram muito bem. A 34, ela traduziu muito, ela trouxe um Dostoiévski diretamente do russo, que não existia aqui. Naquela época, a CosacNaify estava fazendo o mesmo pelo Tolstói. Então, a gente sentia falta disso, de trazer nomes como o Daniil Kharms, um dos autores de que a gente gosta muito, e outros tantos que a gente vem trazendo.
Agora a situação mudou um pouco, não sei se você percebeu, mas há novos nomes por aí e várias editoras interessadas, então o processo ficou bem mais interessante, bem mais colorido e para a gente é ótimo. Então a Kalinka de alguma forma já está ocupando um outro espaço.

"O Professor Boris Schnaiderman praticamente cria essa tradição da tradução direta, ele cria o curso de russo na Universidade de São Paulo, nos anos sessenta, e, desde então, vários tradutores saíram dali direta ou indiretamente."


Búfalo Celeste – Os imigrantes, como o Boris Schnaiderman e a Tatiana Belinky, tiveram papel decisivo nessa presença e difusão da literatura russa entre nós?
Daniela – Ambos tiveram papel decisivo. O Professor Boris Schnaiderman praticamente cria essa tradição da tradução direta, ele cria o curso de russo na Universidade de São Paulo, nos anos sessenta, e, desde então, vários tradutores saíram dali direta ou indiretamente. Houve traduções diretas antes dele, mas ele criou uma tradição que não havia. Ele e seus discípulos. A professora Aurora Bernadini, o Paulo Bezerra, no Rio, um grupo de pessoas e foi se criando uma tradição, o que é diferente de você publicar uma coisa aqui e ali. E somos todos devedores do Professor Boris Schnaiderman, não só pelas traduções dele, que são impecáveis, mas pela atuação no jornalismo cultural, porque ele escreveu muito para jornal, trazendo novos nomes ou novas abordagens de autores como Maiakóvski, de que ele gostava muito. Enfim, o Professor Boris Schnaiderman cria um ponto central, nevrálgico para várias coisas que aconteceram depois dele. Não estou dizendo que ninguém fez nada além dele, mas que ele é uma figura importante e incontestável no nosso meio e, graças a Deus, viveu muito, ele morreu com quase 100 anos, e trabalhando, interessado, sempre em busca de novos autores, de novas linguagens.
Búfalo Celeste – E múltiplo, sob o ponto de vista de seus interesses intelectuais, aberto às vanguardas
Daniela – Ele gostava muito dessa busca e houve também o contato com os irmãos Campos, com quem ele fez duas traduções antológicas, do Maiakovski [Poemas. São Paulo: Tempo Brasileiro, 1967] e, depois, a Poesia russa moderna [Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968], que também foi um marco cultural e é até hoje. Nós não temos outra antologia como essa.

                     Daniela Mountian, cofundadora da editora Kalinka
__________

Imagens:
El Lissitzky (Pochnok, Império Russo, 23/11/1890 – Moscou, URSS, 30/12/1941), “Primeira página da “História suprematista de dois quadrados em seis construções”, 1922.



El Lissitzky, Segunda página da “História suprematista de dois quadrados em seis construções”, 1922.

Fonte:
https://www.getty.edu/research/tools/guides_bibliographies/lissitzky/index2.html


 Aleksandr Tcherepnin (São Petersburgo, Império Russo, 21/1/1899 - Paris, França, 29/9/1977), “Quatro arabescos”, op. 11, 1920/1921.



domingo, 1 de outubro de 2017


A dama de espadas. Prosa e poemas, de Aleksandr Púchkin

O impulsionador de uma nova tradição literária na Rússia





                                                            “Púchkin”, de Orest Kiprensky, 1827
 


O PROSADOR E O POETA

Por que te inquietas, prosador?
Escolhe os temas e, ao que for,
eu darei gume, alada rima,
e farei dele flecha exímia
que, após deixar a corda tesa
do arco dobrado servilmente,
voará certeira até que a presa,
nosso inimigo, se lamente!

(1825)

No dia 6 de junho, a Rússia comemora o Dia de Púchkin, um feriado nacional: as pessoas reúnem-se junto ao Monumento a Púchkin, levam flores e põem-se a recitar ou escutar os seus poemas. Em Bruxelas, em Sófia, em Nova Déli, em Madri, em Roma, há eventos semelhantes. Na Inglaterra, há um tradicional Festival Púchkin. Isso dá uma ideia da grandeza desse escritor, cuja arte continua a se irradiar até os dias de hoje. Em 2010, a Unesco aprovou tornar 6 de junho, igualmente, como o Dia da Língua Russa.

A grande tradição da literatura russa, inicia-se com o filho da aristocracia, Aleksandr Sierguéievitch Púckin (Moscou, 26/5/1799 – São Petersburgo, 29/1/1837).

Como é possível que se diga que Púchkin inicia uma nova tradição na literatura russa? Tome-se o caso da dramaturgia, por exemplo: afora as comédias de costumes, havia, no cenário teatral do começo do século XIX, peças traduzidas do francês ou do italiano ou imitações da tragédia neoclássica. Púchkin, em uma produção que se estende por apenas duas décadas, toma a si a tarefa de conciliar a língua russa verdadeiramente falada com os mais diversos gêneros literários que praticou. Púchkin foi, assim, ao mesmo tempo, um inventor e um mestre, para usar a terminologia de Ezra Pound. E tudo isso, lembre-se, numa vida que se encerrou abrupta e precocemente, num duelo.


Praticamente sozinho, o poeta teve que tomar inúmeras decisões, das menores às maiores, fazer centenas de escolhas, optar por tais ou quais modelos que pudessem ser, pela primeira vez, copiados, melhorados, deturpados etc. numa língua, numa tradição e num meio literário virgens, sem poder recorrer a precedentes bons ou ruins.
Quem inventou o soneto na Itália medieval não escreveu o primeiro grande soneto: este levaria ainda um século para surgir. Púchkin escreveu o primeiro grande soneto russo, a primeira grande balada, a primeira grande epopeia, a primeira grande tragédia, os primeiros grandes epigramas, os primeiros grandes poemas amorosos, os primeiros grandes contos, o primeiro grande romance histórico, e assim por diante. O admirável é que, quase sempre, ele escreveu tanto o "primeiro" de cada gênero quanto o "primeiro grande".
(Nelson Ascher In: “Uma enciclopédia da vida russa. Púchkin e a invenção de uma tradição”, Folha de S. Paulo, 3/10/2012, caderno Ilustríssima, p. 3).

A morte de Púchkin abala fortemente Gógol e Liérmontov, com os quais tinha relação de profunda amizade e aos quais inspirou e influenciou. A Gógol, inclusive, a morte do amigo tem o efeito, num primeiro momento, de interromper temporariamente a sua produção criativa; após isso, o escritor sente-se estimulado a concluir Almas mortas, cuja ideia – da mesma forma como acontecera com O inspetor geral - fora-lhe fornecida por Púchkin.

O opus magnum de Púchkin é a narrativa em versos – formato herdado de Byron - Ievguêni Oniéguin (1833), à qual ele se dedicou por cerca de oito anos. Trata-se de obra, sob o ponto de vista formal, extremamente complexa, com pouco mais de quatrocentas estrofes que são como pequenos sonetos, com quatorze versos rimados de oito sílabas métricas.
*

O presente volume traz uma coletânea de narrativas – novelas e contos – e uma pequena seleta de poemas.

As duas primeiras narrativas chegaram-nos inacabadas: “O negro de Pedro, o Grande” e “Dubróvski”.

O negro de Pedro, o Grande”, escrita em 1827, tem base semidocumental. Abram Ganíbal foi trisavô de Púchkin pelo lado materno. Pesquisas posteriores comprovaram que Abram, nascido Ibraim, nasceu no antigo Sudão Central. Foi comprado pelo Sultão de Constantinopla e dado de presente para o czar Pedro, o Grande. Púchkin orgulhava-se de suas raízes africanas, como também de sua linhagem aristocrática paterna.

Entre os jovens que Pedro, o Grande, enviou a terras estranhas, a fim de obterem informações indispensáveis à reforma do Estado, figurava o negro Ibraim, afilhado do czar. O jovem estudou na escola militar de Paris, foi promovido a capitão de artilharia, destacou-se na guerra da Espanha e, depois de gravemente ferido, voltou a Paris. (p. 19).

Ibraim vive, em Paris, um amor com uma condessa casada, o que desperta mexericos redobrados, pela infidelidade e pelo inusitado da relação de uma nobre com um negro.

A nova ligação da condessa logo se tornou conhecida por todos. Algumas senhoras se admiravam da sua escolha; para muitos, todavia, ela parecia bem natural. Alguns riam, outros viam uma imprudência indesculpável da sua parte. Nos primeiros transportes da paixão, Ibraim e a condessa nada percebiam, mas pouco foi preciso para que começassem a chegar até eles as pilhérias ambíguas dos homens e as observações ferinas das mulheres. (pp. 24-25).

Outras peripécias acontecerão com a volta de Ibraim para a Rússia.

Com essa primeira novela, o leitor já tem contato com uma qualidade refinada da prosa do grande escritor russo: a fluência e elegância de sua escrita e, de maneira igualmente admirável, a sua capacidade de rapidamente situar a cena, os personagens, e apresentar o nó da narrativa.

O estilo do autor busca a concisão, o que confere leveza e atualidade ao seu texto e, como essa virtude está na essência da poesia, surgem daí algumas das razões de Púchkin ser considerado o grande poeta russo, num país de tão magistrais artistas do verso.

O Narrador de Púchkin interessa-se sobremaneira pela trama e pela forma como reagem as personagens envolvidas; quase não se vê descrição de locais, paisagem, compleição física ou indumentária de personagens, o que, muitas vezes, como se sabe, toma parágrafos e até páginas de certa literatura romântica.




                                 Auto-retrato de Púchkin, 1820s
  
Vivia anos atrás, numa das suas propriedades, o grão-senhor russo de antiga linhagem Kirila Pietróvitch Troiekurov. A sua riqueza, alta estirpe e boas relações davam-lhe muita importância na região em que se localizava a sua propriedade. Os vizinhos ficavam contentes de satisfazer-lhe os menores caprichos; as autoridades provinciais tremiam ao ouvir o seu nome; Kirila Pietróvitch aceitava as provas de subserviência como tributo que lhe fosse devido; a sua casa estava sempre cheia de convidados, prontos a divertir a sua ociosidade senhoril, e que tomavam parte em seus ruidosos e às vezes violentos divertimentos. (p. 61).

A interessantíssima novela “Dubróvski”, encontrada entre os papeis do autor, entrelaça três topoi: os labirintos e os absurdos do Judiciário, o bandido justiceiro e os amantes de famílias rivais.

Terá Púchkin tomado contato com a novela Michael Kohlhaas (1810) de Heinrich von Kleist (1777 – 1811)? Se não foi o caso, Kafka apreciou esse escritor alemão que, certamente, foi uma inspiração para o romance O processo. As filiações românticas em “Dubróvski” transparecem na imagem idealizada do protagonista e no desenvolvimento do enredo que leva a que os destinos dos amantes venham a cruzar-se, afora outras características.

A observação do cotidiano da vida provinciana da Rússia sob o regime da servidão dá especial interesse à novela e permite-nos contextualizar as inquietações social e política que percorrem a história do país no século XIX, com o desfecho que se seguiria no começo do século seguinte. Inquietações, aliás, que estiveram presentes na vida de Púchkin: instalado em São Petersburgo, após a conclusão de sua formação acadêmica, começou a trabalhar no Ministério de Relações Exteriores, em 1820, e envolve-se com movimentos reformistas; com a repressão do governo, sob o czar Alexandre I, o escritor é desterrado e, a serviço do general Ínzov, conhece o Cáucaso e a Crimeia, o que lhe dá um retrato da vida e dos costumes nessas regiões da Rússia.

A defesa da reforma social apresenta-se na novela na forma como o Narrador expõe a classe ociosa dos grãos-senhores, aqui representado pelo bronco, bossal e perverso Kirila Pietróvitch Troiekurov, e, como consequência, o ambiente opressivo da província por força do poder dos proprietários de terras. E o narrador, na tradição de intimidade com o leitor que vem do século XVIII, não esconde que toma partido e o seu propósito de expor as entranhas dessas estruturas de desigualdade:

Fez-se um silêncio profundo, e o secretário do tribunal passou a ler a resolução com voz sonora. Vamos transcrevê-la na íntegra, pois supomos que o leitor gostará de conhecer um dos meios pelos quais, na Rússia, podemos perder uma propriedade sobre a qual temos direitos indiscutíveis. (p. 70).

A respeito, surpreende a ousadia do Narrador de ocupar oito páginas da novela com uma sentença judicial, o que também é mostra daquela determinação, antes citada, de analisar o modus operandi do poder e da opressão no interior da Rússia.

*

A dama de espadas”, novela-título do volume, de 1831, serviu de base para a ópera homônima de Tchaikóvsky, de 1890 e tem, curiosamente, um longo histórico de adaptações para o cinema, como por exemplo, entre os longa-metragens, pelo diretor russo Yakov Protazanov (“Pikovaia dama”, 1916); por Fyodor Otsep, em uma produção francesa de 1937 (“La dame de pique”); por Thorold Dickinson, em uma produção inglesa de 1949 (“The queen of spades”; por Léonard Keigel, em uma produção francesa de 1965 (“La dame de pique”) e por Pavel Lungin, em uma produção russa recente, de 2016 (“Dama pik”). A primeira adaptação cinematográfica da novela ocorreu num curta-metragem russo, de 1910, sob a direção de Pyotr Chardynin.

Se se pode ver tons de Kleist em “Dubróvski”, “A dama de espadas”, contrariamente, pode ser entendido, guardadas as diferenças de época, estilo e intenções, como uma fonte inspiradora para Crime e castigo (1866), de Dostoiévski. Da mesma forma como na obra monumental posterior de seu conterrâneo, temos aqui um jovem - um engenheiro - ambicioso e amoral, Hermann, que, movido pela cobiça, idealiza e executa, minuciosamente, um plano para aproximar-se de uma condessa, de oitenta e sete anos, a fim de dela obter um mecanismo secreto para obter fortuna em jogo de cartas. Para atingir seu intento, Hermann não hesita em aproveitar-se da inocência de Ielisavieta Ivânovna (também identificada como Lisavieta ou Lísanka), pupila da condessa.

A trama, de feitio gótico, com elementos macabros e sobrenaturais, resvalando num pacto demoníaco, redunda numa tragédia.

Por meio de bela passagem com o recurso de discurso indireto livre, o Narrador extrai forte efeito dramático, arremessando o leitor para dentro da ansiedade e da angústia de Lisavieta:

Lisavieta Ivanôvna, ainda em traje de baile, estava sentada em seu quarto, imersa em profunda meditação. Assim que chegara, apressara-se a dispensar a criada sonolenta que lhe oferecera de má vontade os seus préstimos; disse-lhe que ia despir-se sozinha, e entrou trêmula no quarto, esperando encontrar ali Hermann, e não querendo encontrá-lo. Certificou-se, ao primeiro olhar, da sua ausência e agradeceu ao destino o obstáculo que impedira aquela entrevista. Sentou-se sem se despir, e começou a lembrar todas as circunstâncias que a arrastaram tão longe em tão pouco tempo. Não passaram ainda três semanas desde que ela vira da sua janelinha, pela primeira vez, aquele jovem, e já mantinha correspondência e ele conseguira dela uma entrevista noturna! (p. 171).

*

O chefe da estação

Quem não maldisse um dia os chefes de estação, quem não brigou com eles? Quem, num momento de furor, não lhes exigiu o livro fatal, para inscrever nele a sua inútil queixa contra a prepotência, a brutalidade e a incúria? Quem não os considera monstros da espécie humana, idênticos aos falecidos sub-amanuenses ou pelo menos aos bandoleiros de Múrom? Sejamos, todavia, justos e procuremos colocar-nos na sua posição, e talvez os consideremos então com muito maior condescendência. (p. 183)

Esse conto curto e singelo mostra, mais uma vez, a capacidade do escritor de voltar o olhar para as personagens simples das vastidões russas, no caso um Chefe de estação que mora com sua encantadora e jovem filha. Naquela época, essas estações eram postos nos quais se fazia a troca de cavalos, para que as carruagens pudessem seguir viagem, com animais descansados.
O chefe da estação” e os demais contos do volume apareceram nas Novelas do falecido Ivan Pietróvitch Biélkin (1830).
A narrativa, de tons melancólicos, é contada em primeira pessoa por um funcionário de “posto modesto” e nela acompanhamos a abrupta perda da inocência da menina – Avdótia, tratada afetivamente como Dúnia - a quem a vida do Chefe da estação é dedicada.
*

O tiro”, ficcionalizado a partir de elementos autobiográficos, mais uma vez segue a estrutura do conto anterior: uma personagem que está próxima aos fatos do enredo narra em primeira pessoa uma história em que outras personagens serão as protagonistas.

Num destacamento militar situado num lugarejo, Sílvio é o único civil que reside nas redondezas. O narrador é um jovem oficial que se impressiona com esse senhor de cerca de trinta e cinco anos e que tem incrível habilidade de atirador.

O conto é uma oportunidade de conhecer códigos culturais sinistros de sociedades fortemente estruturadas sobre o conceito de honra, como é o caso da Rússia à época de Púchkin; o próprio artista, lamentavelmente, foi vítima desses valores, em um duelo, como também, quatro anos depois, o seu pupilo e amigo Mikhail Liérmontov.

*

Os tons sombrios desfazem-se em “O fazedor de caixões”: contada em terceira pessoa é uma narrativa leve e bem-humorada, mostrando, assim, a versatilidade do autor.
O interesse de Púchkin pelas pessoas simples que ganham modestamente a vida nas mais distantes localidades da Rússia, o faz, aqui, retratar um agente funerário, extraindo daí situações em que, com habilidade, juntam-se o cômico e o macabro, bem à maneira das narrativas de sabor popular encontráveis em todas as culturas.

*

Kirdjali” é também um conto saboroso, narrado em terceira pessoa. O título é o nome da personagem retratada, líder de uma malta de salteadores: “(…) búlgaro de nascimento. Kirdjali, em turco, significa paladino, valente. Não sei o seu verdadeiro nome. // Kirdjali aterrorizava toda a Moldávia com o seus atos de banditismo.” (p. 221)
Kirdjali e seu bando põem os seus serviços à disposição das lutas insurrecionais dos povos da região, mas tendo em mente sempre, independentemente da causa, a oportunidade de auferir os melhores benefícios materiais. Apesar dos métodos violentos do bando, o conto é dirigido para impressionar o leitor com a astúcia de Kirdjali.

*

Encerra o volume uma seleta de poemas do patrono russo da poesia e das letras, que deixou um legado inestimável no percurso de uma vida tão breve. A pequena recolha faz brilhar a mente do leitor à vista da habilidade refinadíssima do versejador, da sua verve, espirituosidade e capacidade de fazer desfilar diante de nós pedras de toque com tanta profusão: pequenas joias de grande dimensão artística do imortal Púchkin.

Nicolau I

Há pouco é tsar e opera
milagres com afinco:
mandou já cento e vinte homens à Sibéria
e, ao cadafalso, cinco.

(1826?)

(p. 238)

*

Edição utilizada:
PÚCHKIN, Aleksanr. A dama de espadas. Prosa e poemas. 2ª ed., trad. Boris Schnaiderman e Nelson Ascher, São Paulo: Editora 34, 2006, prefácio de Boris Schnaiderman; texto nas duas orelhas: Aurora Bernardini; capa contém desenho a bico de pena de Púchkin, aquarelados por Cynthia Cruttenden. 264 pp. 14x21cm.



                 Biblioteca e mesa de trabalho de Púchkin em São Petersburgo

Imagens:
Púchkin”, de Orest Kiprensky, 1827, óleo sobre tela, 63x54cm. Galeria Tretyakov, Moscou.
http://artrussia.ru/en/picture_rarity/110
Auto-retrato de Púshkin, ca. 1820
http://www.saint-petersburg.com/famous-people/alexander-pushkin/

Biblioteca e mesa de trabalho de Púchkin em São Petersburgo
http://www.saint-petersburg.com/famous-people/alexander-pushkin/




A dama de espadas”: dueto de Hermann e Lisa, com Plácido Domingo e Galina Gorchakova, 1998; da ópera de Tchaikóvsky, de 1890.


terça-feira, 6 de junho de 2017


Memórias do subsolo, de Fiódor Dostoiévski

Um mergulho no subsolo do homem contemporâneo




                           Oswaldo Goeldi: “Luz Noturna”
 

Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma instrução, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isto. Ora, eu compreendo. (p. 15).

*

Poucas vezes como aqui, nessa novela de Dostoiévski (Moscou, 11/11/1821 – São Petersburgo, 9/2/1881), a literatura ocidental terá atingido tal grau de radicalidade, seja no plano da forma dessa obra de arte, seja, quanto ao seu conteúdo, na sua capacidade de escavar o subsolo do homem e de sua época.

A força explosiva e paradoxal dessa obra inaugura a parte final da trajetória artística do escritor russo, em que se destacam os “cinco elefantes”, denominação dada aos grandes romances que terão papel central na literatura, na arte, na cultura e na filosofia: Crime e castigo (1865), O idiota (1869), Os demônios (1872), O adolescente (1875) e Os irmãos Karamázov (1881).

*

Em 1859, Dostoiévski readquire a liberdade, depois de dez anos de prisão, trabalhos forçados e exílio como pena por sua participação no Círculo Petrashevski, um grupo acusado de conspirar contra o czar Nicolau I. Essa dura experiência serviu de base para as Recordações da Casa dos Mortos (1862), obra que traz de volta ao autor reconhecimento do público, após o seu período de afastamento. Antes dessa obra e após o seu retorno à Rússia, publicara O sonho do Tio (1859), A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes (1859) e Humilhados e ofendidos (1861).
Entre 1862 e 1863, o escritor viajou pela Europa, passando por Berlim, Paris, Londres, Genebra, Turim, Florença e Viena, período em que perdeu muito dinheiro por vício em jogo, experiência que daria origem ao romance O jogador (1867)
Em 1864, finalmente, publica Memórias do subsolo, no jornal “Época”, que fundara com o seu irmão, Mikhail.

*

A novela, de caráter híbrido, tanto pela sua estrutura como pelos seus conteúdos ao mesmo tempo literário e filosófico, compõe-se de duas partes: “O subsolo” e “A propósito da neve molhada”, ambas narradas por um Narrador em primeira pessoa, do qual – começam aí as estranhezas - não sabemos o nome.

Em verdade, a originalidade da obra dá-se antes mesmo do início da narrativa: no primeiro trecho de uma nota introdutória, o escritor assinala que “tanto o autor como o texto destas memórias são, naturalmente, imaginários”.
Ou seja, o autor, de plano, ousadamente desvia-se da prática literária hegemônica até então, pela qual a obra literária se esforçava para exercer a “suspensão da desconfiança” do leitor. É justamente contra esse ilusionismo que, muito tempo depois, o dramaturgo, escritor, ensaista e encenador alemão Bertolt Brecht (1898 - 1956) desenvolveria teórica e artisticamente, no âmbito do “teatro épico”, a técnica por ele denominada de “efeito de estranhamento” (também conhecida como “efeito de distanciamento”), para estimular que o receptor assuma uma postura crítica diante da obra de arte.

Memórias do subsolo é também uma obra de combate, profundamente inserida nas discussões e nos impasses da sociedade russa do seu tempo, às voltas com as tentativas, por um certo setor da intelligentsia, de criar no país as condições para um aggiornamento fértil para uma revolução ou modernização burguesas. O autor, crítico a essa tendência e da sociedade que começa a se moldar por força dessas transformações, vai além desse contexto, contudo, dando matizes filosóficos a esse debate, absorvido indiretamente para dentro da narrativa, sempre por meio da “tagarelice” crispada e raivosa do protagonista, notadamente na primeira parte da novela.

Tagarela, como ele próprio se denomina, irreverente, corrosivo, sarcástico, autodestrutivo, anárquico, contraditório, oscilando entre arroubos e o patético, o Narrador conta com quarenta anos no momento em que redige as suas memórias, dirigindo-se a interlocutores, frequentemente designados como “meus senhores”, todavia não identificados.
Na rica linhagem dos pobres-diabos da literatura russa, o Narrador foi um órfão criado por parentes distantes e dos quais não teve mais notícias.
Desde os primeiros anos escolares, as recordações que lhe vêm são aquelas que o perseguiriam por toda a vida: sentir-se dessemelhante, ter desprezo por aqueles que o rodeiam e, por via de consequência, o sentimento de superioridade em relação ao seu meio social (cf. pp. 81-83).


                              São Petersburgo, 1895


Fiz parte do funcionalismo a fim de ter algo para comer (unicamente para isto), e quando, no ano passado, um dos meus parentes afastados me deixou seis mil rublos em seu testamento, aposentei-me imediatamente e passei a viver neste meu cantinho. Já antes disso vivi aqui, mas agora instalei-me nele. Tenho um quarto ordinário nos arredores da cidade. A minha criada é uma aldeã velha, ruim por estupidez, e, além disso, cheira sempre mal. Dizem-me que o clima de Petersburgo está-me prejudicando e que, para os meus insignificantes recursos, a vida aqui é muito cara. Sei disso; sei melhor que todos estes conselheiros e protetores experimentados e sábios. Mas ficarei em Petersburgo; não deixarei esta cidade! Não a deixarei porque... Eh! Mas, na realidade, me é de todo indiferente o fato de que a deixe ou não.
Dizei-me: de que pode falar um homem decente, com o máximo prazer?
Resposta: de si mesmo.
Então, também vou falar de mim. (pp. 17-18).


Ao tratar de si, como se propõe, o Narrador dirigirá, em verdade, radicalmente, o seu olhar para os fundamentos - o subsolo - do sujeito, da sociedade e da cultura de sua época, em uma crítica tão aguda que, certamente, está ainda carregada de atualidade. Ademais, a tagarelice reflexiva do Narrador impressiona duplamente, uma vez que essa nova sociedade, florescente na Europa ocidental, era ainda muito embrionária na Rússia de meados do século XIX e, por outro lado, a visão crítica dessa nova formação social ainda estava nascente em outros campos do conhecimento, na Filosofia, na História, na Sociologia ainda em formação.

Se a radicalidade desse olhar já parece ousada na década de 60 do século XIX, que se dirá do próprio questionamento desse olhar?

Eis o que seria melhor mesmo: que eu próprio acreditasse, um pouco que fosse, no que acabo de escrever. Juro-vos, meus senhores, que não creio numa só palavrinha de tudo quanto rabisquei aqui! Isto é, talvez eu creia, mas, ao mesmo tempo, sem saber por quê, sinto e suspeito estar mentindo como um desalmado. (p. 51).

Estais rindo? Fico muito contente. Os meus gracejos, senhores, são naturalmente de mau gosto, desiguais, incoerentes, repassados de autodesconfiança. Mas isto realmente ocorre porque eu não me respeito. Pode porventura um homem consciente respeitar-se um pouco sequer? (p. 28).
 
Opondo-se às propostas para amoldar a sociedade e a cultura russas de forma a criarem-se as condições para a revolução industrial, o Narrador investe duramente contra os efeitos dessas transformações: a alienação, a consciência fragmentada e o positivismo.

Repito, repito com insistência: todos os homens diretos e de ação são ativos justamente por serem parvos e limitados. Como explicá-lo? Do seguinte modo: em virtude de sua limitada inteligência, tomas as causas mais próximas e secundárias pelas causas primeiras e, deste modo, se convencem mais depressa e facilmente que os demais de haver encontrado o fundamento indiscutível para a sua ação e, então se acalmam; e isto é de fato o mais importante. Para começar a agir, é preciso, de antemão, estar de todo tranquilo, não conservando quaisquer dúvidas. E como é que eu, por exemplo, me tranquilizarei? Onde estão as minhas causas primeiras, em que me apoie? Onde estão só fundamentos? Onde irei buscá-los? Faço exercício mental e, por conseguinte, em mim, cada causa primeira arrasta imediatamente atrás de si outra, ainda anterior, e assim por diante, até o infinito. Tal é, de fato, a essência de toda consciência, do próprio ato de pensar.” (p. 30).

A implicância do Narrador com a sociedade do cálculo garante momentos memoráveis, que beiram o cômico. Para ele, a razão, puramente, não dá conta do imponderável da alma humana e até mesmo do irracional e do sombrio que espreitam tudo o que é humano.

Suponhamos que o homem não faça outra coisa senão procurar este dois e dois são quatro: ele atravessa os oceanos a nado, sacrifica a vida nesta busca, mas, quanto a encontrá-lo realmente... juro por Deus, tem medo. Bem que ele sente: uma vez encontrado isto, não haverá mais o que procurar. Operários que terminam uma tarefa com certeza recebem dinheiro e vão a um botequim , acabando no distrito policial – bem, aí estão ocupações para uma semana. Mas o homem para onde irá? Percebe-se nele constantemente algo de inábil toda vez que atinge tais objetivos. Ele ama o ato de alcançar, mas, alcançar, de fato, nem sempre. E isto, está claro, é ridículo ao extremo. Numa palavra, o homem está arranjado de modo cômico; em tudo isso, provavelmente, há um trocadilho. Mas dois e dois são quatro é, apesar de tudo, algo totalmente insuportável. Dois e dois são quatro constitui, a meu ver, simplesmente uma impertinência. Dois e dois fica feito um peralvilho, atravessado no vosso caminho, as mãos nas cadeiras, cuspindo. Estou de acordo em que dois e dois são uma coisa admirável; mas, se é para elogiar tudo, então dois e dois são cinco também constitui, às vezes, uma coisinha simpática. (p. 47).

Na segunda parte - “A propósito da neve molhada” - desenvolve-se, propriamente, o segmento dramático da narrativa. Registre-se, a propósito, outro aspecto importante da novela: o Narrador não é um observador distante dos fenômenos que delineia e critica; o seu próprio ser é um campo de batalha das tensões e contradições do novo sujeito que se insinua na sociedade russa em transformação. Tudo isso ficará claro e adquirirá tons dramáticos nessa parte final da novela.

Os acontecimentos narrados na segunda parte ocorrem dezesseis anos antes do momento em que o Narrador redige as suas memórias e têm o seu clímax quando do encontro com a prostituta Liza, depois de algumas peripécias envolvendo a busca – carregada de elementos contrastivos: desespero, desprezo pelos semelhantes, auto-humilhação – de relacionamento social com colegas de trabalho e antigos colegas de escola.
No curto envolvimento com Liza, o entrechoque extremo de forças contrárias na interioridade do Narrador, ou seja, os impulsos autodestrutivos convivendo com a compulsão para “tiranizar e dominar moralmente”, conduzem a narrativa para um desfecho de alta tensão, em que não subsistem quaisquer resíduos de sentimentalismo romântico.

Inicia-se, assim, um novo capítulo na história da literatura.


                              Dostoiévski, aos 41 anos


Da obra: Zapíski iz podpólia.
Edição utilizada:
Fiódor Dostoiévski – Memórias do subsolo. Trad., prefácio, notas de Boris Schnaiderman, 6ª ed., São Paulo: Editora 34, 2009. 152 pp., 2ª reimpressão, 2015. Coleção Leste, sob direção de Nelson Ascher. 
Contém breves excursos biográficos do autor e do tradutor. Texto nas duas orelhas: Manuel da Costa Pinto. Imagem da capa: a partir de desenho a bico de pena de Oswaldo Goeldi, ca. 1946. 21x14cm.
ISBN 978-85-7326-185-1


*

Imagens:
Xilogravura de Oswaldo Goeldi: “Luz Noturna”, ca. 1960, xilogravura póstuma, coleção particular.
https://revistacontemporartes.blogspot.com.br

São Petersburgo, 1895 (?), de P. I. Babkina.
Título: Nevskii prospekt u Gostinago Dvora.
New York Public Library
https://digitalcollections.nypl.org

Retrato do autor
http://www.fyodordostoevsky.com



 

Sofia Gubaidulina (Rússia, 1931) - “Sonata para contrabaixo e piano”.

Krems, Viena, Áustria, 6 de abril de 2012.
Imago Dei – Festival de Música Contemporânea
Daniele Roccato, contrabaixo; Fabrizio Ottaviucci, piano.