O
Dia Mundial da Poesia foi instituído pela XXX Conferência Geral da
Unesco, em 16 de novembro de 1999.
domingo, 1 de outubro de 2017
A
dama de espadas. Prosa e poemas, de Aleksandr Púchkin
O
impulsionador de uma nova tradição literária na Rússia
“Púchkin”,
de Orest Kiprensky, 1827
O
PROSADOR E O POETA
Por
que te inquietas, prosador?
Escolhe
os temas e, ao que for,
eu
darei gume, alada rima,
e
farei dele flecha exímia
que,
após deixar a corda tesa
do
arco dobrado servilmente,
voará
certeira até que a presa,
nosso
inimigo, se lamente!
(1825)
No
dia 6 de junho, a Rússia comemora o Dia de Púchkin, um feriado
nacional: as pessoas reúnem-se junto ao Monumento a Púchkin, levam
flores e põem-se a recitar ou escutar os seus poemas. Em Bruxelas,
em Sófia, em Nova Déli, em Madri, em Roma, há eventos semelhantes.
Na Inglaterra, há um tradicional Festival Púchkin. Isso dá uma
ideia da grandeza desse escritor, cuja arte continua a se irradiar
até os dias de hoje. Em 2010, a Unesco aprovou tornar 6 de junho,
igualmente, como o Dia da Língua Russa.
A
grande tradição da literatura russa, inicia-se com o filho da
aristocracia, Aleksandr Sierguéievitch Púckin (Moscou, 26/5/1799 –
São Petersburgo, 29/1/1837).
Como
é possível que se diga que Púchkin inicia uma nova tradição na
literatura russa? Tome-se o caso da dramaturgia, por exemplo: afora
as comédias de costumes, havia, no cenário teatral do começo do
século XIX, peças traduzidas do francês ou do italiano ou
imitações da tragédia neoclássica. Púchkin, em uma produção
que se estende por apenas duas décadas, toma a si a tarefa de
conciliar a língua russa verdadeiramente falada com os mais diversos
gêneros literários que praticou. Púchkin foi, assim, ao mesmo
tempo, um inventor e um mestre, para usar a terminologia de Ezra
Pound. E tudo isso, lembre-se, numa vida que se encerrou abrupta e
precocemente, num duelo.
Praticamente
sozinho, o poeta teve que tomar inúmeras decisões, das menores às
maiores, fazer centenas de escolhas, optar por tais ou quais modelos
que pudessem ser, pela primeira vez, copiados, melhorados, deturpados
etc. numa língua, numa tradição e num meio literário virgens, sem
poder recorrer a precedentes bons ou ruins. Quem
inventou o soneto na Itália medieval não escreveu o primeiro grande
soneto: este levaria ainda um século para surgir. Púchkin escreveu
o primeiro grande soneto russo, a primeira grande balada, a primeira
grande epopeia, a primeira grande tragédia, os primeiros grandes
epigramas, os primeiros grandes poemas amorosos, os primeiros grandes
contos, o primeiro grande romance histórico, e assim por diante. O
admirável é que, quase sempre, ele escreveu tanto o "primeiro"
de cada gênero quanto o "primeiro grande".
(Nelson
Ascher In: “Uma enciclopédia da vida russa. Púchkin e a invenção
de uma tradição”, Folha de S. Paulo, 3/10/2012,
caderno Ilustríssima, p. 3).
A
morte de Púchkin abala fortemente Gógol
e Liérmontov, com os quais tinha relação de profunda amizade e aos
quais inspirou e influenciou. A Gógol,
inclusive, a morte do amigo tem o efeito, num
primeiro momento, de interromper
temporariamente a sua produção criativa; após isso, o escritor
sente-se estimulado
a concluir Almas
mortas, cuja ideia – da mesma
forma como acontecera comO inspetor geral
- fora-lhe
fornecida por Púchkin.
O
opus magnum
de Púchkin é a narrativa em versos – formato herdado de Byron -
Ievguêni Oniéguin
(1833), à qual ele se dedicou por cerca de oito anos. Trata-se de
obra, sob o ponto de vista formal, extremamente complexa, com pouco
mais de quatrocentas estrofes que são como pequenos sonetos, com
quatorze versos rimados de oito sílabas métricas.
*
O
presente volume traz uma coletânea de
narrativas – novelas e contos – e uma pequena seleta de poemas.
As
duas primeiras narrativas chegaram-nos inacabadas: “O negro de
Pedro, o Grande” e “Dubróvski”.
“O
negro de Pedro, o Grande”, escrita
em 1827, tem base semidocumental. Abram
Ganíbal foi trisavô de Púchkin pelo lado materno. Pesquisas
posteriores comprovaram que Abram, nascido Ibraim, nasceu no antigo
Sudão Central. Foi comprado pelo Sultão de Constantinopla e dado de
presente para o czar
Pedro, o Grande. Púchkin orgulhava-se de suas raízes africanas,
como também de sua linhagem aristocrática paterna.
Entre
os jovens que Pedro, o Grande, enviou a terras estranhas, a fim de
obterem informações indispensáveis à reforma do Estado, figurava
o negro Ibraim, afilhado do czar. O jovem estudou na escola militar
de Paris, foi promovido a capitão de artilharia, destacou-se na
guerra da Espanha e, depois de gravemente ferido, voltou a Paris.
(p. 19).
Ibraim
vive, em Paris, um amor com uma condessa casada, o que desperta
mexericos redobrados, pela infidelidade
e pelo inusitado da relação de uma nobre com um negro.
A
nova ligação da condessa logo se tornou conhecida por todos.
Algumas senhoras se admiravam da sua escolha; para muitos, todavia,
ela parecia bem natural. Alguns riam, outros viam uma imprudência
indesculpável da sua parte. Nos primeiros transportes da paixão,
Ibraim e a condessa nada percebiam, mas pouco foi preciso para que
começassem a chegar até eles as pilhérias ambíguas dos homens e
as observações ferinas das mulheres. (pp. 24-25).
Outras
peripécias acontecerão com a volta de Ibraim para
a Rússia.
Com
essa primeira novela, o leitor já tem contato com uma qualidade
refinada da prosa do grande escritor russo: a fluência e elegância
de sua escrita e, de maneira igualmente admirável, a sua capacidade
de rapidamente situar a cena, os personagens, e apresentar o nó da
narrativa.
O
estilo do autor busca a concisão, o que confere leveza e atualidade
ao seu texto e, como essa virtude está
na essência da poesia, surgem daí
algumas das razões de Púchkin ser considerado o grande poeta russo,
num país de tão magistrais artistas do verso.
O
Narrador de Púchkin interessa-se sobremaneira pela trama e pela
forma como reagem as personagens envolvidas; quase não se vê
descrição de locais, paisagem, compleição física ou indumentária
de personagens, o que, muitas vezes, como se sabe, toma parágrafos e
até páginas de certa
literatura romântica.
Auto-retrato
de Púchkin, 1820s
Vivia
anos atrás, numa das suas propriedades, o grão-senhor russo de
antiga linhagem Kirila Pietróvitch Troiekurov. A sua riqueza, alta
estirpe e boas relações davam-lhe muita importância na região em
que se localizava a sua propriedade. Os vizinhos ficavam contentes de
satisfazer-lhe os menores caprichos; as autoridades provinciais
tremiam ao ouvir o seu nome; Kirila Pietróvitch aceitava as provas
de subserviência como tributo que lhe fosse devido; a sua casa
estava sempre cheia de convidados, prontos a divertir a sua
ociosidade senhoril, e que tomavam parte em seus ruidosos e às vezes
violentos divertimentos. (p. 61).
A
interessantíssima novela “Dubróvski”, encontrada entre
os papeis do autor, entrelaça três topoi: os labirintos e os
absurdos do Judiciário, o bandido justiceiro e os amantes de
famílias rivais.
Terá
Púchkin tomado contato com a novela Michael Kohlhaas (1810)
de Heinrich von Kleist (1777 – 1811)? Se não foi o caso, Kafka
apreciou esse escritor alemão que, certamente, foi uma inspiração para o romance O processo. As
filiações românticas em “Dubróvski” transparecem na imagem
idealizada do protagonista e no desenvolvimento do enredo que leva a
que os destinos dos amantes venham a cruzar-se, afora
outras características.
A
observação do cotidiano da vida provinciana da Rússia sob o regime
da servidão dá especial interesse à novela e permite-nos
contextualizar as inquietações social e política que percorrem a
história do país no século XIX, com o desfecho que se seguiria no
começo do século seguinte. Inquietações,
aliás, que estiveram presentes na vida de Púchkin: instalado
em São Petersburgo, após a conclusão de sua formação acadêmica,
começou a trabalhar no Ministério de Relações Exteriores, em
1820, e envolve-se com movimentos reformistas; com a repressão do
governo, sob o czar Alexandre I, o
escritor é desterrado e, a serviço do general Ínzov, conhece o
Cáucaso e a Crimeia, o que lhe dá um retrato da vida e dos costumes
nessas regiões da Rússia.
A
defesa da reforma social
apresenta-se na novela na forma como o Narrador expõe a classe
ociosa dos grãos-senhores, aqui representado pelo
bronco, bossal e perversoKirila Pietróvitch
Troiekurov, e, como
consequência, o ambiente opressivo da província por força do poder
dos proprietários de terras.
E o narrador, na
tradição de intimidade com o leitor que vem do século XVIII,
não esconde que toma partido
e o seu propósito de expor
as entranhas dessas
estruturas de desigualdade:
Fez-se
um silêncio profundo, e o secretário do tribunal passou a ler a
resolução com voz sonora. Vamos transcrevê-la na íntegra, pois
supomos que o leitor gostaráde
conhecer um dos meios pelos quais, na Rússia, podemos perder uma
propriedade sobre a qual temos direitos indiscutíveis. (p.
70).
A
respeito, surpreende a ousadia do Narrador de ocupar oito páginas da
novela com uma sentença judicial, o que também é mostra daquela
determinação, antes citada, de analisar o modus operandi
do poder e da opressão no interior da Rússia.
*
“A
dama de espadas”,
novela-título do volume, de 1831, serviu de base para a ópera
homônima de Tchaikóvsky, de 1890 e
tem, curiosamente, um longo histórico de adaptações para o cinema,
como por exemplo,entre
os longa-metragens, pelo
diretor russo Yakov Protazanov (“Pikovaia dama”, 1916); por
Fyodor Otsep, em uma produção francesa de 1937 (“La dame de
pique”);por
Thorold Dickinson, em uma produção inglesa de 1949 (“The queen of
spades”; por Léonard Keigel, em uma produção francesa de 1965
(“La dame de pique”) e por Pavel Lungin, em uma produção russa
recente, de 2016 (“Dama pik”). A
primeira adaptação cinematográfica da novela ocorreu num
curta-metragem russo, de 1910, sob a direção de Pyotr Chardynin.
Se
se pode ver tons de Kleist em “Dubróvski”, “A dama de
espadas”, contrariamente, pode ser entendido, guardadas as
diferenças de época, estilo e intenções, como uma fonte
inspiradora para Crime e castigo (1866),
de Dostoiévski. Da mesma forma como na obra monumental posterior de
seu conterrâneo, temos aqui um jovem -
umengenheiro
-
ambicioso e amoral, Hermann, que,
movido pela cobiça, idealiza e executa, minuciosamente, um plano
para aproximar-se de uma condessa, de oitenta e sete anos, a fim de
dela obter um mecanismo secreto para obter fortuna em jogo de cartas.
Para atingir seu intento, Hermann não hesita em aproveitar-se da
inocência de Ielisavieta Ivânovna (também identificada como
Lisavieta ou Lísanka), pupila da condessa.
A
trama, de feitio gótico, com
elementos macabros e sobrenaturais,resvalando num pacto
demoníaco, redunda numa
tragédia.
Por
meio de bela passagem com o
recurso de discurso indireto
livre,
o Narrador extrai forte efeito dramático, arremessando o leitor para
dentro da ansiedade e da
angústia de Lisavieta:
Lisavieta
Ivanôvna, ainda em traje de baile, estava sentada em
seu quarto, imersa em profunda meditação. Assim que chegara,
apressara-se a dispensar a criada sonolenta que lhe oferecera de má
vontade os seus préstimos; disse-lhe que ia despir-se sozinha, e
entrou trêmula no quarto, esperando encontrar ali Hermann, e não
querendo encontrá-lo. Certificou-se, ao primeiro olhar, da sua
ausência
e agradeceu ao destino o obstáculo que impedira aquela entrevista.
Sentou-se sem se despir, e começou a lembrar todas as circunstâncias
que a arrastaram tão longe em tão pouco tempo. Não passaram ainda
três semanas desde que ela vira da sua janelinha, pela primeira vez,
aquele jovem, e já mantinha correspondência e ele conseguira dela
uma entrevista noturna! (p.
171).
*
“O
chefe da estação”
Quem
não maldisse um dia os chefes de estação, quem não brigou com
eles? Quem, num momento de furor, não lhes exigiu o livro fatal,
para inscrever nele a sua inútil queixa contra a prepotência, a
brutalidade e a incúria? Quem não os considera monstros da espécie
humana, idênticos aos falecidos sub-amanuenses ou pelo menos aos
bandoleiros de Múrom? Sejamos, todavia, justos e procuremos
colocar-nos na sua posição, e talvez os consideremos então com
muito maior condescendência. (p. 183)
Esse
conto curto e singelo mostra, mais uma vez, a capacidade do escritor
de voltar o olhar para as personagens simples das vastidões russas,
no caso um Chefe de estação que mora com sua encantadora e jovem
filha. Naquela época, essas estações eram postos nos quais se
fazia a troca de cavalos, para que as carruagens pudessem seguir
viagem, com animais descansados.
“O
chefe da estação” e os demais contos do volume apareceram nas
Novelas do falecido Ivan Pietróvitch Biélkin (1830).
A
narrativa, de tons melancólicos, é contada em primeira pessoa por
um funcionário de “posto modesto” e nela acompanhamos a abrupta
perda da inocência da menina – Avdótia, tratada afetivamente como
Dúnia - a quem a vida do Chefe da estação é dedicada.
*
“O
tiro”, ficcionalizado a partir de elementos autobiográficos,
mais uma vez segue a estrutura do conto anterior: uma personagem que
está próxima aos fatos do enredo narra em primeira pessoa uma
história em que outras personagens serão as protagonistas.
Num
destacamento militar situado num lugarejo, Sílvio é o único civil
que reside nas redondezas. O narrador é um jovem oficial que se
impressiona com esse senhor de cerca de trinta e cinco anos e que tem
incrível habilidade de atirador.
O
conto é uma oportunidade de conhecer códigos culturais sinistros de
sociedades fortemente estruturadas sobre o conceito de honra, como é
o caso da Rússia à época de Púchkin; o próprio artista,
lamentavelmente, foi vítima desses valores, em um duelo, como
também, quatro anos depois, o seu pupilo e amigo Mikhail Liérmontov.
*
Os
tons sombrios desfazem-se em “O fazedor de caixões”:
contada em terceira pessoa é uma narrativa leve e bem-humorada,
mostrando, assim, a versatilidade do autor.
O
interesse de Púchkin pelas pessoas simples que ganham modestamente a
vida nas mais distantes localidades da Rússia, o faz, aqui, retratar
um agente funerário, extraindo daí situações em que, com
habilidade, juntam-se o cômico e o macabro, bem à maneira das
narrativas de sabor popular encontráveis em todas as culturas.
*
“Kirdjali”
é também um conto saboroso, narrado em terceira pessoa. O título é
o nome da personagem retratada, líder de uma malta de salteadores:
“(…) búlgaro de nascimento. Kirdjali, em turco, significa
paladino, valente. Não sei o seu verdadeiro nome. // Kirdjali
aterrorizava toda a Moldávia com o seus atos de banditismo.” (p.
221)
Kirdjali
e seu bando põem os seus serviços à disposição das lutas
insurrecionais dos povos da região, mas tendo em mente sempre,
independentemente da causa, a oportunidade de auferir os melhores
benefícios materiais. Apesar dos métodos violentos do bando, o
conto é dirigido para impressionar o leitor com a astúcia de
Kirdjali.
*
Encerra
o volume uma seleta de poemas do patrono russo da poesia e das
letras, que deixou um legado inestimável no percurso de uma vida tão
breve. A pequena recolha faz brilhar a mente do leitor à vista da
habilidade refinadíssima do versejador, da sua verve,
espirituosidade e capacidade de fazer desfilar diante de nós pedras
de toque com tanta profusão: pequenas joias de grande dimensão
artística do imortal Púchkin.
Nicolau
I
Há
pouco é tsar e opera
milagres
com afinco:
mandou
já cento e vinte homens à Sibéria
e,
ao cadafalso, cinco.
(1826?)
(p.
238)
*
Edição
utilizada:
PÚCHKIN,
Aleksanr. A dama de espadas. Prosa e poemas. 2ª
ed., trad. Boris Schnaiderman e Nelson Ascher, São Paulo: Editora
34, 2006, prefácio de Boris Schnaiderman; texto nas duas orelhas: Aurora Bernardini; capa contém desenho a
bico de pena de Púchkin, aquarelados por Cynthia Cruttenden. 264 pp.
14x21cm.
Biblioteca
e mesa de trabalho de Púchkin em São Petersburgo
Imagens:
“Púchkin”,
de Orest Kiprensky, 1827, óleo sobre tela, 63x54cm. Galeria
Tretyakov, Moscou.
“A
dama de espadas”: dueto de Hermann e Lisa, com Plácido Domingo e
Galina Gorchakova, 1998; da ópera de Tchaikóvsky, de 1890.
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
Há
cento e quinze anos nascia Cecília Meireles:
Um
caminho singular no Modernismo brasileiro
"A onda", Anita Malfatti (1917)
Há
cento e quinze anos, em sete de novembro de 1901, nascia Cecilia
Benevides de Carvalho Meireles, na cidade do Rio de Janeiro, uma das
poetas mais queridas do Brasil.
Com
uma carreira artística e uma atividade intelectual prodigiosas para uma mulher da
primeira metade do século passado, Cecília Meireles foi educadora
vocacionada e militante da causa da Educação pública, professora
universitária, estudiosa do folclore, jornalista, viajante atenta e
apaixonada e, acima de tudo, poeta que teve a coragem silenciosa de
seguir o seu próprio caminho, em oposição ao impulso moderno pelos
manifestos e programas, que guiou a trajetória de tantos
escritores ao longo do século.
Possivelmente
por causa desse “caminho singular”, falta uma compreensão
mais abrangente dessa trajetória e uma interpretação das opções formais e temáticas da escritora que, fiel ao intimismo, à
musicalidade do verso – que dominou como poucos em nossa poesia - e
à observação e investigação delicada e minuciosa dos seres,
produziu uma obra de inúmeros pontos altos e admirável na sua
coerência e na sua organicidade.
Cecília Meireles faleceu na mesma cidade do Rio de Janeiro, no dia nove de novembro de 1964.
A
ela voltaremos, por dever de ofício.
PEQUENA FLOR
Como pequena flor
que recebeu uma chuva enorme
e se esforça por
sustentar o oscilante cristal das gotas
na seda frágil, e
preservar o perfume que aí dorme,
e vê passarem as
leves borboletas livremente,
e ouve cantarem os
pássaros acordados sem angústia,
e o sol claro do
dia as claras estátuas beijando sente,
e espera que se
desprenda o excessivo, úmido orvalho
pousado, trêmulo,
e sabe que talvez o vento
a libertasse,
porém a desprenderia do galho,
e nesse temor e
esperança aguarda o mistério transida
— assim,
repleto de acasos e todo coberto de lágrimas
há um coração
nas lânguidas tardes que envolvem a vida.
Da obra: "Vaga música" (1942), in: Cecília Meireles - Obra poética. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1987, p. 171.
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
A
MAGNIFICÊNCIA DA TARDE
Voa ao
poente a túnica da brisa
se
desmanchando em chuva de lilases.
A
tarde, ante essa mágica, se irisa
e
exibe cores francamente audazes.
A
natureza, certo, romantiza…
Há
nos jardins fascinações de oásis
e os
encantos do olhar de Mona Lisa
estão
nas rosas e nos grous lilases.
De
súbito, o crepúsculo termina.
O céu
agora todo se reveste
de uma
capa de príncipe da China.
E na
ponta de um cônico cipreste,
a lua
nova paira, curva e fina,
como o
chifre de um búfalo celeste.
Sosígenes
Costa (Belmonte, 1901 – Rio de Janeiro – 1968)
In:
Obra
poética.
2a. ed. revista e ampliada por José Paulo Paes, São Paulo, Cultrix;
Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1978.