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domingo, 7 de abril de 2019


Editora Kalinka

Entrevista com Daniela Mountian - Parte II



El Lissitzky, Segunda página da “História suprematista de dois quadrados em seis construções”


Na segunda e última parte da entrevista, Daniela Mountian, fundadora da Editora Kalinka e pós-doutoranda em teoria literária e literatura comparada – FAPESP/USP, fala sobre publicação de poesia russa no Brasil, a crise do mercado varejista de livros no país, a revisão da literatura produzida na União Soviética, o hábito da leitura entre os russos, a receptividade da literatura brasileira na Rússia, os projetos da Kalinka e, por fim, comenta a importância da Professora Aurora Fornoni Bernardini na divulgação da literatura e cultura russas entre nós e a homenagem feita pela Editora a essa intelectual.


Búfalo Celeste – Tratamos da importante parceria de Boris Schnaiderman com os Irmãos Campos e vem a propósito a questão da poesia. Apesar de todos os aspectos positivos da presença da literatura russa no Brasil, há uma desproporção entre o interesse entre nós pela prosa de ficção russa e a publicação de poesia russa.
Daniela – Para alguns, a grande arte russa é a arte poética.
Búfalo Celeste – Púchkin, por exemplo, é uma personalidade histórica com um peso na cultura russa sem equivalente aqui no Brasil.
Daniela – É curiosa a imagem do Púchkin. Ter um poeta como herói nacional fala muito dessa nação, dessa cultura.
Búfalo Celeste – A celebração a Púchkin, no dia do seu aniversário, acontece ainda hoje na Rússia?
Daniela – Púchkin é ainda uma figura incontestável, até hoje. Ela foi um pouco trabalhada, de fato, essa figura. Dovlátov falou disso no livro Parque Cultural [Kalinka, 2016], falou como na época soviética foi feita uma apropriação do mito de Púchkin; ele foi usado de forma que servisse, que se amoldasse melhor ao que a União Soviética esperava de um herói nacional. Mas, seja como for, antes ele já era conhecido e continua conhecido agora. As crianças continuam estudando Púchkin na escola, elas continuam sabendo de cor os seus poemas; em cada cidade russa há um busto de Púchkin, uma rua com seu nome... Assim, desse ponto de vista, a Rússia soube manter sua cultura viva. Claro, pode-se falar que muita coisa é turística, mas você respira aquilo, a literatura, e quem quiser vai se aprofundar.
Búfalo Celeste – Não há, assim, uma desproporção desse conhecimento dos poetas russos, tendo em vista o peso que a poesia tem na cultura russa? Ocorreu um fenômeno interessante com essa poeta polonesa, que ganhou o prêmio Nobel, a Szymborska; acho que já estamos na quarta publicação dela, aqui no Brasil, o que superou muitas expectativas. Será que o caso dela e também outros fenômenos que estão acontecendo com a poesia não indicam um momento de virada poética?
Daniela – Difícil dizer. Espero que sim
Búfalo Celeste – E a Kalinka tem planos neste sentido?
Daniela – Eu já publiquei poesia russa. Já publiquei uma pequena antologia [Poesia russa: seleta bilingue. Trad. do russo Aurora Fornoni Bernardini; organização e notas biográficas Daniela Mountian; criação gráfica Fabíola Notari, Kalinka, 2016].
Búfalo Celeste – Que é um trabalho artesanal belíssimo
Daniela – A gente já trabalhou com o Kupriyánov [Viatchesláv Kupriyánov. Luminiscência: antologia poética. Kalinka, 206], que é um poeta contemporâneo, traduzido pela Aurora. Sim, eu quero, o problema é que é difícil, é um campo mais restrito, e não é fácil achar tradutor poético. Não é como traduzir prosa.
Búfalo Celeste – Há menos tradutores de poesia?
Daniela – Sim, toma mais tempo. Mas, claro, quero publicar mais poesia russa, acho importante.
Búfalo Celeste – Há, inclusive, o caso de um prêmio Nobel, do qual nós não temos nada aqui, o Joseph Bródsky.
Daniela – Sim, o Brodsky. A gente não tem quase nada do Pasternak, que também escreveu muita poesia, quase nada da Akhmátova, quase nada de nada. Na verdade, no campo de poesia, está deserto. O que eu posso dizer é que, sim, a gente vai enveredar de novo por essa seara, que é um processo mais lento, não vai ser na mesma quantidade da prosa, mas vamos continuar. Tem que ser, a poesia russa tem que aparecer. 


"Na Rússia, o simbolismo foi um grande movimento e foi central para tudo o que aconteceu depois, para todas as vanguardas."


 
Búfalo Celeste – São nomes importantíssimos os que você citou.
Daniela – Sim, muito importantes e relativamente pouco conhecidos aqui, e são descobertas que vão ser ótimas para quem gosta de poesia, para quem gosta de cultura russa. É o caso do simbolismo russo, que foi um momento muito importante na Rússia. Houve vários simbolismos. No Brasil, houve mais uma tendência, uma corrente. Na Rússia, foi um grande movimento e foi central para tudo o que aconteceu depois, para todas as vanguardas. Houve uma profusão de poetas, de escritores. Tem muita coisa para publicar. A gente vai ter que ir devagar, no ritmo da Kalinka e do nosso mercado editorial. Agora que a gente está com um pouco de estrutura, pelo menos podemos fazer planos. Antes era muito difícil. A gente tem que cumprir também os projetos já iniciados, como os livros do Dovlátov, de quem já é o terceiro que publicamos. Vamos chegar lá, fazer novos projetos de poesia. Talvez dentro da nossa coleção Mir, que é bilíngue.
Búfalo Celeste – Essa crise das livrarias não foi uma crise do livro, foi uma crise do mercado varejista, mas vocês estão à margem disso, não é?
Daniela – É, digamos que eu nunca vendi horrores, mas, para nós, a Livraria Cultura é um cliente importante. A loja da avenida Paulista vende muito livro russo. E a Livraria Cultura é um símbolo da cidade. Mas a Livraria Cultura está assim faz tempo, vamos ver o que eles vão fazer, e o importante é que agora o mercado editorial vai ter que se definir de outra maneira. O Jorge, dono da Hedra, já vem pensando há muito tempo em outras formas de circulação do livro. Antes, não tinha muita coisa a fazer. Você publicava o livro, tentava mandar para o jornal, a Cultura pegava alguns em consignação, a Livraria Saraiva... Agora mudou muito. O editor tem contato direto com o leitor, e não tinha antes, e há a venda pelo próprio site. Então as coisas mudaram e temos que mudar. Se não mudar, vai morrer.
Búfalo Celeste – De certa forma foi uma sacudida no mercado.
Daniela – A Cultura já vem dando sinais de cansaço há algum tempo. Do jeito que foi, foi assustador. É obvio que, toda vez que eu abria um jornal, ficava deprimida, pensava que esse processo não ia terminar nunca, porque ela tem livros da Hedra, tem livros nossos, tem livros de todas as editoras. Mas é isso, é repensar um processo de mudança que já havia começado. E, realmente, não é uma crise do leitor, é uma crise do setor comercial. É que aqui o mercado editorial é muito pequeno e muito amador, se for pensar bem. Se a gente considerar que metade do mercado estava nas mãos de duas livrarias... Isso mostra um pouco o que é o nosso mundo editorial. O bom é que pode crescer.
Búfalo Celeste – Os dados de 2018 mostram que houve crescimento, pequeno, mas houve.
Daniela – Mas tem que ver direito: teve crescimento em qual área? Isso eu não cheguei a olhar. Para a Kalinka, teve a consolidação da parceria com a Hedra, então, nesse sentido, a gente publicou mais. A gente está no início de um processo, que espero que se consolide, que enraíze e que nos dê chance de publicar por muitos anos.


                            El Lissitzky, Páginas de “Dria golosa”, poemas de Maiakóvski


Búfalo Celeste – A literatura russa do século passado tem uma particularidade muito grande, que foi a repressão, a censura que aconteceu, e está havendo uma recepção tardia daquela literatura. É uma situação muito particular de obras e autores que ressurgiram de todo aquele processo político que aconteceu na União Soviética. Gostaria que você falasse rapidamente, eu sei que é um assunto complexo: essa pesquisa está acontecendo ainda?
Daniela - O que aconteceu, essa redescoberta, foi algo formidável e impensável. O período de repressão foi uma tragédia, uma série de autores e nomes desapareceu por décadas, toda a obra do Kharms, por exemplo. Ou seja, autores com uma obra de relevo, com uma linguagem não raramente muito radical.
Búfalo Celeste – E os órgãos de inteligência ou de censura preservavam as obras?
Daniela – Cada caso é um caso. Alguns autores não eram conhecidos simplesmente e alguns autores eram conhecidos parcialmente e deixaram de ser. Com o fim da União Soviética, começam a surgir nomes e obras inteiras dos anos 1920, 1930..., algumas delas impressionantes. Imagine a situação de descobrirem um novo “Mário de Andrade” aqui e agora, porque não são autores quaisquer. Como estes autores se conservaram? Cada caso foi um caso. Por exemplo, o Kharms foi por milagre. Ele hoje é considerado um dos precursores da literatura do absurdo. A gente publicou [Daniil Kharms. Os sonhos teus vão acabar contigo: prosa, poesia, teatro. Trad. Aurora Fornoni Bernardini, Daniela Mountian, Moissei Mountian; Kalinka, 2013]. O trabalho de Kharms só sobreviveu ao tempo porque um amigo dele guardou uma mala com seus escritos quando o escritor foi preso pela segunda vez. A mulher dele juntou todos os papéis nessa mala. Nada da literatura adulta de Kharms havia sido publicada em sua vida e esse amigo, o Drúskin, um filósofo, guardou esse material por anos. Isso começou a ser divulgado na Europa nos anos 1970, mas, na Rússia, Kharms para adultos, que hoje já é considerado um clássico, começou a ser conhecido, de fato, no final dos anos 1980, início dos anos 1990. 

Então cada escritor teve uma trajetória, uma sorte. Sei lá quantos foram perdidos também. O Kharms também é um caso muito trágico, porque ele fez parte de um grupo de vanguarda, “OBERIU”, que nasceu em 1928. As coisas já estavam começando a mudar na União Soviética e muitos integrantes desse grupo foram mortos. Ele já vem no segundo momento da vanguarda.

O Vida e destino a gente sabe também que foi muito difícil, a obra nos chegou por meio de microfilmes. Enfim, surgiu, pode-se dizer, quase que uma nova literatura após o fim da URSS. Foram redescobertos também alguns autores que na época foram publicados e deixaram de ser, como comentei. O Dobýtchin foi publicado em vida e deixou de ser por décadas (ele se matou em 1936), mas voltou a ser lido hoje; a novela A cidade N, principalmente, é considerada uma obra do cânone. Assim como ele, houve muitos.
Búfalo Celeste – E esse trabalho de pesquisa está em processo ainda?
Daniela – Sim, por exemplo, no caso do Kharms, que eu acompanho mais, fatos novos estão aparecendo agora. Descobriram faz pouco tempo onde ele está enterrado (ele morreu num hospital psiquiátrico em 1942). Os pesquisadores estão mexendo nos acervos, nos arquivos. Faz pouco descobriram uma imagem dele num filme. Então, as pesquisas continuam. Existem arquivos que ainda não foram tocados, porque os arquivos que restaram estão nas bibliotecas, mas é necessário que alguém vá lá e trabalhe com eles. Então, eu acho que está em andamento. Não sei se virá muita novidade de Kharms no sentido de aparecerem novas obras, mas para compreensão daquele momento talvez sim.
Búfalo Celeste - É uma situação muito peculiar.
Daniela – É uma situação peculiar, de grandes autores renascendo, de linguagem muito radical, muito interessante, muito arrojada. Por exemplo, o Dovlátov já é de uma outra geração, porque ele nasceu em 1941, mas ele também passa a ser conhecido mesmo na Rússia só após 1990 e virou ícone. São fenômenos literários que têm a ver com um fundo histórico. Enfim, a literatura russa tem esse passado que é redescoberto nas últimas décadas, que começa a fazer parte do presente e a dialogar com ele, com a literatura contemporânea. E não esqueça que a literatura russa não parou, são vários novos autores...


"Os escritores russos tinham um papel social muito importante, eram heróis nacionais, o que falavam tinha um peso na sociedade."



Búfalo Celeste – A leitura foi uma prática muito forte na Rússia; há relatos de que, apesar do drama que a União Soviética viveu na II Guerra Mundial, havia uma produção grande de livros que era levada para o front de guerra, que se lia ali nas trincheiras. Gostaria de saber se você tem informações sobre essa relação do russo hoje com a leitura.
Daniela – Ainda é forte. Claro que lá também existe internet, televisão, tudo o que existe aqui. Mas ainda é um país que lê muito. Um escritor ainda vai encher um teatro para falar de sua obra. Eu já comprei na Rússia, por exemplo, um ingresso para ver um escritor falar de Tolstói, e o teatro, que não era pequeno, estava cheio. Pode-se assistir a uma atriz lendo poemas numa filarmônica. A literatura está mais viva, não sei se de maneira uniforme na Rússia inteira, mas ela ainda tem um papel importante na sociedade. Os escritores russos tinham um papel social muito importante, eram heróis nacionais, o que falavam tinha um peso na sociedade. Não se pode dizer que é igual hoje, mas eles continuam a ter um papel relevante.
Búfalo Celeste - Por isso a repressão na época soviética
Daniela – E a literatura era a arte mais reprimida. Isso mostra o papel que a literatura tinha para esse país. Alguma coisa mudou, mas ainda vemos programas com escritores na TV, um poeta ainda é respeitado. Vamos ver o que vai acontecer ao longo dos anos. Claro que muita coisa está em jogo. As faculdades de letras já estão dando menos literatura para seus alunos... Mas eu acho que vai ser difícil essa tradição ser perdida.
Búfalo Celeste – Mudando a perspectiva, gostaria de saber a receptividade do russo em relação à nossa literatura. Imagino que o Jorge Amado deve ter sido conhecido na Rússia, pela relação dele com o PCB. Existe algum outro autor que o russo culto conhece?
Daniela – Hoje é muito diferente. Na União Soviética muitos autores brasileiros foram traduzidos. Houve muitas traduções do português para o russo e agora não tenho visto mais. Então, depende de que época é esse russo. Agora acho que é um momento ruim para os autores brasileiros lá. Mas sei que houve Monteiro Lobato, Jorge Amado, Clarice Lispector, eu acho que até o Guimarães Rosa. Machado de Assis também. Então houve um interesse. Acho que realmente deveria se fazer um esforço maior para que a nossa literatura voltasse a ser traduzida. Mas isso tem a ver um pouco com a gente. Não é que os russos não se interessem.
É desproporcional, realmente. Agora, parece que há um interesse muito maior pelos russos aqui do que vice-versa. Mas, de novo, penso que é um trabalho nosso, porque eu não acho que um russo se recuse a ler um autor brasileiro.
Búfalo Celeste – Você pode falar dos projetos da Kalinka?
Daniela – Já lançamos dois livros do Serguei Dovlátov e agora estamos lançando o terceiro, O compromisso, e o próximo livro vai ser uma tradução de meu pai, que é justamente A cidade N, a novela do Leonid Dobýtchin, a mais conhecida dele. Mas a gente vai trazer mais gente, escritores vivos ainda, estão já quase certos, ainda não falo porque faltam alguns detalhes. Mas esses são os próximos dois livros. Vamos continuar também a coleção Mir, bilíngue. O que a gente prometeu a gente vai fazer.


                                 El Lissitzky, Páginas de “Dria golosa”, poemas de Maiakóvski


Búfalo Celeste – Por fim, gostaria que fizesse um comentário rápido desse importante lançamento do livro da Professora Aurora Fornoni Bernardini, Aulas de literatura russa: de Púchkin a Gorenstein. Como surgiu a ideia de publicar essa pesquisadora fundamental?
Daniela – A Professora Aurora tem tudo a ver com o início da Kalinka, na verdade foi uma conjunção bonita de fatores. Quando eu comecei a estudar russo, trabalhar com meu pai no que seria a primeira publicação da Editora, ele falou: “olha, lá perto de casa, na rua Maria Antônia, tem uma professora dando aula de literatura russa, por que você não vai lá?”. Isso foi em 2005. Eu fui, me apresentei para a Professora e, desde então, ela faz colaborações frequentes com a gente, seja prefaciando, seja traduzindo, seja aconselhando, e eu também estou fazendo pós-doutorado com ela. Então, ela tem uma relação forte comigo, um papel importante na minha vida, na Kalinka. Ela e meu pai são dois guias para mim, digamos, que me fazem continuar, porque às vezes o dia a dia pode ser pesado. 

O livro Aulas de literatura, uma reunião de seus artigos, foi justamente uma homenagem a uma trajetória brilhante de uma pesquisadora e de uma tradutora que não tinha ainda o reconhecimento que merecia, na minha opinião. Então eu a convidei já com o intuito de fazer essa homenagem. Demorou um pouco para concretizar, mas deu certo, e o Valteir Vaz, que também estudou com a Professora Aurora no mestrado e no doutorado, organizou o livro comigo; nós reunimos textos sobre literatura russa que ela escreveu ao longo da vida, textos desde a década de 1980 até atuais e de autores diversos. O que aconteceu é que, como há uma abrangência de temas e períodos na produção dela, formou-se quase que um panorama, coisa que não havia no Brasil. Por isso, optamos por colocar no título “aulas”. 

Organizamos o livro de um jeito que o leitor passe pelos temas de forma cronológica. Começa com Púchkin, com o século XIX, incluindo um capítulo especial para Tolstói, outro para Dostoiévski. São textos de fácil leitura, ela escreve muito bem para quem já conhece literatura russa e para quem quer começar a conhecer. A gente fez notas mais didáticas, tivemos essa preocupação, justamente porque não havia um livro nesse formato. Não é que a gente está prometendo dar toda a literatura russa nesse livro, muitos autores não entraram (nós tínhamos como material apenas o que ela escreveu), mas é um apanhado bom. E é uma amostra do que era pedido a ela pela imprensa, da sua atuação no jornalismo cultural e de seu amplo interesse, tal como no caso do Professor Boris Schnaiderman. Foi um livro trabalhoso de editar (antologias de artigos escritos em épocas diversas são difíceis, pois envolve seleção, padronização, etc.), mas muito recompensador.
Búfalo Celeste – É outra personalidade importante da divulgação da literatura russa.
Daniela – Foi importante e continua atuante; ela trabalhou com o professor Boris, ela foi a primeira Professora convidada por ele para dar aula no curso de russo da USP [Boris Schnaiderman foi o primeiro professor do curso de língua e de literatura russa da USP, criado em 1963]. Ela traduz há muitos anos e formou centenas de alunos. Então, ela, assim como o Professor Boris, tem um papel acadêmico, um papel de professora, um papel de ensaísta, de divulgadora. É uma excelente tradutora, traduz poesia muito bem, ganhou inúmeros prêmios, mas eu achei que faltava essa homenagem a ela, porque, quando se fala de literatura russa, da consolidação do fenômeno da tradução direta, a gente ouve falar do professor Boris, do Paulo Bezerra, e de poucos outros. Ela normalmente não está incluída no pacote. Eu acho que é merecido que esteja. Não estou tirando o mérito de ninguém, só acho que ela tinha que estar aí também. Não é um nome que pode ser marginalizado, deixado em segundo plano. Além do mais, eu gosto muito da linguagem dela, uma linguagem muito saborosa e poética, não são textos duros, mesmo os textos mais acadêmicos. Fiquei feliz de ter feito o livro.
Búfalo Celeste – Muito obrigado pela entrevista e parabéns pelo seu trabalho e de seu pai à frente da Kalinka.

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Imagens:

El Lissitzky, “Páginas de “Dria golosa”, poemas de Maiakóvski, 1923.

Fonte:

https://www.getty.edu/research/tools/guides_bibliographies/lissitzky/index2.html
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Alexander Tcherepnin, “Suíte para violoncelo solo”

Violoncelo: Branno Cho

Sala de Concerto Pick-Staiger, Northwestern University, Evanston, Illinois, EUA, 25/5/2015


sábado, 23 de março de 2019


Editora Kalinka

Entrevista com Daniela Mountian - Parte I



             El Lissitzky, "História suprematista de dois quadrados em seis construções"


A editora Kalinka completou dez anos de existência em 2018, cumprindo um papel especial no mercado editorial, pois dedica seu catálogo à publicação de escritores da literatura russa. Não bastasse isso, a editora privilegia autores pouco conhecidos do público brasileiro. Com essa linha, a Kalinka demonstra o importante papel que uma Editora pode desempenhar no panorama de um país, alargando as fronteiras de conhecimento de uma literatura que já conta, no Brasil, com um público fiel e interessado na riquíssima tradição literária desse país.
Daniela Mountian e seu pai, Moissei Mountian, são os fundadores da editora. Daniela, pós-doutoranda em teoria literária e literatura comparada – FAPESP/USP, conversou com o blog. A entrevista contou também com o apoio do jornalista Reginaldo Cruz.
Nessa primeira parte, ela fala sobre a trajetória de seus pais, a sua relação com a língua e cultura russas, como surgiu a ideia de criação da editora, comenta um dos pontos altos na trajetória da Kalinka, que foi a publicação do livro Salmo, de Friedrich Gorenstein, faz considerações sobre as razões da forte presença da literatura russa no Brasil e, finalmente, trata da importância de Boris Schnaiderman para a divulgação dessa literatura em nosso país.
*
Búfalo Celeste – Como surgiu a ideia da editora?
Daniela – Obrigada pelo convite, pelo bate-papo. Meu pai realmente tem a ver com isso porque minha família, meu pai e minha mãe são da Moldávia, que fazia parte da União Soviética e hoje é um país independente.
Búfalo Celeste – A Moldávia tem uma língua própria?
Daniela – Hoje tem, mas eles vieram para cá em 1972, eles já vieram casados, já vieram formados, digamos. Então eles estudaram na língua russa.
Minha vida tomou vários rumos antes de eu chegar à Kalinka, não foi uma coisa de família; foi quase casual, eu diria. Eu terminei a faculdade de História e já trabalhava com design, trabalhava também com revisão e preparação de texto e fui convidada por um amigo para abrir uma editora, e aí meu pai sugeriu: “vocês querem um bom título? Eis aqui”. Eu nunca tinha ouvido falar de Fiódor Sologub, o autor simbolista russo, desconhecido aqui, mas muito conhecido na Rússia. Eu já conhecia um pouco de literatura russa, mas não muito.
Búfalo Celeste – Você é falante nativa de russo?
Daniela – Meus avós falavam em russo, mas meus pais falavam com a gente em português. Então, foi a partir desse romance que minha vida deu uma guinada; aí, sim, fui me alfabetizar e comecei a ir para a Rússia.
O projeto do romance do Sologub começou em 2005, com a tradução. A vida se enveredou, assim, para esse lugar e comecei a conhecer as pessoas da área, fazer cursos, o meu pai começou a se envolver muito, começou a traduzir e aí resolvi que seria, de fato, uma editora de livros russos e nunca mais parei.
Búfalo Celeste – Foi de uma forma peculiar então?
Daniela – Sim, foi. E acabei indo para Rússia, encontrei lá familiares que eu não teria encontrado se não fosse por todo esse processo, porque, ao mesmo tempo que foi criada a editora, que começou antes, eu iniciei carreira acadêmica, para me dar um suporte, porque eu não era da área.

"O diabo mesquinho, de Fiódor Sologub,  é um livro-chave da virada do século XIX para o XX e quem trouxe foi meu pai."


Búfalo Celeste – Seu pai já tinha essa paixão por literatura?
Daniela – Meu pai sempre leu muito, como toda a geração dele na Rússia. Eles leem muito. Meu pai lê muito até hoje. Então, ele tem todo esse arsenal, tanto é que boa parte dos títulos é uma escolha dele. O Sologub, por exemplo, ninguém estudava aqui, era totalmente desconhecido. O diabo mesquinho é um livro-chave da virada do século XIX para o XX e quem trouxe foi meu pai. Eu li e falei “nossa, isso é um negócio importante” e acabei estudando esse livro no mestrado que abriu várias portas para mim. E outros livros também, meu pai que traz; por exemplo, Leonid Dobýtchin, um autor modernista russo, é nosso segundo livro e também um escritor pouquíssimo conhecido aqui. Ele tem uma linguagem super radical e vanguardista e hoje é um autor bem respeitado na Rússia. Eu também escolho autores, mas meu pai é realmente uma peça fundamental, digamos que ele é a consciência da editora.
Búfalo Celeste – O que significa Kalinka?
Daniela – Kalinka é o nome de uma música folclórica russa, do século XIX. E é o nome de uma árvore também, uma pequena planta com uma frutinha vermelha. Kalinka é o diminutivo de Kalina.
Búfalo Celeste – Foi ousada essa proposta de criar uma editora, voltada exclusivamente para a literatura russa e, mais ainda, com autores pouco conhecidos.
Daniela – Realmente, nossa linha editorial é literatura russa, séculos XX e XXI, sobretudo de autores pouco conhecidos. Nem sempre eu vou conseguir fazer isso, mas eu acho que 99% de nosso catálogo é voltado para essa proposta. Eu e meu pai temos uma paixão, que é a literatura das vanguardas russas e do modernismo, dos anos 10, 20, até 30 do século XX. A ideia seria fazer uma coleção de contos russos modernos; publicamos dois títulos, mas pode vir mais coisa aí. Tem uma lista enorme de autores, mas também começamos a ir para os contemporâneos, por exemplo o Friedrich Gorenstein.
Búfalo Celeste – É justamente esse autor que chama atenção nas publicações da Kalinka, pois também foi bem ousada a publicação de Salmo: romance-meditação sobre os quatro flagelos do Senhor [Kalinka, 2017], não só pelo tamanho do livro, que tem uma tradução custosa, mas também pela sua complexidade.
Daniela – Sim, foi trabalhoso.

"Salmo é um livro fortíssimo, polêmico."


Búfalo Celeste – Conte um pouco sobre o projeto dessa publicação, quanto tempo demorou a tradução? Foi conjunta com o Irineu [Franco Perpétuo]?
Daniela – É, meu pai convidou o Irineu para fazer a tradução, eu trabalhei como editora. Mas foi bem difícil, porque você viu quantas citações bíblicas aparecem e meu pai fez uma coisa que não tem em nenhuma edição do livro: ele localizou citação por citação, está tudo na edição. Então, foi um processo longo, porque teve uma parte que meu pai fez, uma parte que Irineu fez e eu mesmo demorei muito para editar esse livro. Foram várias revisões e aposto que ainda faria outras, mas tem uma hora que o livro precisa nascer. É um livro fortíssimo, polêmico.
Búfalo Celeste – É uma das principais publicações dos últimos anos, na minha visão, juntamente com o Vasily Grossman, Vida e Destino.
Daniela – Isso também foi uma escolha de meu pai, porque o Gorenstein não é nada conhecido, nem na Rússia. Ele é conhecido como roteirista, não só do Tarkóvsky, mas de outros diretores russos. Ele foi para a Alemanha e só começou mesmo a ser publicado na Rússia depois do fim da União Soviética. Ele é um autor cultuado pela intelectualidade, mas não é tão lido nem conhecido, porque é um autor difícil. É um tema complexo o de Salmo e é um tema que fala muito sobre o nacionalismo russo também. Então, obviamente que ali há polêmicas. Mas tem muita beleza nesse livro, porque o que ele fez, a atualização que ele fez da Bíblia, essa poética que ele criou é, para mim, algo inédito. É um livro totalmente imagético. Você vê que ele é um grande roteirista, porque a gente vê o livro. É impressionante. Quem gosta de Tarkóvsky tem aí muita coisa, porque lembra muito a linguagem dele.
Búfalo Celeste – Na sua opinião, a recepção da publicação do Friedrich Gorenstein foi à altura da importância do livro?
Daniela – Quando você trabalha com autores contemporâneos é normal isso. Eu acho até que teve mais repercussão do que muitos autores. Digo contemporâneos, Gorenstein morreu em 2002. Então, para um autor que morreu há pouco tempo, que é desconhecido, eu acho até que a recepção foi boa e isso não é um problema para a gente. Porque com uma editora, trabalhando com autores desconhecidos, você não tem que esperar algo diferente. Acho que a gente consegue até um pouco mais de visibilidade do que eu imaginava, porque nosso trabalho é super artesanal. Agora estamos trabalhando com a editora Hedra, mas até há dois anos basicamente tudo era feito na minha casa; com a nova parceria, continuamos cuidando pessoalmente de várias partes do livro. Então a gente tem esse processo e, na verdade, a gente gosta disso. Eu, pessoalmente, estou me dedicando ao meu pós-doutorado e a Kalinka continua sob os cuidados da Hedra e de meu pai.

          El Lissitzky, "História suprematista de dois quadrados em seis construções"
  
Búfalo Celeste – Vocês têm algum incentivo institucional da Rússia?
Daniela – Temos. A Rússia oferece uma relação de intercâmbio por meio da qual financia traduções. Então, você se inscreve num concurso e, se for contemplado, eles pagam a tradução; assim, recebemos, já há algum tempo, recursos do Instituto de Tradução, que fica em Moscou, e eles ajudam bastante. E agora com a Hedra teremos uma estrutura um pouco melhor, porque é quase impossível cuidar da parte comercial, venda, distribuição. Então, aqui, eles ajudam muito nisso.
Búfalo Celeste – Como é que vocês lidaram, justamente, com essa parte, que é complexa, a parte comercial, distribuição etc?
Daniela – Tinha uma funcionária que me ajudava, que agora está aqui [na Hedra]. Antes, uma distribuidora passava os livros para a Livraria Cultura, para a Martins Fontes, e eu cuidava das livrarias menores. Agora, dessa parte comercial, quem cuida é a Hedra. Então a gente faz, digamos, edições conjuntas. A Kalinka continua uma empresa independente, com liberdade de escolha dos títulos, mas  agora pode contar com a estrutura da Hedra, que ajuda muito. Isso vai possibilitar que a gente continue, porque, realmente, de outra forma, seria um pouco difícil
Búfalo Celeste – Gostaria de comentar sobre essa peculiaridade da presença da literatura russa no Brasil. Sempre houve publicação aqui de autores russos, mas houve uma forte retomada depois das traduções a partir do original russo.
É claro que há a qualidade óbvia da literatura russa, mas há um contraste entre o tamanho da comunidade russa no Brasil, que é pequena, e, no entanto, a literatura russa tem penetração mais do que proporcional no nosso mercado editorial. Como você explica isso?
Daniela – Para falar a verdade isso não é um fenômeno que acontece só aqui. Eu acho que a literatura russa se tornou algo obrigatório, o que não era. Então, quando ela começou a surgir, a ser descoberta pelos europeus, o que não faz tanto tempo, se você for pensar bem, porque a literatura russa moderna também é recente. Se você pegar o fim do século XIX, eles eram uma literatura considerada exótica, tirando Turguêniev e outros. E, de repente, a literatura russa, de umas décadas para cá, ela ganha esse espaço e se torna mais uma leitura obrigatória, virou um clássico.
Búfalo Celeste – Houve até um espanto na Europa ocidental, quando chegaram aqueles autores hoje clássicos, ao passo que a Rússia era considerada um país atrasado.
Daniela – Era considerada atrasada, e o Dostoiévski não era considerado um gênio. Houve vários motivos para a gente chegar até aqui, vários booms, vários processos, ondas, e eu concordo com você que, de uns anos para cá, no Brasil, houve uma redescoberta; a gente pode pensar, como ponto de redescoberta, o momento em que saiu a tradução, pelo Paulo Bezerra, do Crime e castigo, que foi realmente um grande impacto. Eu posso dizer que foi um best seller isso.
E, de lá para cá, o que eu achei mais interessante é essa busca por novos nomes. Quando eu criei a Kalinka com meu pai, a gente sentiu falta de um espaço para nomes menos conhecidos, porque basicamente era Tolstói, Dostoiévski, a coisa não saia muito disso. Mas as editoras precisavam fazer esse papel com os clássicos, e fizeram muito bem. A 34, ela traduziu muito, ela trouxe um Dostoiévski diretamente do russo, que não existia aqui. Naquela época, a CosacNaify estava fazendo o mesmo pelo Tolstói. Então, a gente sentia falta disso, de trazer nomes como o Daniil Kharms, um dos autores de que a gente gosta muito, e outros tantos que a gente vem trazendo.
Agora a situação mudou um pouco, não sei se você percebeu, mas há novos nomes por aí e várias editoras interessadas, então o processo ficou bem mais interessante, bem mais colorido e para a gente é ótimo. Então a Kalinka de alguma forma já está ocupando um outro espaço.

"O Professor Boris Schnaiderman praticamente cria essa tradição da tradução direta, ele cria o curso de russo na Universidade de São Paulo, nos anos sessenta, e, desde então, vários tradutores saíram dali direta ou indiretamente."


Búfalo Celeste – Os imigrantes, como o Boris Schnaiderman e a Tatiana Belinky, tiveram papel decisivo nessa presença e difusão da literatura russa entre nós?
Daniela – Ambos tiveram papel decisivo. O Professor Boris Schnaiderman praticamente cria essa tradição da tradução direta, ele cria o curso de russo na Universidade de São Paulo, nos anos sessenta, e, desde então, vários tradutores saíram dali direta ou indiretamente. Houve traduções diretas antes dele, mas ele criou uma tradição que não havia. Ele e seus discípulos. A professora Aurora Bernadini, o Paulo Bezerra, no Rio, um grupo de pessoas e foi se criando uma tradição, o que é diferente de você publicar uma coisa aqui e ali. E somos todos devedores do Professor Boris Schnaiderman, não só pelas traduções dele, que são impecáveis, mas pela atuação no jornalismo cultural, porque ele escreveu muito para jornal, trazendo novos nomes ou novas abordagens de autores como Maiakóvski, de que ele gostava muito. Enfim, o Professor Boris Schnaiderman cria um ponto central, nevrálgico para várias coisas que aconteceram depois dele. Não estou dizendo que ninguém fez nada além dele, mas que ele é uma figura importante e incontestável no nosso meio e, graças a Deus, viveu muito, ele morreu com quase 100 anos, e trabalhando, interessado, sempre em busca de novos autores, de novas linguagens.
Búfalo Celeste – E múltiplo, sob o ponto de vista de seus interesses intelectuais, aberto às vanguardas
Daniela – Ele gostava muito dessa busca e houve também o contato com os irmãos Campos, com quem ele fez duas traduções antológicas, do Maiakovski [Poemas. São Paulo: Tempo Brasileiro, 1967] e, depois, a Poesia russa moderna [Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968], que também foi um marco cultural e é até hoje. Nós não temos outra antologia como essa.

                     Daniela Mountian, cofundadora da editora Kalinka
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Imagens:
El Lissitzky (Pochnok, Império Russo, 23/11/1890 – Moscou, URSS, 30/12/1941), “Primeira página da “História suprematista de dois quadrados em seis construções”, 1922.



El Lissitzky, Segunda página da “História suprematista de dois quadrados em seis construções”, 1922.

Fonte:
https://www.getty.edu/research/tools/guides_bibliographies/lissitzky/index2.html


 Aleksandr Tcherepnin (São Petersburgo, Império Russo, 21/1/1899 - Paris, França, 29/9/1977), “Quatro arabescos”, op. 11, 1920/1921.



sábado, 22 de dezembro de 2018

Pais e filhos, de Ivan Turguêniev

No bicentenário do grande escritor russo


Иван Сергеевич Тургенев
Отцы и дети


                                                               Konstantin Yegorovitch Makovsky, "Retrato de um homem"

- E então, Piotr, nada ainda? - perguntou, no dia 20 de maio de 1859, ao sair sem chapéu para a varandinha baixa de uma estação de muda de cavalos na estrada de ***, um fidalgo de uns quarenta e poucos anos, de casaco empoeirado e calça xadrez, ao seu criado, um jovem bochechudo com uma penugem esbranquiçada no queixo e uns olhinhos opacos.
O criado, em quem tudo, o brinco azul-turquesa em uma orelha, os cabelos multicolores e empomadados, os gestos corteses, em suma, tudo acusava um homem de uma geração moderna e sofisticada, olhou para a estrada com ar condescendente e respondeu:
     - Nada, nem sombra.
     - Não vê nada? - repetiu o fidalgo.
     - Nada – respondeu pela segunda vez o criado.
O fidalgo deu um suspiro e sentou-se num banquinho. Enquanto está sentado sobre as próprias pernas dobradas e lança olhares pensativos em redor, vamos apresentá-lo ao leitor. (p. 19).


Pais e filhos (1862) traz muitas recompensas ao leitor: o contato com um importante representante da literatura russa da segunda metade do século XIX, o romancista, contista, poeta, dramaturgo e tradutor Ivan Serguêievitch Turguêniev (Oriol, Império Russo, 9/11/1818 – Bougival, Seine-et-Oise, França, 3/9/1883), o primeiro escritor russo a gozar de prestígio na Europa ocidental; o contato com a sua obra-prima, não obstante esse romance, pelo seu caráter polêmico, como se verá a seguir, tenha causado ao autor muitos dissabores que se estenderam até fim o fim da sua vida – registre-se, aliás, que os debates e embates em torno do presente romance, os maiores de toda a literatura russa, ultrapassaram as fronteiras do século, chegando até mesmo à Rússia soviética; por fim, mas não menos relevante, em Pais e filhos revela-se a genialidade de um artista que, por meio de um enredo aparentemente singelo envolvendo poucas personagens, conseguiu captar a História a quente, a saber, a fase inicial de um período de grande turbulência política no Império Russo, com reflexos em todos os demais âmbitos do país: na economia, na sociedade, na intelectualidade, na vida cultural, nas artes em especial. É conveniente, a propósito, partir desse contexto.


O Império Russo após a Guerra da Crimeia
Se o período posterior ao levante dezembrista de 1825 (a respeito, v. nesse blog a postagem sobre o romance Um herói do nosso tempo, de Mikhail Liérmontov) foi marcado pela sensação de estagnação, em consequência da severa repressão imposta pelo czar Nicolau I ao movimento rebelde, todas as tensões até então reprimidas vêm à tona com a crise decorrente da Guerra da Crimeia (1853 - 1856), que foi decorrência conjunta dos interesses das potências europeias e do declínio do Império Otomano. O Império Russo foi arrastado ao conflito militar por esse complexo xadrez geopolítico, mas o fato é que a guerra em si, seus pesados custos humanos e materiais, a que se adiciona um Tratado, que encerrou as hostilidades, extremamente desfavorável ao Império Russo, com perdas territoriais, perda dos direitos navais no mar Negro, do direito de passagem por mar para o Mediterrâneo e do protetorado sobre os cristãos ortodoxos nos territórios otomanos, tudo isso, essa perda de influência e de prestígio, calou fundo principalmente na intelectualidade, nas camadas médias, nos burocratas e em certas parcelas da pequena nobreza.

Outros elementos de diversas naturezas colaboraram para elevar a peculiaridade desse movimento de agitações: durante a Guerra, em 1855, morreu Nicolau I, sucedido pelo czar Alexandre II, mais aberto às manifestações da sociedade, o que possibilitou uma distensão do regime repressivo anterior e, assim, uma maior circulação de ideias e abertura ao debate público, justamente em meio à crise econômica causada principalmente pelos custos com a guerra e pela elevação dos impostos e preços. Nesse mesmo período da Guerra e nos anos imediatamente posteriores, houve tensão social no campo, como fruto de diversas revoltas de camponeses, em reação às duras condições em que trabalhavam e viviam nas propriedades dos senhores de terras. Frise-se, aliás, que foi justamente a coletânea de contos Memórias de um caçador (1852), de Turguêniev, que colocou em evidência para as camadas letradas as ásperas condições de vida dos servos e as injustiças e humilhações a que eram submetidos.
Pois foi exatamente no período de escrita de Pais e filhos, entre os anos de 1860 e 1862, iniciando o período das Grandes Reformas de Alexandre II – uma forma de resposta às turbulências social e política -, que ocorreu a abolição da servidão, em 1861.




                                                               Konstantin Yegorovitch Makovsky, “Retrato de Lucien Guitry”
Populismo e niilismo na Rússia da década de 1860
As raízes do radicalismo na Rússia Imperial da segunda metade do século XIX, movimento que ficou conhecido como populismo, repousam no descompasso deste país, com industrialização muito incipiente e vidas social, econômica e política estruturadas sobre a realidade hegemônica das grandes propriedades rurais, com as aceleradas transformações da Revolução Industrial, com toda a razão instrumental que lhe serve de apoio, pelas quais passavam os países da Europa ocidental.

Grande parte do debate intelectual no Império Russo no século XIX, notadamente após o movimento dezembrista, é tomado pela oposição entre os ocidentalistas e os eslavófilos, o que reflete, de certa maneira, tensões de longa duração na cultura russa, advindas do entrechoque entre visões ou mais suscetíveis às ideias europeias ou às tradições orientais, principalmente, nesse último caso, por força da religiosidade cristão ortodoxa.

O populismo russo foi um movimento social amplo e, por isso mesmo, heterogêneo em suas bases doutrinárias, muito influente principalmente nas décadas de sessenta e setenta do século XIX, que atua sob inspiração sobretudo de ideólogos e reformadores radicais e socialistas (anteriores a Marx e Engels) europeus ou publicistas russos que abrigavam esses novos ideários, como, por exemplo, Proudhon, Saint Simon, Fourier e Herzen.

Para Isaiah Berlin, “a exemplo de seus antecessores, os conspiradores dezembristas da década de 1820, e os círculos que se reuniram em torno de Aleksandr Herzen e Bielinski nos anos 30 e 40, [os populistas russos] encaravam o governo e a estrutura social de seu país como uma monstruosidade moral e política, obsoleta, bárbara, estúpida e odiosa, e dedicaram suas vidas à sua completa destruição” (2).
Completa destruição”: o populismo russo foi um movimento enragé, adepto da ação direta, anti-sistema e reativo à paralisia da institucionalidade – Governo e Partidos – e sua incapacidade de reformar as várias instâncias da vida russa, com o fim de trazer igualdade e justiça sociais, eliminando, assim, a miséria e a opressão sobre os despossuídos, que, no caso do Império Russo, eram, basicamente, os camponeses, pois o operariado era uma porção ainda pouco significativa do universo dos trabalhadores.

A concepção de prática politica do populismo, por meio da ação direta, atingirá a sua culminância em 13 de março de 1881 com um atentado a bomba, cuidadosamente planejado e executado, vitimando o czar Alexandre II, após o que se seguirá um declínio do movimento.
Os adeptos do populismo dedicavam uma devoção e idealização do campesinato, de sua vida natural e da organização comunitária, nos quais viam a essência dos valores do país, ao mesmo tempo que depositavam a crença de que a ciência e a tecnologia deveriam ser absorvidas pelo Império Russo, sem a alienação a que o homem fora levado nos países em que ocorrera a Revolução Industrial.

Delineia-se, dessa forma, portanto, o quadro em que se insere Pais e filhos: a geração da década de sessenta não crê mais nas soluções do liberalismo da geração da década de 40. Bazárov, protagonista do presente romance, uma das grandes personagens da literatura russa, personifica, com a sua impetuosidade no limite da arrogância e desprezo, essa nova geração que quer por abaixo radicalmente as estruturas carcomidas do Império Russo.


                                       Konstantin Yegorovitch Makovsky, “Retrato de uma jovem senhora com laçarote rosa”


Gerações em embate em Pais e filhos
Em Turguêniev insinuam-se muitos elementos que viriam a caracterizar a literatura da modernidade. O escritor passava largas temporadas na Europa ocidental, em contato constante com os grandes escritores e, portanto, com as tendências contemporâneas da literatura europeia. Era muito próximo de Flaubert, entre outros escritores e artistas. Em Pais e filhos, por exemplo, já se percebe uma rarefação do enredo; a fabulação exuberante, frequentemente associada ao Romantismo, aqui cede lugar à exposição e ao estudo de caracteres, principalmente por meio dos diálogos, nos quais Turguêniev é um mestre. Daí a relevância do protagonista, Ievgueni Vassílievitch Bazárov, no qual o autor procura concentrar muitos dos aspectos que estavam em jogo naquele momento histórico: jovens estudantes movidos por um impulso radical de contestar a realidade russa.

No começo do romance, narrado em terceira pessoa, Nikolai Petróvitch Kirsánov, agrônomo e senhor de terras decadente da pequena aristocracia, aguarda a chegada do seu filho Arkádi, vindo da Universidade. Ele chega acompanhado de Bazárov, filho de um militar médico e também ele estudante de Medicina, a quem Arkádi se coloca como um admirador e discípulo.

Tão logo pai, filho e seu amigo chegam à casa dos Kirsánov, o Narrador já expõe uma cena em que se sintetiza a tensão sobre a qual a narrativa se desenvolverá:

O coração de Arkádi encolheu-se um pouco. Como que de propósito, todos os mujiques que encontrava estavam esfarrapados e montavam pangarés deploráveis; como indigentes em andrajos, alguns salgueiros descascados e de galhos partidos margeavam a estrada; vacas descarnadas, enrugadas, como se fossem só pele e osso, tosavam esfomeadas o capim das valas. Parecia que haviam acabado de escapar de garras terríveis e mortíferas – e, despertado pelo aspecto lastimável das criaturas exauridas em meio àquele radioso dia de primavera, ergueu-se o espectro branco do inverno desolador e interminável, com suas tempestades de neve, de gelo e suas ondas de frio… “Não”, pensou Arkádi, “esta não é uma região rica, não impressiona nem pela fartura, nem pela dedicação ao trabalho; não é possível, não é possível que continue assim, reformas são imprescindíveis… mas como executá-las, como dar o primeiro passo?” (p. 32).

Causará impacto, ao longo do romance, como Bazárov, um niilista – é assim que Arkádi qualifica o amigo, ao apresentá-lo ao tio – irá se postar e emitir a sua opinião a respeito desse quadro de desolação social e econômica, criticando, de forma contundente, a aristocracia, a sua mentalidade e os seus modos, a tudo isso opondo a superioridade da ciência e da técnica e investigação metódicas.

Nikolai tem alma bondosa e adota uma postura de curiosidade em relação a Bazárov; não é o caso do tio de Arkádi, Pável Petróvitch Kirsánov, que representa, por excelência, a geração de 40, e com o qual Bazárov terá duras e ácidas discussões.

- Ele é um niilista – repetiu Arkádi.
(…)
- Digamos: que não respeita nada – emendou Pável Petróvitch e novamente se pôs a passar manteiga no pão.
- Aquele que considera tudo de um ponto de vista crítico – observou Arkádi.
- E não é a mesma coisa? - indagou Pável Petróvitch.
- Não, não é a mesma coisa. O niilista é uma pessoa que não se curva a nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio aceito sem provas, com base na fé, por mais que esse princípio esteja cercado de respeito. (pp. 46 – 47).

- Aristocratismo, liberalismo, progresso, princípios – dizia Bazárov, enquanto isso. - Vejam só! Quantas palavras estrangeiras e inúteis! O homem russo não necessita delas, não as quer nem de graça.
- E do que ele necessita, na opinião do senhor? A julgar pelo que o senhor nos diz, estamos simplesmente fora do âmbito humano, além de suas leis. Queira perdoar, mas a lógica da história exige que…
- Ora, e de que serve essa lógica? Podemos passar muito bem sem ela.
- Como assim?
- Assim mesmo, ora. O senhor, eu creio, não necessita de lógica para por um pedaço de pão dentro da boca quando tem fome. Para que servem essas abstrações?
Pável Petróvitch sacudiu as mãos.
- Não o entendo, depois disso. O senhor insulta o povo russo. Não entendo como é possível não reconhecer os princípios, as normas! Em que o senhor fundamenta suas ações?
- Já lhe disse, titio, que nós não reconhecemos as autoridades – interveio Arkádi.
- Nossas ações se fundamentam naquilo que julgamos útil – declarou Bazárov. - Nos tempos atuais, o mais útil é a negação: nós negamos.
- Tudo?
- Tudo.
- Como assim? Não só a arte, a poesia… mas também… é horrível dizê-lo…
- Tudo – repetiu Bazárov, com indescritível serenidade. (pp. 84 – 85).

A esse plano, de oposições ideológicas, justapõe-se e entrelaça-se outro, o das oposições amorosas. E, com isso, o escritor, com argúcia, alça o seu romance a outro patamar, apesar das polêmicas que o romance gerou.

Não foi por acaso que Pais e filhos obteve uma quase unanimidade de críticas negativas, à esquerda, ao centro e à direita. O fato de ter mantido a sua visão pessoal com esse romance, não se alinhando claramente a nenhuma das correntes ideológicas de seu tempo, em uma trajetória, até o final da redação da obra, não isenta, é certo, de hesitações, causou-lhe grandes dissabores até o final de sua vida.

Isaiah Berlin dá a devida dimensão do impacto de Pais e filhos no debate entre os intelectuais e publicistas da época, mesmo durante a redação da obra, tendo em vista o autor ter antecipado trechos do romance a algumas pessoas do seu círculo íntimo, entre os quais o seu editor, com o qual, posteriormente, viria a romper:

Aqueles que ainda o consideram um artista desengajado, acima das batalhas ideológicas, poderão ficar surpreendidos ao saber que ninguém, em toda a história da literatura russa e, talvez, da literatura em geral, foi tão feroz e continuamente atacado quanto Turguêniev, não só pela direita, como também pela esquerda. Dostoiévski e Tolstói tinham opiniões muito mais violentas, mas eram figuras temíveis, profetas irados, tratados com nervoso respeito mesmo por seus mais encarniçados adversários. Turguêniev não era de modo algum temível; amável, cético, “bom e mole como cera”, era por demais cortês e confiava muito pouco em si mesmo para assustar quem quer que fosse. Não encarnava nenhum princípio claro, não advogava doutrinas, não tinha panaceias para as “malditas questões”, conforme passaram a ser denominadas, fossem elas pessoas ou sociais.

E adiciona mais adiante:

É bem verdade que Tolstói jamais nos deixa em dúvidas a respeito de quem ele prefere e a quem condena; Dostoiévski não oculta o que considera ser o caminho da salvação. No meio desses grandes e atormentados Laocoontes, Turguêniev permaneceu cauteloso e cético. O leitor é deixado em suspenso, num estado de dúvida. (2)

Ressalta-se, assim, a postura de Turguêniev, pela autonomia da obra de arte, que prenuncia a modernidade e, alguns anos depois, na Rússia, já estará muito evidente, por exemplo, para Tchékhov:

O artista não deve ser o juiz de suas personagens, nem do que elas falam, mas apenas uma testemunha imparcial. Ouvi uma conversa sem nexo entre dois russos sobre o pessimismo, que não resolvia nada, e devo transmitir essa conversa exatamente como a ouvi, e os jurados, ou seja, os leitores, irão julgá-la. Meu papel é apenas ter talento, ou seja, saber distinguir as declarações importantes das insignificantes, saber iluminar as personagens e falar a língua delas.. Chtcheglóv-Leôntiev me recrimina por eu ter concluído o conto com a frase: “Não se compreende nada neste mundo!” Na sua opinião, o artista-psicólogo deve compreender, pois ele é psicólogo, mas eu não concordo com ele. Já está na hora de as pessoas que escrevem, sobretudo os artistas, perceberem que neste mundo não se compreende nada, como reconheceu outrora Sócrates e como Voltaire reconhecia. A multidão pensa que sabe tudo e entende tudo; e quanto mais estúpida ela é, mais amplo parece-lhe o seu horizonte. Mas se um artista, em quem a multidão acredita, decide declarar que não compreende nada do que vê, só isto já constituirá um grande saber no domínio do pensamento e um grande passo avante (…). (3)


                                                            Konstantin Yegorovitch Makovsky, “Retrato da família Volkov”


Ideologia e desejo em Pais e filhos
As trincheiras da razão, as convicções e as ortodoxias não só em Bazárov, mas em todas as demais personagens do romance irão se diluir, nuançar-se e desestabilizar-se pelas fissuras abertas pelo desejo.
Arkádi, retornando à casa paterna é surpreendido ao saber que tem um irmão, um bebê, fruto da união não oficial do pai com uma mulher muito mais jovem, Fedóssia (Feniêtchka) Nikoláievna, filha da governanta que veio a falecer enquanto trabalhava para os Kirsánov.

Em torno de Feniêtchka movem-se os desejos de Bazárov e de Pável Petróvitch, que leva, inclusive a um duelo patético entre os dois.

A mesma palpitação do desejo envolverá Arkádi e Bazárov em torno da proprietária de terras Ana Sergueiêvna Odíntsova, de vinte e nove anos, “inteligente, rica, viúva” (p. 111). Arkádi acabará envolvendo-se com Kátia, irmã de Ana Sergueiêvna, ao passo que Bazárov será atraído, de maneira ambivalente, por essa sedutora mulher.

Antes numa postura de desprezo para o jogo amoroso e para a mulher ou, então, movido simplesmente pela atração concupiscente, Bazárov vê-se enredado nas forças elusivas do desejo:

Odíntsova lhe agradava: os rumores que corriam a respeito dela, a liberdade e a independência do seu pensamento, a indubitável simpatia que tinha por ele – tudo parecia estar a seu favor; porém Bazárov logo compreendeu que, no caso de Odíntsova, não conseguiria “tirar algum proveito” e, no entanto, para sua própria surpresa, não tinha forças para lhe dar as costas. Seu sangue fervia só de pensar nela; poderia facilmente dominar seu sangue, porém uma outra coisa criava raízes dentro dele, algo que ele não admitia de maneira alguma, algo de que sempre zombava, algo que punha todo o seu orgulho em pé de guerra. Nas conversas com Ana Sergueiêvna, Bazárov manifestava, ainda mais do que antes, seu inabalável desprezo por todo e qualquer romantismo; quando sozinho, porém, indignava-se ao reconhecer um romântico em si mesmo. (p. 143).

Eis a sutil ironia que o Narrador desvela aos olhos do leitor: pelas cintilações do desejo, Bazárov chega ao avesso de si mesmo, pondo em questão as bases da sua crispada arquitetura da razão. É dessa forma que um grande escritor transpõe os impasses do seu tempo, alcançando, pelos mecanismos próprios da arte, novas sínteses e novos territórios da sensibilidade e do conhecimento.

Saudemos, pois, em seu bicentenário, Ivan Turguêniev e seu legado artístico.


                                                                                   Turguêniev e seus colegas escritores


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(1) BERLIN, Isaiah. Pensadores russos. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 214.
(2) Id., ibid., p. 271.
(3) Anton P. Tchpekhov, Carta n° 3: par Alekséi S. Suvórin; Sumi, 30 de maio de 1888. In: Irlemar Chiampi (org.). Fundadores da modernidade. Trad. Aurora Fornoni Bernardini, São Paulo: Ática, 1991, p. 165.

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Edição utilizada:
TURGUÊNIEV, Ivan. Pais e filhos. Tradução, prefácio de Rubens Figueiredo, São Paulo: Cosacnaify, 2004, 360 pp. Coleção Prosa do Mundo. Ensaios de Ivan Turguêniev e Henry James. 1ª reimpressão, 2006. Capa dura, 14,5x21cm. Imagem da sobrecapa: caricaturas de Ivan Turguêniev e Pauline Viardot. Livro composto em Bembo, papel Pólen Print 90 g/m².

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Imagens:
Konstantin Yegorovitch Makovsky (Moscou, 20/6/1839 – São Petersburgo, 17/9/1915), “Retrato de um homem” (1200 x 1525), coleção privada
https://www.the-athenaeum.org/art/detail.php?ID=233856

Konstantin Yegorovitch Makovsky, “Retrato de Lucien Guitry”, (2070 x 2500), coleção privada
https://www.the-athenaeum.org/art/detail.php?ID=137099

Konstantin Yegorovitch Makovsky, “Retrato de uma jovem senhora com laçarote rosa”, (1200 x 1495), Galeria Nacional Komi, Rússia
https://www.the-athenaeum.org/art/full.php?ID=234050

Konstantin Yegorovitch Makovsky, “Retrato da família Volkov”, (1598 x 2000), Museu Hermitage, São Petersburgo


Turguêniev e seus colegas escritores
Na primeira fileira: Ivan Goncharov, Ivan Turguêniev, Alexandre Vassilievich Drujinin e Alexandr Nikolievich Ostrovsky; atrás, em pé: Leo Tolstói, Dimitri Vassiliévich Grigorovich.
Fotografia de Sergei Lvovich Levitsky, março de 1856. Escritores que colaboravam para a revista “Sovremennik”.
https://russkiymir.ru/en/magazines/article/143873/
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Mikhail Ivanovitch Glinka (1804 – 1857), Finale da ópera “Uma vida pelo czar” (1836)
Coro e Orquestra do Teatro Mikhailovsky, São Petersburgo, 6/3/2013.