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de abril: dia mundial do livro e do direito de autor
Carolina
Maria de Jesus (1914 - 1977)
15
DE JULHO DE 1955
Aniversário
de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos
para ela. Mas o custo dos generos alimentícios nos impede a
realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos
do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e
remendei para ela calçar.
Eu
não tinha um tostão para comprar pão. Então eu lavei 3 litros e
troquei com o Arnaldo. Ele ficou com os litros e deu-me pão. Fui
receber o dinheiro do papel. Recebi 65 cruzeiros. Comprei 20 de
carne, 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açúcar e seis cruzeiros de
queijo. E o dinheiro acabou-se.
Passei
o dia indisposta. Percebi que estava resfriada. A noite o peito
doia-me. Comecei tussir. Resolvi não sair a noite para catar papel.
Procurei meu filho João José. Ele estava na rua Felisberto de
Carvalho, perto do mercadinho. O ônibus atirou um garoto na calçada
e a turba afluiu-se. Ele estava no núcleo. Dei-lhe uns tapas e em
cinco minutos ele chegou em casa.
Ablui
as crianças, aleitei-as e ablui-me e aleitei-me. Esperei até as 11
horas, um certo alguém. Ele não veio. Tomei um melhorai e deitei-me
novamente. Quando despertei o astro rei deslisava no espaço. A minha
filha Vera Eunice dizia: — Vai buscar agua mamãe!
Carolina
Maria de Jesus. Quarto de despejo: diário de uma
favelada . 10ª ed., São Paulo: Ática, 2014, p. 9.
Carolina
Maria de Jesus
Imagem
Carolina
Maria de Jesus (Sacramento, Minas Gerais, Brasil, 14 de março de
1914 — São Paulo, São Paulo, Brasil, 13 de fevereiro de 1977).
Clementina
de Jesus (Valença, Rio de Janeiro, Brasil, 7 de fevereiro de 1901 —
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil, 19 de julho de 1987).
Trecho
do documentário "Caterina Valente präsentiert
brasilianische Musik" (1979).
https://www.youtube.com/watch?v=tNuuwLnwCsM
*
sábado, 14 de setembro de 2019
Acre,
de Lucrecia Zappi
Na
selva das cidades
Prédio na Vila Buarque, São Paulo
Eu
só lembrava do sinteco novo quando chegava em casa. Não estava de
mau humor, mas não era possível que nem eu nem a Marcela, que
ninguém nesta casa pensasse antes de sair que o sol estaria forte –
hoje mais forte que ontem, e amanhã mais forte que hoje – e faria
o sinteco crepitar até no escuro.
Agachei
para sentir nos dedos a madeira machucada, e pensei no cara que tinha
passado o fim de semana ajoelhado no chão da nossa sala, falando da
vida no celular, a gente comprando lanche para ele, o sujeito
enchendo o saco, tudo para eu me ver parado ali, mais uma vez
lamentando minha distração, enquanto o sol já tinha ido e voltado
quinhentas vezes no horizonte. Contemplei por um instante a claridade
da noite que se espalhava pela sala e fechei a cortina.
Ao
dar as costas para a janela, notei uma silhueta na penumbra: era
Marcela sentada sobre a bancada da cozinha americana, como ela
gostava de chamar aquele vão sem porta.
Pensei
em começar perguntando por que não fechara a cortina. Ou que era
esquisito que ela ficasse daquele jeito no escuro com as pernas
balançantes como se fosse uma menina pequena demais para alcançar o
chão.
O
que você tá fazendo aí, Marcela?
Nada.
Ela
alongou o corpo até o interruptor e tapou os olhos para se proteger
do clarão súbito. Minha mulher parecia mesmo uma criança em cima
da bancada, com os pés longe do chão.
Tá
me vendo agora? Com a mão ligeiramente elevada diante do rosto,
Marcela passou de criança a um desses anjos de cemitério, que
escondem o rosto das trevas. Você não sabe quem subiu comigo no
elevador.
Quem?
O
Nelson. O de Santos.
Achei
que esse cara tinha morrido. (pp. 7 - 8)
Não
obstante cidadã do mundo - nascida em Buenos Aires, em 1972,
mudou-se para o Brasil aos quatro anos, tendo vivido posteriormente
no México, na Holanda e na Bélgica -, a escritora, jornalista e
tradutora Lucrecia Zappi considera-se brasileira e paulistana. A
artista reside atualmente em West Village, Nova Iorque. Tal
sentimento fica evidente na forma como a cidade de São Paulo ou,
mais especificamente, a Vila Buarque - onde de fato a escritora
viveu, após se mudar da Argentina, aos quatro anos -, fornece o
quadro social e espacial no qual se movem as personagens do romance
Acre (2017). Chama
a atenção, de imediato, assim, que essa relevância da cidade e da
região onde se dá a trama seja contrastada pelo título ambíguo do
romance; pois é justamente o deslocamento, a inadequação, o
estranhamento, a incerteza, que criam, em parte, a atmosfera
opressiva dessa obra bem recebida pela crítica, a segunda obra de
ficção da autora: antes, estreara com o romance Onça preta
(São José dos Campos: Benvirá, 2013).
Tolstói
afirmou que “toda grande literatura é uma destas duas histórias:
um homem que parte numa viagem ou um forasteiro que chega a uma
cidade.” Pois bem, em Acre temos claramente, numa apreciação
formal da narrativa, a segunda situação: Nelson, à semelhança do
que se viu em Não falei, de Beatriz Bracher, é uma
assombração do passado, um forasteiro que vem de longe, seja
temporalmente, seja espacialmente, do Acre, levando à ressurgência
dos conflitos recalcados na consciência de Oscar, o narrador em
primeira pessoa do romance, que se desenvolve em dois planos
espaço-temporais.
Não
há marcas temporais definidas para o plano em que se inicia o
romance, mas se depreende que seja a época contemporânea, na Vila
Buarque, onde reside, em um condomínio predial, na rua Major
Sertório, o casal Oscar e Marcela, ambos com cerca de 50 anos.
No
centro da trama há um quadrilátero amoroso ocorrido entre trinta
anos e trinta e dois anos antes, na cidade de Santos, envolvendo,
Oscar, Marcela, Nelson e seu primo, Washington. Um fato trágico
levou à ruptura da convivência dessas personagens, em Santos, e,
por fim, Oscar e Marcela se casam e fixam residência em São Paulo.
O casal vivera, a princípio, por dezoito anos em uma quitinete na
Praça Roosevelt. Quando o romance se inicia, o casal já mora há
onze anos em um apartamento na rua Major Sertório. Oscar tem uma
loja de luminárias na rua da Consolação, herdada do pai, e Marcela
tem um restaurante a quilo na Vila Buarque. Oscar cursou apenas dois
anos de Arquitetura e não concluiu a Faculdade. Marcela, a
enigmática personagem, que remete à Capitu machadiana, nessa trama
movida pelo ciúme obsessivo do seu marido, tem origem em uma família
muito pobre.
Como
dissemos, a vinda de Nelson, do Acre, move a trama e os ciúmes de
Oscar. A mãe de Nelson, Dona Vera, é vizinha de parede do casal.
Nelson, essa presença aterradora, fica, assim, separado apenas por
uma parede de Oscar, o que só faz aumentar a angústia deste.
Como
é esperável em uma narrativa exclusivamente em primeira pessoa,
muito da tensão da obra advém do fato de que a trama é gerada
unicamente pelo relato, pela consciência e pela memória do narrador
e, assim sendo, não sabemos quais são as intenções e motivações
das demais personagens, o que realça uma narrativa que tem como fio
condutor o ciúme.
O
aparecimento do “forasteiro” Nelson desata os traumas e as
suspeitas do narrador e ficamos sabendo, aos poucos, em flashback,
desses fatos pretéritos por meio de alternância dos planos
temporais.
O
trauma: Nelson é uma personagem bestial. A mãe despachou-o,
adolescente, para a casa do irmão, em Santos, depois de arrancar a
orelha de um jovem, em uma briga e, com isso, ter passado uma
temporada em uma instituição pública de abrigo de menores
infratores. Em Santos, Oscar e Nelson passam a fazer parte do mesmo
grupo de jovens, com características de gangue, e acabam se
envolvendo em uma briga, na qual Oscar leva a pior, dramaticamente,
ficando hospitalizado por traumatismo craniano. É, pois, esse
fantasma, que fora namorado de Marcela naquela época, que ressurge
na vida de Oscar.
Na
praia, o instinto foi o de proteger minha longboard, mas o
chute que levei na cara fez com que eu batesse a cabeça na quina da
prancha. Minha voz saiu débil, senti que o som vindo de dentro da
cabeça despedaçava meu crânio. Eram descargas elétricas que me
faziam arranhar a areia. Ouvia as pessoas ao redor em eco e o céu
tremia ao mesmo tempo, com um azul tão estridente que chegava a
enjoar. Minha boca se encheu de sangue, por isso o que eu tentava
dizer saía incompreensível. Cuspi e limpei o nariz ensanguentado.
Juntou mais gente, a torcida pela briga cresceu.
Foi
quando vi Marcela. Estava parada na roda, abraçada a um cara loiro
queimado de sol. Como no filme do surfista que lixava a prancha. Não
sei dizer por que fui fixar a vista nela, naquela moça de olhos
escuros. Achei-a bonita. Foi a última certeza que tive antes de
apagar. (p. 31).
Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo
As
assombrações do passado e o ciúme são, contudo, apenas a
superfície da narrativa; a atmosfera sufocante e angustiante daí
decorrente servem, em verdade, para dar relevo a uma outra personagem
e a um tema subjacente que lhe é conexo: a Vila Buarque e a sua
degradação, talvez a própria cidade de São Paulo e, no limite, a
crise civilizatória ou, emprestando a expressão de Celso Furtado, a
construção reiteradamente interrompida de nosso país. Disso
trataremos a seguir.
A
Vila Buarque, bairro da cidade de São Paulo, faz parte do processo
histórico de expansão urbanística da atual megalópole, o maior
centro metropolitano do país e um dos maiores do mundo. A região
era originalmente uma chácara, cujo terreno e imóvel tiveram
sucessivos proprietários, cujos nomes, posteriormente atribuídos a
vias locais, são familiares aos paulistanos: Marechal José Toledo
de Arouche Rendon, Senador Antonio Pinto do Rego Freitas, Engenheiro
Manoel Buarque de Macedo. Com a venda e posterior desmembramento da
chácara, a região abrigou, a partir de fins do século XIX e início
do século XX, as residências amplas e luxuosas de famílias de
posses que se afastavam do núcleo central da cidade. A partir de
meados do século XX, aí se construíram também edifícios de
classe média.
Um corte brutal na história da Vila Buarque ocorre, na década de
1970, com o surgimento de uma obra polêmica, batizada
sintomaticamente com o nome de um general do período ditatorial, o
Elevado Costa e Silva (posteriormente a obra passou a denominar-se
Elevado Presidente João Goulart, em uma dessas irônicas inversões
da História), conhecido popularmente como “Minhocão”: trata-se
de uma via expressa elevada que liga a Praça Roosevelt ao bairro da
Barra Funda, em um percurso de 3,4km. Desde a sua inauguração, em
1971, o Minhocão, por causa dos danos paisagísticos, da poluição
do ar e sonora causada aos edifícios próximos, da degradação
urbana e social, com moradores de rua, prostituição e usuários de
drogas, tornou-se um caso exemplar de estudos na área de urbanismo,
por ser fruto típico do planejamento autoritário na gestão de um
Prefeito não eleito, em época de regime de exceção, e igualmente
fonte de polêmicas sem fim que se arrastam até os dias atuais.
O
Minhocão é apenas uma das faces grotescas de uma cidade e sua
região metropolitana onde vivem incrivelmente mais de vinte e um
milhões de pessoas, situação a que se chegou sem planejamento
urbano algum, em uma realidade sócio-econômica totalmente
contrastiva, a qual faz conviver encraves populacionais altamente
abastados, globalizados e de consumo de alto luxo, ao lado de
populações pobres ou miseráveis, com a violência e a
marginalidade inevitáveis decorrentes desse atrito e contradições
social.
A
Vila Buarque de passado elegante, atualmente degradada, em que
populações de classe média convivem com moradores de rua,
travestis e drogados é, dessa forma, tomada como um microcosmo e
sinal dos impasses de uma cidade e de um país.
Além
do mais, o romance reflete o clima caótico do Brasil posterior às
jornadas de junho de 2013 e antecipa a atmosfera sombria e regressiva
do país atual.
Os
nomes do condomínio onde mora o casal e da loja de luminárias de
Oscar - “Trapézio Imperial” e “Lustres Imperial” - são
alusões irônicas e nostálgicas de um tempo perdido em meio ao
rebaixamento atual do horizonte de expectativas.
O
romance respira a degradação: das edificações, da vida urbana,
dos padrões de vida e de civilidade, das consciências, e que se
consubstancia na violência ameaçadora e onipresente.
Do
lado da praça, dava para notar o efeito do tempo nos prédios. À
exceção do nosso edifício, cuja fachada era um retângulo alto de
vidros antigos, nada se destacava na quadra. Era um conjunto de
construções baixas, com fissuras e remendos, caixotes de
ar-condicionado isolados e uma cortina ou outra de cor forte. No
nível da rua, entradas de prédios residenciais se misturavam a
fachadas comerciais. Eram soluções totalmente diversas que conduzia
a uma homogeneidade opaca de arrebiques. (p. 82).
Nelson
provavelmente não fazia ideia de que sua mãe andava descendo com
uma sacola para pegar restos de comida depois da feira, junto com os
mendigos, e que acabava ficando por ali. Queria companhia, decerto, e
tinha pouco dinheiro mesmo. Não sei se chegou a passar fome, mas
Vera não parecia ter vergonha de se juntar aos da rua. Até Marcela,
que não era de se comover com a miséria, quando ficou sabendo do
desespero de nossa vizinha, entre abandono e falta de grana, começou
a pensar a respeito.
Imagina
chegar à velhice assim, comendo sobras, disse ela. Se não fosse a
gente, ela poderia acabar feito essa indigência doida do centro da
cidade. Reparou na quantidade de pessoas que mora nas ruas? (p.41).
Ana
seguiu adiante, cada vez mais diluída na distância e na escuridão,
parando para conversar com outro vizinho. Vera aproveitou para contar
ao filho que Ana tinha sido assaltada recentemente.
O
dano que faz uma arma apontada na cabeça, ouvi dona Vera dizer
baixinho. E o pior é que foi bem ali na praça, quase na frente do
prédio, perto do posto policial. Parece que abusaram dela.
Nelson
cuspiu na mão um caroço de azeitona. Abusaram como?
Não
sei detalhes, não. Ela acha que o perigo está em todos os lados e
que a violência nas ruas é uma maldição entre nós. (p. 69).
A
bestialidade de Nelson, acometido de um vitiligo que avança pelos
seus braços, a sua violência instintiva, a incontrolável tendência
ao trambique, à atuação à margem da lei, a ameaça que representa
aos laços sociais, à família, é, igualmente, símbolo tanto do
terror que inspira, principalmente às camadas médias, que anseiam
por uma vida cosmopolita e estável, mas que se defrontam
continuamente, em uma realidade subdesenvolvida, com a realidade
bruta, instável e contraditória de suas vidas, como da própria
incerteza do projeto de nação. A impotência e passividade de Oscar
diante da ameaça representada pelo forasteiro Nelson é muito
significativa, aí incluída, como seu ápice trágico, a própria
incapacidade de decifrar os gestos, os significados e as intenções
de sua esposa.
Muito
bem estruturado, o início do romance, pautado pela preocupação de
Oscar com o sinteco, a demonstrar o achatamento de horizontes e a
mediocridade em que está imersa a vida do protagonista, encerra-se
em anticlímax: a coroação corrosiva da capitulação de Oscar e de
tudo o que ele representa.
*
Há
notícias de que Lucrecia Zappi está trabalhando em sua terceira
obra ficcional: eis uma notícia alvissareira para os admiradores das
novas vozes artísticas e da vertente crítica e instigante da nossa
literatura.
Lucrecia Zappi, na Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo
_________
Edição
utilizada:
Lucrecia
Zappi. Acre. São Paulo: Todavia, 2107. 208 pp.. Brochura, 13,5x21cm.
Capa: Daniel Trench. Fotos de capa: Bianca Vasconcellos; a foto da
capa é de detalhe do prédio Santa Rita, na Vila Buarque, onde a
escritora morou. Fonte: Register. Papel Munken print cream 80 g/m2.
__________
A
própria autora traduziu a obra para o espanhol, em publicação para
a Editorial La Huerta Grande (2017), assinando-se como Lucrecia Zappi
Luhring.
__________
Acre
foi finalista do Prêmio Jabuti, 2018.
__________
Imagens
Prédio na Vila Buarque, São Paulo
vivareal.com.br
Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo
br.kekanto.com
Lucrecia Zappi, na Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo.
José Antonio
Resende de Almeida Prado (Santos, 8 de fevereiro de 1943 — São
Paulo, 21 de novembro de 2010). Noturno n. 4. Piano: Alexandre Dias.
Festival "Vamos Ouvir Música?", Teatro Nacional Claudio
Santoro, Brasília, 2007.
https://www.youtube.com/watch?v=nF4uv8w24a4
domingo, 16 de junho de 2019
ENTREVISTA
COM MARIA VALÉRIA REZENDE
A
autora de Vasto mundo responde ao blog
José Costa Leite, "Cavalo-marinho", xilogravura
Em
entrevista ao Búfalo Celeste, a escritora Maria Valéria
Rezende fala sobre a origem do volume de contos Vasto mundo,
diz que escreve para seus personagens, revela que o conto “Aurora
dos Prazeres” baseia-se em fatos que vivenciou e comenta sobre a
possibilidade de dedicar-se à literatura memorialística.
Em
sua participação na série “Encontros com o escritor”, em 2018,
promovida pela Editora Unesp, na cidade de São Paulo, a Sra. relatou
a forte ambiência cultural que fez com que a sua vida, desde sempre,
em Santos, fosse cercada por livros, poemas, saraus, recitais. Assim,
escrever histórias ou versos foi-lhe algo natural e que se manteve
ao longo de toda a sua vida. Por que, então, tardou tanto a vir a
público essa coletânea de contos, Vasto mundo?
Escrever
as histórias inspiradas nos fatos que eu via ou pressentia sempre
foi uma prática para mim, um meio de tentar me por no lugar dos
outros, compreender, adivinhar, e também, por que não?, me divertir
em noites silenciosas do interior nordestino. Mas meu projeto de vida
era mesmo a educação popular, a conscientização e a organização
dos oprimidos, e não ser "escritora". Foi quase por acaso
que se publicou meu primeiro livro. Sem dinheiro pra presentes
comprados, eu escrevia uma dessas histórias, desenhava uma capa
bonitinha e dava de presente aos amigos... assim, um amigo, Frei
Betto, acabou por passar um texto meu a um editor, Pascoal Soto, que
um dia me telefonou pedindo mais... daí foi ainda uma longa história
até que se publicasse. Com a idade, eu já não podia mais continuar
nas mesmas andanças, com a mochila às costas, então escrever
tornou-se uma atividade que, penso, pode também contribuir para que
se veja o que muitas vezes fica escondido e, da força do nosso povo,
colher esperança.
Guimarães
Rosa, do qual há uma citação em epígrafe em Vasto mundo,
transfigurou radicalmente toda a tradição brasileira do
regionalismo, unindo o local a uma temática universal em uma
experiência de linguagem que representa um dos cumes das nossas
Letras. Foi desafiador escrever à sombra do grande escritor de
Cordisburgo, ao situar os seus contos no interior do Nordeste
brasileiro? Como
sempre escrevi espontaneamente, simplesmente porque tinha uma
história para contar a mim mesma, porque, mesmo para quem a vê e
vive, uma história só se revela quando a gente a conta, e não
tinha a pretensão de ser escritora reconhecida, nunca comparei o que
escrevia com outro autor... muito menos com o grande Rosa, que li
inúmeras vezes, desde minha adolescência, assim como centenas,
talvez milhares de outros livros que absorvi ao longo da minha vida.
Quando me perguntam para quem escrevo, a única resposta que posso
dar é que escrevo para meus personagens. Sempre me pergunto se eles
se reconhecerão ali. E parece que sim.
À
semelhança de Flaubert, a Sra. pode dizer que “Aurora dos
Prazeres, c’est moi”? Aurora
dos Prazeres, que é fabulação a partir de fatos realmente
acontecidos, não sou eu, somos milhares de religiosas que, sobretudo
a partir dos anos 60, deixamos a proteção dos muros dos conventos
para nos "inserir" por longos anos entre os mais pobres e
oprimidos, no interior, no campo ou nas periferias das grandes
cidades, para compartilhar sua vida, para tentar ser entre eles
"fermento na massa" como diz o Evangelho. Então, creio que
se dissermos "Aurora dos Prazeres c'est nous", estaremos
constatando um fato bem mais concreto e exato do que dizia Flaubert
na sua tirada literária!
A
Sra. é uma das grandes ficcionistas brasileiras em atividade, mas a
sua própria vida certamente está cercada de inúmeras passagens que
podem contar muito sobre a História recente do Brasil ou sobre as
difíceis condições de vida de populações de diversos países. Os
seus leitores podem aguardar a publicação de suas memórias? Na
verdade nem seria capaz de escrever minhas memórias, senão como já
as escrevo, ficcionalmente... só sabemos da realidade o que nos
entra pelos nossos fracos cinco sentidos... são fragmentos do real,
como retalhos que nós vamos ligando uns aos outros com crochê para
fazer uma colcha cujo desenho faça sentido. Acho que toda memória
tem ficção e toda ficção tem memória. Acho bem mais divertido
fazer livremente ficção juntado peças de memória e fazendo um
novo desenho do que tentar "dizer a verdade" num texto de
"memórias".
__________
Imagem:
Xilogravura
do cordelista José Costa Leite (Sapé, Paraíba, Brasil, 1925).
Marlos Nobre, “Dengues da
mulata desinteressada”, op. 20 (1966).
Duo
Cappuccino: Mere Oliveira, mezzo-soprano; André Simão, violão.
St.
Edigienkirche, Beerbach, Nuremberg, Alemanha, 9/5/2010.
Sobre
poema de Ribeiro Couto:
Te
dei um vidro de cheiro
Te
dei um colar de conchas
De
nenhum fizeste conta
Comprei
artigo estrangeiro
outro
vidro, outro colar
Não
quiseste olhar,
Não
quiseste olhar
Vendo
que eras ambiciosa
te
prometi um vestido
Te
prometi um vestido
disseste
“Eu rasgo atrevido!”
Mas
falei baixinho: “Rosa”...
Fui
buscar o meu violão,
E
suspiraste, suspiraste: “Romão”
Te
dei um vidro de cheiro
Te
dei um colar de conchas
De
nenhum fizeste conta
Comprei
artigo estrangeiro
outro
vidro, outro colar.
quarta-feira, 4 de abril de 2018
Liturgia
do fim, de Marília Arnaud
O
patriarcalismo e as raízes da violência
Iberê Camargo, "Auto-retrato", 1983
Começo
pelo dia em que saí de casa. À medida que o ônibus se afastava do
lugarejo, a massa verde-escura, recortada contra o céu de anil, ia
se dissolvendo lentamente numa bruma de poeira e olhos marejados,
minha vida a se despregar de mim, a se desmanchar no vazio. Num
estupor de animal dessangrado, órfão de mim mesmo, eu estava lá e
não estava, e embora a manhã espanejasse a plumagem de luz sobre
todas as coisas, eram as asas da noite que se estendiam por cima de
Perdição. (p. 11).
Vem
de Campina Grande (terra do dramaturgo Paulo Pontes), a ficcionista
Marília Arnaud, atualmente residente na Capital paraibana, que
atinge com o seu segundo romance, após início de carreira no conto,
maturidade artística admirável, fazendo de Liturgia do fim (1)uma obra marcante na literatura
brasileira dessa
segunda década, com muitos e variados méritos.
Respondendo
à revista “A Semana”, a propósito do lançamento de seu
primeiro romance, Suíte de silêncios (Rio de Janeiro: Rocco,
2012), Marília Arnaud é indagada sobre uma possível produção
poética; a escritora responde que “nunca pensei em fazer poesia”
(2). Nem é necessário: uma das qualidades marcantes de Liturgia
do fim é justamente o fino artesanato de uma escrita que se
esmera na musicalidade de assonâncias e aliterações, no ritmo da
frase ou do período, cadenciados segundo as intenções dramáticas
dos fatos narrados, muitas vezes em longas orações encadeadas, e na
riqueza extraordinária do léxico e das imagens. Como nesse belo
trecho, em que a sinestesia dos sons, das fragrâncias e das cores e
figuras da Natureza entrelaçam-se, num crescendo sufocante, com a
angústia da personagem:
Podia
ouvir a cantiga do vento lapeando a ramaria, o clangor de um ferreiro
rasgando a solidão da mata, a flauta da correnteza nos calhaus do
riacho, o tinido de chocalhos misturado à toada de garotos na
guiança de cabras. O mundo murmurava um segredo que irrompia do
ventre da serra, que soprava nos milharais, estalejava nos galhos das
árvores, recendia nos frutos, o meu segredo, um soluço da natureza
a me queimar os ouvidos, uma melodia a ressoar alucinadamente dentro
de mim, uma cascata de acordes que avançava para além das margens,
alagando-me, submergindo-me, forçando-me as comportas do peito. (pp.
33-34).
A
poesia da escrita de Liturgia do fim,
um dos grandes prazeres da obra, não é, contudo, uma música
a serviço de si mesma. Temos aqui um romance solidamente estruturado
que mantém o leitor firmemente atado à sua trama.
Inácio
retorna, após trinta anos, à Perdição de sua infância e
juventude: localidade fictícia, cujo nome tem alta carga simbólica.
É
próprio da narração em primeira pessoa impelir o leitor para a
memória, as experiências, a visão de mundo do narrador. No caso de
Liturgia do fim, a trama
consiste no lento e angustiante processo pelo qual o Narrador, Inácio
(e, por via de consequência, o leitor), toma consciência, em sua
totalidade, lentamente e a
custo, do percurso trágico
de sua existência, juntando cacos, fragmentos e cenas.
Muito
da estratégia narrativa ou
da atitude do Narrador em relação ao público advém justamente do
suspense sobre a história que se formará, ao
fim, a partir das peças do
quebra-cabeça que vão sendo colocadas aleatoriamente
pelo Narrador.
O
leitor sente-se como se colocado na posição de um analista que ouve
a trama exposta por Inácio, muito
embora o Narrador não se dirija a alguém em especial, mas a si
mesmo.Aos
poucos, a narrativa indica
que há um ou mais acontecimentos traumáticos,
recalcados no inconsciente
do Narrador, aos quais o
protagonista tenta dar forma
ou organizar no plano do consciente, no
anseio de alcançar perdão, remissão,
libertação.
Raramente
me ligava. Nunca àquela hora da manhã. Fui acordado com alguém me
chamando à porta do quarto. Vesti-me rapidamente e fui atender ao
telefone. Na véspera, sonhara que meus dentes despencavam e
desapareciam pelo ralo de um lavatório, e a sensação angustiante
de boca vazia e fatalidade anunciada perdurara o dia inteiro.
Mãe?
Atropeladas pelo choro, as palavras de desespero não se ordenavam em
sua boca, até que um sentido, a princípio inimaginável, foi
ganhando forma e, áspero contundente, arremeteu-se contra mim e me
fez desabar. Maldito pai! Veneno de aguilhões por todo o corpo,
talho fundo na alma, morri naquele instante, naquela manhã, e segui
morrendo, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo,
até hoje, até agora, quando morro ainda, o ar rarefeito, o peito
esbagaçado por patas disparadas de pampas e alazões. (p. 20).
Numa
dupla jornada de retorno a Perdição - retorno numa viagem para
visitar o pai muito doente e retorno em memória, investigando o seu
passado e os traumas e as
tragédias ali soterrados, a
narrativa de Liturgia do fim
é, pois, num primeiro plano,
a tentativa de Inácio de, impulsionado
pela culpa, rever a sua
existência e a ela dar sentido e significado, buscando
as raízes de uma vida que,
massacrada pelo pai, Joaquim Boaventura, ficou para sempre
acorrentada em elos de culpa a Perdição, muito embora dela
distante, e redundou em fracasso, desnorteamento, embrutecimento e
solidão.
Na
casa de sua infância, estão agora, nesse retorno de Inácio, apenas
o pai moribundo e Damiana, agregada
que desde menina foi acolhida
e é testemunha silenciosa
de toda a desventura da
família.A
mãe, Adalgisa, a irmã, Ifigênia – esta, peça central na
tragédia que empurrou Inácio para o exílio de si mesmo -, a outra
irmã, Teresa, tia Florinda e seu filho, Felinto, estão todos
mortos.
Acovardado,
perambulei pela vida, arrastando correntes, réu errante a bater no
peito, por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. (p. 21).
Iberê Camargo, "Fantasmagoria III", 1987
Em
um plano superior, acima das circunstâncias específicas das vidas
dos integrantes da família Boaventura, monta-se, no decorrer dos dez
capítulos do romance, o quadro do patriarcalismo brasileiro e como
daí deflui e reconstitui-se, geração a geração, o seu correlato,
a saber, a violência como
essência da formação familiar dos indivíduos, lastreada na
relação hierárquica entre homem e mulher e entre pai e filhos.
Desvelador
no romance é, igualmente, a
investigaçãode como as estruturas sociais
e familiares apropriam-se, de maneira patológica, dos valores
religiosos como meios auxiliares de opressão para a manutenção do
patriarcalismo. Ocorre que a
narrativa mostra justamente o avesso dessas práticas que, em
verdade, acabam por encobrir as perversões dos indivíduos:
Em
nome desse Deus e amparado em lendas bíblicas, alegorias crísticas,
salmos, versículos, novenas, terços, penitências, criaste teus
filhos com severidade e frieza, mas comigo, pai, especialmente
comigo, por razões que me eram obscuras, ias além, confessa,
confessa que me querias comendo no cocho, gastando o couro ao sol e à
chuva do pasto, carregando no lombo teus picuás, balançando o rabo
à tua passagem, lambendo a merda nos teus coturnos, e que quando me
encaravas com teu olhar de domador querias aniquilar o infame e o
absurdo que existia de ti em mim. (p. 67).
Encobriste
tua paixão com a máscara do patriarca, do guardião dos bons
costumes, do homem reto e religioso, cidadão respeitado e cumpridor
dos seus deveres, mas não para mim, pai, sangue do teu sangue, carne
da tua carne, de quem arrancaste a inocência com o peso da tua
falta. Assinalavas em mim o pecado, e o pecado, em toda a sua
bestialidade, flamejava em tuas mãos de sátrapa, em tua face
farisaica, em teu olhar de canga. (p. 66).
Muito
embora a opressão do patriarcalismo dirija-se de forma contundente à
mulher, são as figuras femininas as personagens fortes do romance.
Ifigênia,
irmã de Inácio:
Ifigênia.
Nem seu Joaquim Boaventura conseguia por-lhe peia, a única que o
arrostava, sem palavras, a cabeça erguida, o olhar aprumado. Peça
perdão ao seu pai, menina de gênio ruim, implorava mamãe, e ela
não lhe dava ouvidos, não arredava de si, empertigada, os lábios
grossos bem abotoados, senhora de um mundo indevassável. (…)
De
minha parte, não acreditava que ela se comportasse assim por orgulho
ou capricho, como mamãe imaginava, antes supunha que desejava nos
mostrar, a nós, trancafiados em nosso servilismo e temor, que era
possível viver sem jugo, e daquela firmeza triste que se alçava
dentro dela rebentava um canto de liberdade. (p. 41).
Ieda,
esposa de Inácio, da qual ele se separa, deixando também a filha,
para voltar a Perdição:
A
confiança em si mesma e no mundo repousava na própria natureza de
Ieda, e me parecia um milagre que, diante de tanta vida, aquele
sentimento não houvesse enfraquecido nem se degradado. (p. 32).
Da
mesma forma, Adalgisa, mãe de Inácio, e Damiana, lutam para dar
humanidade ao ambiente áspero de Perdição, como fruto do controle
férreo exercido pelo pai, Joaquim Boaventura. A
própria loucura de tia Florinda é apresentada como uma recusa à
“normalização” de submeter-se e aceitar a opressão do
patriarcalismo, cujo poder é tão implacável que as
personagens que ousam desafiá-lo,
as femininas notadamente, ou enlouquecem ou dão cabo da própria
vida ou têm as suas vidas
transformadas em ruínas, como é o caso de Inácio.
Por
causa de um forte conflito com o pai, Inácio deixa Perdição, mas a
sua vida estará para sempre marcada por uma tragédia
ali passada. Inácio joga toda a sua energia nos livros e na ambição
de tornar-se um artista; casa-se, dedica-se a lecionar, em seguida
ingressa na vida acadêmica, consegue algum reconhecimento como
escritor, por fim, mas leva a sua existência como um exilado de si
mesmo, incapaz de estabelecer
vínculos reais seja com a esposa, a quem trai compulsivamente, com o
trabalho e até mesmo com a sua pretensão artística, cujo produto
mostra-se, ao final,
artificioso e estéril. Inácio projeta-se em sua sexualidade
puramente instintiva, esquecendo as mulheres com as quais se
relaciona tão logo lhes dá as costas.
O
ódio que Inácio devota ao pai volta-se contra ele mesmo, pois ele
se vê como vítima e, por outro lado, lamenta a covardia de não ter
se insurgido contra a
opressão patriarcale,
principalmente, de ter fechado os olhos para os vínculos verdadeiros
que nos unem às pessoas.
*
Ressalte-se,
por fim, que, embora passado em meio rural, o romance foge ao
regionalismo. Não há nenhum
acento típico nas falas das personagens e laivo algum de exotismo.
Muito pelo contrário. Liturgia do fim
estabelece-se sobre outro registro: o da tragédia transposto para a
estrutura do gênero romance. Temos
aqui a transposição
da inevitabilidade do Destino, típico da tragédia antiga
– aqui na forma do
patriarcalismo, ao qual as personagens estão submetidas
-, para
o herói problemático do romance, que, na formulação de Georg
Lukács, é a epopeia do mundo abandonado por deus (3).
Essa
fatura elevada é dada no romance por constantes
intertextualidades que remetem às escrituras bíblicas ou à
tragédia ou épica
antigas, inclusive
no nome da marcante personagem Ifigênia.
Bastaria
que eu começasse, te lembras, Damiana, do dia em que papai me
expulsou de casa?, e ela logo emendaria sua memória na minha, porque
também estava lá quando o impedi que matasse a própria filha,
depois de tê-la arremessado contra a parede, chutando-a
violentamente, enquanto rugia vadia, vadia, quem foi o canalha?, com
mamãe esgoelando, pelo amor de Deus, para, Joaquim, para!, e nós
todos ali, incrédulos e aterrorizados diante da fúria grandiosa
daquele que parecia ter saltado das páginas do Velho Testamento para
nos castigar, a nós, os ímprobos, os impuros, pois não eras tu,
pai, o Deus do nosso ordinário mundo? E porventura não sabias que a
língua é capaz de destrancar as páginas do inferno? (p. 48).
Uma
palavra eu não tinha para a tecelã que urdia na profundeza da
carne, com as ramas do próprio sangue, uma trama invisível de
urgência e silêncio, fio a fio de uma última e secreta espera.
Odisseu ordinário, à deriva num mar estrangeiro, fustigado pelas
asas de uma tempestade, náufrago desde sempre, visceralmente
derrotado, eu não voltaria à minha Ítaca de perdição, nem em
nove meses, nem em vinte anos. (p. 100).
Belo
e profundo romance da talentosa escritora paraibana. Que venham
outros.
_________
(1)
Edição utilizada:
ARNAUD,
Marília. Liturgia do fim. São Paulo: Tordesilhas, 2016, 149
pp., 21x13cm. Texto de orelha: Maria Valéria Rezende. Capa: Andrea
Vilela de Almeida. Projeto gráfico: Kiko Farkas e Thiago Lacaz.
Impressão com tipografia Electra, em papel Lux Cream 70g.
(3)
LUKÁCS, Georg. A teoria do romance.
Trad. José Marcos Mariani de Macedo, São Paulo: Duas Cidades,
Editora 34, 2000, p. 89.
_________
Crédito das imagens:
Iberê Camargo, "Auto-retrato", 1983. In:
Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São
Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em:
<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra4022/auto-retrato>.
Acesso em: 04 de Abr. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN:
978-85-7979-060-7
Iberê Camargo, "Fantasmagoria III", 1987. In: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São
Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em:
<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra2281/fantasmagoria-iii>.
Acesso em: 04 de Abr. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN:
978-85-7979-060-7
Eli-Eri Moura (Campina Grande, Paraíba, Brasil, 1963), "Circumfractus para Quarteto de cordas".
quarta-feira, 14 de março de 2018
Úrsula,
de Maria Firmina dos Reis
Mulher,
negra e pioneira na literatura brasileira
"Tropical", Anita Malfatti
São
vastos e belos os nossos campos; porque inundados pelas torrentes do
inverno semelham o oceano em bonançosa calma — branco lençol de
espuma, que não ergue marulhadas ondas, nem brame irado, ameaçando
insano quebrar os limites, que lhe marcou a onipotente mão do rei da
criação. Enrugada ligeiramente a superfície pelo manso correr da
viração, frisadas as águas, aqui e ali, pelo volver rápido e
fugitivo dos peixinhos, que mudamente se afagam, e que depois
desaparecem para de novo voltarem — os campos são qual vasto
deserto, majestoso e grande como o espaço, sublime como o infinito.
Em
novembro de 2017, ocorreu a efeméride
de cem anos da
morte da escritora maranhense Maria Firmina dos Reis (São
Luís, Maranhão, Brasil, 11/10/1825 – Guimarães, Maranhão, Brasil, 11/11/1917).
Filha
de mãe negra e pai branco, exerceu o magistério na Instrução
Primária de 1847 a 1881.
Em
1859, publicou o romance Úrsula(Tipografia
do Progresso, São Luís), que é considerado, em nossas
Letras, o primeiro romance escrito por uma mulher e também o
primeiro romance abolicionista. Por causa dos preconceitos da época,
o nome da autora não apareceu na publicação e a autoria foi dada
sumariamente como “Por uma maranhense”.
A
redescoberta dessa obra deve-se ao obstinado pesquisador paraibano
Homero de Almeida (1896 – 1983), que adquiriu por acaso, no final
da década de sessenta, um exemplar da edição de 1859 do romance
Úrsula – em verdade, o único conhecido. Foi somente em
meados dos anos setenta que, empenhado em fixar qual seria o primeiro
livro escrito e publicado por uma mulher na literatura brasileira,
Homero de Almeida retomou a investigação sobre a obra e, por meio
de consultas a outros estudiosos, chegou ao nome da autora. Assim,
Homero de Almeida constatou, para sua surpresa, que essa mulher
pioneira era igualmente negra. O pesquisador gentilmente doou esse
único exemplar conhecido ao Governo do Maranhão e, com base nele,
publicou-se, em 1975, uma nova edição – fac-similada - do
romance.
Coube
a Nascimento Morais Filho (1922 – 2009) dar prosseguimento às
pesquisas sobre a vida e a obra de Maria Firmina dos Reis, do que
resultou a catalogação das outras obras publicadas pela autora,
seja em livros, seja pela sua atuação na imprensa. Morais Filho
publicou, ademais, a primeira biografia da artista: Maria
Firmina, fragmentos de uma vida (Imprensa do Governo do
Maranhão, 1975).
Maria
Firmina era prima do escritor e gramático Francisco Sotero dos Reis
(1800 – 1871).
A
escritora fundou em Guimarães a primeira escola mista do Brasil; tal
ousadia teve como consequência pressões e protestos, do que era
considerado como uma ousadia, e, por causa disso, o estabelecimento
teve que ser fechado após dois anos.
Maria
Firmina publicou também: o romance Gupeva, de temática
indígena(1861/1862); o livro de poemas Cantos à beira-mar
(Tipografia do País, 1871) e o conto “A escrava” (A Revista
Maranhense no. 3, 1887), afora publicações esparsas na imprensa.
Compôs ainda letra e música do “Hino da libertação dos
escravos” (1888).
Em
setembro último, a Editora da PUC Minas publicou uma nova edição
do romance Úrsula e está
disponível na rede mundial uma edição digital dessa mesma obra
pela “Coleção Acervo Brasileiro”, dos Cadernos do Mundo Inteiro
(www.cadernosdomundointeiro.com.br).
Desde
a redescoberta de Maria Firmina dos Reis, por obra e méritos dos
pesquisadores Homero de Almeida e Nascimento Morais Filho, a vida e a
obra da escritora têm, crescentemente, sido de objeto de estudos na
Universidade; pode-se dizer, assim, que a autora já tem alguma
fortuna crítica, por meio de dissertações,prefácios,
artigos em revistas especializadas, ensaios e comunicações em
Congressos.
O
crescente interesse da Academia, contudo, não se reproduziu ainda
para o cidadão e a cidadã não
integrados à Universidade, mas
interessados em literatura, cultura e história brasileiras,
feminismo e história do negro no Brasil.
É
necessário, pois,
investigar e sanar, urgentemente, o apagamento da obra de Maria
Firmina da história da literatura e da cultura brasileiras. Sob
esse prisma, é
de se perguntar: como isso
foi possível? Ressalte-se
que, se o acaso não tivesse
brilhado a Homero de Almeida, levando às suas mãos o único
exemplar conhecido do romance de 1859, teria caído no esquecimento
a memória dessa brasileira e
maranhense ilustre e mulher
negra, artista e educadoracorajosa e com talento e
sensibilidade notáveis.
Temos,
assim, uma dívida histórica com Maria Firmina dos Reis, que deve
ser encarada como um símbolo, simultaneamente da
mulher e do povo negro, da luta pelo reconhecimento a uma
vida plena de direitos e de realização nas mais diversas instâncias
da vida.
"Saudade", Chiquinha Gonzaga; piano: Clara Sverner
*
Imagem:
"Tropical", Anita Malfatti (São Paulo, Brasil, 2/12/1889 - São Paulo, Brasil, 6/11/1964), 1917, óleo sobre tela, 77cm x 102 cm, Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil.