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sexta-feira, 23 de abril de 2021

 

23 de abril: dia mundial do livro e do direito de autor

Carolina Maria de Jesus (1914 - 1977)



15 DE JULHO DE 1955

Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos generos alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar.


Eu não tinha um tostão para comprar pão. Então eu lavei 3 litros e troquei com o Arnaldo. Ele ficou com os litros e deu-me pão. Fui receber o dinheiro do papel. Recebi 65 cruzeiros. Comprei 20 de carne, 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açúcar e seis cruzeiros de queijo. E o dinheiro acabou-se.


Passei o dia indisposta. Percebi que estava resfriada. A noite o peito doia-me. Comecei tussir. Resolvi não sair a noite para catar papel. Procurei meu filho João José. Ele estava na rua Felisberto de Carvalho, perto do mercadinho. O ônibus atirou um garoto na calçada e a turba afluiu-se. Ele estava no núcleo. Dei-lhe uns tapas e em cinco minutos ele chegou em casa.


Ablui as crianças, aleitei-as e ablui-me e aleitei-me. Esperei até as 11 horas, um certo alguém. Ele não veio. Tomei um melhorai e deitei-me novamente. Quando despertei o astro rei deslisava no espaço. A minha filha Vera Eunice dizia: — Vai buscar agua mamãe!


Carolina Maria de Jesus. Quarto de despejo: diário de uma favelada . 10ª ed., São Paulo: Ática, 2014, p. 9.


                                           Carolina Maria de Jesus

 

Imagem

Carolina Maria de Jesus (Sacramento, Minas Gerais, Brasil, 14 de março de 1914 — São Paulo, São Paulo, Brasil, 13 de fevereiro de 1977). 

Fonte:

https://www.todamateria.com.br/carolina-maria-de-jesus/



Clementina de Jesus (Valença, Rio de Janeiro, Brasil, 7 de fevereiro de 1901 — Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil, 19 de julho de 1987).

Trecho do documentário "Caterina Valente präsentiert brasilianische Musik" (1979).

https://www.youtube.com/watch?v=tNuuwLnwCsM

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sábado, 14 de setembro de 2019

Acre, de Lucrecia Zappi

Na selva das cidades




                        Prédio na Vila Buarque, São Paulo


Eu só lembrava do sinteco novo quando chegava em casa. Não estava de mau humor, mas não era possível que nem eu nem a Marcela, que ninguém nesta casa pensasse antes de sair que o sol estaria forte – hoje mais forte que ontem, e amanhã mais forte que hoje – e faria o sinteco crepitar até no escuro.
Agachei para sentir nos dedos a madeira machucada, e pensei no cara que tinha passado o fim de semana ajoelhado no chão da nossa sala, falando da vida no celular, a gente comprando lanche para ele, o sujeito enchendo o saco, tudo para eu me ver parado ali, mais uma vez lamentando minha distração, enquanto o sol já tinha ido e voltado quinhentas vezes no horizonte. Contemplei por um instante a claridade da noite que se espalhava pela sala e fechei a cortina.
Ao dar as costas para a janela, notei uma silhueta na penumbra: era Marcela sentada sobre a bancada da cozinha americana, como ela gostava de chamar aquele vão sem porta.
Pensei em começar perguntando por que não fechara a cortina. Ou que era esquisito que ela ficasse daquele jeito no escuro com as pernas balançantes como se fosse uma menina pequena demais para alcançar o chão.
O que você tá fazendo aí, Marcela?
Nada.
Ela alongou o corpo até o interruptor e tapou os olhos para se proteger do clarão súbito. Minha mulher parecia mesmo uma criança em cima da bancada, com os pés longe do chão.
Tá me vendo agora? Com a mão ligeiramente elevada diante do rosto, Marcela passou de criança a um desses anjos de cemitério, que escondem o rosto das trevas. Você não sabe quem subiu comigo no elevador.
Quem?
O Nelson. O de Santos.
Achei que esse cara tinha morrido. (pp. 7 - 8)


Não obstante cidadã do mundo - nascida em Buenos Aires, em 1972, mudou-se para o Brasil aos quatro anos, tendo vivido posteriormente no México, na Holanda e na Bélgica -, a escritora, jornalista e tradutora Lucrecia Zappi considera-se brasileira e paulistana. A artista reside atualmente em West Village, Nova Iorque. Tal sentimento fica evidente na forma como a cidade de São Paulo ou, mais especificamente, a Vila Buarque - onde de fato a escritora viveu, após se mudar da Argentina, aos quatro anos -, fornece o quadro social e espacial no qual se movem as personagens do romance Acre (2017). Chama a atenção, de imediato, assim, que essa relevância da cidade e da região onde se dá a trama seja contrastada pelo título ambíguo do romance; pois é justamente o deslocamento, a inadequação, o estranhamento, a incerteza, que criam, em parte, a atmosfera opressiva dessa obra bem recebida pela crítica, a segunda obra de ficção da autora: antes, estreara com o romance Onça preta (São José dos Campos: Benvirá, 2013).

Tolstói afirmou que “toda grande literatura é uma destas duas histórias: um homem que parte numa viagem ou um forasteiro que chega a uma cidade.” Pois bem, em Acre temos claramente, numa apreciação formal da narrativa, a segunda situação: Nelson, à semelhança do que se viu em Não falei, de Beatriz Bracher, é uma assombração do passado, um forasteiro que vem de longe, seja temporalmente, seja espacialmente, do Acre, levando à ressurgência dos conflitos recalcados na consciência de Oscar, o narrador em primeira pessoa do romance, que se desenvolve em dois planos espaço-temporais.

Não há marcas temporais definidas para o plano em que se inicia o romance, mas se depreende que seja a época contemporânea, na Vila Buarque, onde reside, em um condomínio predial, na rua Major Sertório, o casal Oscar e Marcela, ambos com cerca de 50 anos.

No centro da trama há um quadrilátero amoroso ocorrido entre trinta anos e trinta e dois anos antes, na cidade de Santos, envolvendo, Oscar, Marcela, Nelson e seu primo, Washington. Um fato trágico levou à ruptura da convivência dessas personagens, em Santos, e, por fim, Oscar e Marcela se casam e fixam residência em São Paulo. O casal vivera, a princípio, por dezoito anos em uma quitinete na Praça Roosevelt. Quando o romance se inicia, o casal já mora há onze anos em um apartamento na rua Major Sertório. Oscar tem uma loja de luminárias na rua da Consolação, herdada do pai, e Marcela tem um restaurante a quilo na Vila Buarque. Oscar cursou apenas dois anos de Arquitetura e não concluiu a Faculdade. Marcela, a enigmática personagem, que remete à Capitu machadiana, nessa trama movida pelo ciúme obsessivo do seu marido, tem origem em uma família muito pobre.

Como dissemos, a vinda de Nelson, do Acre, move a trama e os ciúmes de Oscar. A mãe de Nelson, Dona Vera, é vizinha de parede do casal. Nelson, essa presença aterradora, fica, assim, separado apenas por uma parede de Oscar, o que só faz aumentar a angústia deste.

Como é esperável em uma narrativa exclusivamente em primeira pessoa, muito da tensão da obra advém do fato de que a trama é gerada unicamente pelo relato, pela consciência e pela memória do narrador e, assim sendo, não sabemos quais são as intenções e motivações das demais personagens, o que realça uma narrativa que tem como fio condutor o ciúme.

O aparecimento do “forasteiro” Nelson desata os traumas e as suspeitas do narrador e ficamos sabendo, aos poucos, em flashback, desses fatos pretéritos por meio de alternância dos planos temporais.

O trauma: Nelson é uma personagem bestial. A mãe despachou-o, adolescente, para a casa do irmão, em Santos, depois de arrancar a orelha de um jovem, em uma briga e, com isso, ter passado uma temporada em uma instituição pública de abrigo de menores infratores. Em Santos, Oscar e Nelson passam a fazer parte do mesmo grupo de jovens, com características de gangue, e acabam se envolvendo em uma briga, na qual Oscar leva a pior, dramaticamente, ficando hospitalizado por traumatismo craniano. É, pois, esse fantasma, que fora namorado de Marcela naquela época, que ressurge na vida de Oscar.


Na praia, o instinto foi o de proteger minha longboard, mas o chute que levei na cara fez com que eu batesse a cabeça na quina da prancha. Minha voz saiu débil, senti que o som vindo de dentro da cabeça despedaçava meu crânio. Eram descargas elétricas que me faziam arranhar a areia. Ouvia as pessoas ao redor em eco e o céu tremia ao mesmo tempo, com um azul tão estridente que chegava a enjoar. Minha boca se encheu de sangue, por isso o que eu tentava dizer saía incompreensível. Cuspi e limpei o nariz ensanguentado. Juntou mais gente, a torcida pela briga cresceu.
Foi quando vi Marcela. Estava parada na roda, abraçada a um cara loiro queimado de sol. Como no filme do surfista que lixava a prancha. Não sei dizer por que fui fixar a vista nela, naquela moça de olhos escuros. Achei-a bonita. Foi a última certeza que tive antes de apagar. (p. 31).



                       Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo


As assombrações do passado e o ciúme são, contudo, apenas a superfície da narrativa; a atmosfera sufocante e angustiante daí decorrente servem, em verdade, para dar relevo a uma outra personagem e a um tema subjacente que lhe é conexo: a Vila Buarque e a sua degradação, talvez a própria cidade de São Paulo e, no limite, a crise civilizatória ou, emprestando a expressão de Celso Furtado, a construção reiteradamente interrompida de nosso país. Disso trataremos a seguir.

A Vila Buarque, bairro da cidade de São Paulo, faz parte do processo histórico de expansão urbanística da atual megalópole, o maior centro metropolitano do país e um dos maiores do mundo. A região era originalmente uma chácara, cujo terreno e imóvel tiveram sucessivos proprietários, cujos nomes, posteriormente atribuídos a vias locais, são familiares aos paulistanos: Marechal José Toledo de Arouche Rendon, Senador Antonio Pinto do Rego Freitas, Engenheiro Manoel Buarque de Macedo. Com a venda e posterior desmembramento da chácara, a região abrigou, a partir de fins do século XIX e início do século XX, as residências amplas e luxuosas de famílias de posses que se afastavam do núcleo central da cidade. A partir de meados do século XX, aí se construíram também edifícios de classe média. 

Um corte brutal na história da Vila Buarque ocorre, na década de 1970, com o surgimento de uma obra polêmica, batizada sintomaticamente com o nome de um general do período ditatorial, o Elevado Costa e Silva (posteriormente a obra passou a denominar-se Elevado Presidente João Goulart, em uma dessas irônicas inversões da História), conhecido popularmente como “Minhocão”: trata-se de uma via expressa elevada que liga a Praça Roosevelt ao bairro da Barra Funda, em um percurso de 3,4km. Desde a sua inauguração, em 1971, o Minhocão, por causa dos danos paisagísticos, da poluição do ar e sonora causada aos edifícios próximos, da degradação urbana e social, com moradores de rua, prostituição e usuários de drogas, tornou-se um caso exemplar de estudos na área de urbanismo, por ser fruto típico do planejamento autoritário na gestão de um Prefeito não eleito, em época de regime de exceção, e igualmente fonte de polêmicas sem fim que se arrastam até os dias atuais. 
 
O Minhocão é apenas uma das faces grotescas de uma cidade e sua região metropolitana onde vivem incrivelmente mais de vinte e um milhões de pessoas, situação a que se chegou sem planejamento urbano algum, em uma realidade sócio-econômica totalmente contrastiva, a qual faz conviver encraves populacionais altamente abastados, globalizados e de consumo de alto luxo, ao lado de populações pobres ou miseráveis, com a violência e a marginalidade inevitáveis decorrentes desse atrito e contradições social.

A Vila Buarque de passado elegante, atualmente degradada, em que populações de classe média convivem com moradores de rua, travestis e drogados é, dessa forma, tomada como um microcosmo e sinal dos impasses de uma cidade e de um país.

Além do mais, o romance reflete o clima caótico do Brasil posterior às jornadas de junho de 2013 e antecipa a atmosfera sombria e regressiva do país atual.

Os nomes do condomínio onde mora o casal e da loja de luminárias de Oscar - “Trapézio Imperial” e “Lustres Imperial” - são alusões irônicas e nostálgicas de um tempo perdido em meio ao rebaixamento atual do horizonte de expectativas.

O romance respira a degradação: das edificações, da vida urbana, dos padrões de vida e de civilidade, das consciências, e que se consubstancia na violência ameaçadora e onipresente.

Do lado da praça, dava para notar o efeito do tempo nos prédios. À exceção do nosso edifício, cuja fachada era um retângulo alto de vidros antigos, nada se destacava na quadra. Era um conjunto de construções baixas, com fissuras e remendos, caixotes de ar-condicionado isolados e uma cortina ou outra de cor forte. No nível da rua, entradas de prédios residenciais se misturavam a fachadas comerciais. Eram soluções totalmente diversas que conduzia a uma homogeneidade opaca de arrebiques. (p. 82).

Nelson provavelmente não fazia ideia de que sua mãe andava descendo com uma sacola para pegar restos de comida depois da feira, junto com os mendigos, e que acabava ficando por ali. Queria companhia, decerto, e tinha pouco dinheiro mesmo. Não sei se chegou a passar fome, mas Vera não parecia ter vergonha de se juntar aos da rua. Até Marcela, que não era de se comover com a miséria, quando ficou sabendo do desespero de nossa vizinha, entre abandono e falta de grana, começou a pensar a respeito.
Imagina chegar à velhice assim, comendo sobras, disse ela. Se não fosse a gente, ela poderia acabar feito essa indigência doida do centro da cidade. Reparou na quantidade de pessoas que mora nas ruas? (p.41).

Ana seguiu adiante, cada vez mais diluída na distância e na escuridão, parando para conversar com outro vizinho. Vera aproveitou para contar ao filho que Ana tinha sido assaltada recentemente.
O dano que faz uma arma apontada na cabeça, ouvi dona Vera dizer baixinho. E o pior é que foi bem ali na praça, quase na frente do prédio, perto do posto policial. Parece que abusaram dela.
Nelson cuspiu na mão um caroço de azeitona. Abusaram como?
Não sei detalhes, não. Ela acha que o perigo está em todos os lados e que a violência nas ruas é uma maldição entre nós. (p. 69).

A bestialidade de Nelson, acometido de um vitiligo que avança pelos seus braços, a sua violência instintiva, a incontrolável tendência ao trambique, à atuação à margem da lei, a ameaça que representa aos laços sociais, à família, é, igualmente, símbolo tanto do terror que inspira, principalmente às camadas médias, que anseiam por uma vida cosmopolita e estável, mas que se defrontam continuamente, em uma realidade subdesenvolvida, com a realidade bruta, instável e contraditória de suas vidas, como da própria incerteza do projeto de nação. A impotência e passividade de Oscar diante da ameaça representada pelo forasteiro Nelson é muito significativa, aí incluída, como seu ápice trágico, a própria incapacidade de decifrar os gestos, os significados e as intenções de sua esposa.

Muito bem estruturado, o início do romance, pautado pela preocupação de Oscar com o sinteco, a demonstrar o achatamento de horizontes e a mediocridade em que está imersa a vida do protagonista, encerra-se em anticlímax: a coroação corrosiva da capitulação de Oscar e de tudo o que ele representa.

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Há notícias de que Lucrecia Zappi está trabalhando em sua terceira obra ficcional: eis uma notícia alvissareira para os admiradores das novas vozes artísticas e da vertente crítica e instigante da nossa literatura.


              Lucrecia Zappi, na Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo

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Edição utilizada:
Lucrecia Zappi. Acre. São Paulo: Todavia, 2107. 208 pp.. Brochura, 13,5x21cm. Capa: Daniel Trench. Fotos de capa: Bianca Vasconcellos; a foto da capa é de detalhe do prédio Santa Rita, na Vila Buarque, onde a escritora morou. Fonte: Register. Papel Munken print cream 80 g/m2.

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A própria autora traduziu a obra para o espanhol, em publicação para a Editorial La Huerta Grande (2017), assinando-se como Lucrecia Zappi Luhring.

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Acre foi finalista do Prêmio Jabuti, 2018.

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Imagens

Prédio na Vila Buarque, São Paulo
vivareal.com.br
 
Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo
br.kekanto.com 

Lucrecia Zappi, na Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo.
Foto: Filipe Redondo / ÉPOCA
https://epoca.globo.com/cultura/noticia/2017/08/novo-livro-de-lucrecia-zappi-reproduz-o-ruido-do-bairro-onde-ela-cresceu.html



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Lucrecia Zappi fala sobre o romance Acre.





José Antonio Resende de Almeida Prado (Santos, 8 de fevereiro de 1943 — São Paulo, 21 de novembro de 2010). Noturno n. 4. Piano: Alexandre Dias. Festival "Vamos Ouvir Música?", Teatro Nacional Claudio Santoro, Brasília, 2007.

https://www.youtube.com/watch?v=nF4uv8w24a4



domingo, 16 de junho de 2019

ENTREVISTA COM MARIA VALÉRIA REZENDE

A autora de Vasto mundo responde ao blog




                              José Costa Leite, "Cavalo-marinho", xilogravura


Em entrevista ao Búfalo Celeste, a escritora Maria Valéria Rezende fala sobre a origem do volume de contos Vasto mundo, diz que escreve para seus personagens, revela que o conto “Aurora dos Prazeres” baseia-se em fatos que vivenciou e comenta sobre a possibilidade de dedicar-se à literatura memorialística.

Em sua participação na série “Encontros com o escritor”, em 2018, promovida pela Editora Unesp, na cidade de São Paulo, a Sra. relatou a forte ambiência cultural que fez com que a sua vida, desde sempre, em Santos, fosse cercada por livros, poemas, saraus, recitais. Assim, escrever histórias ou versos foi-lhe algo natural e que se manteve ao longo de toda a sua vida. Por que, então, tardou tanto a vir a público essa coletânea de contos, Vasto mundo?
Escrever as histórias inspiradas nos fatos que eu via ou pressentia sempre foi uma prática para mim, um meio de tentar me por no lugar dos outros, compreender, adivinhar, e também, por que não?, me divertir em noites silenciosas do interior nordestino. Mas meu projeto de vida era mesmo a educação popular, a conscientização e a organização dos oprimidos, e não ser "escritora". Foi quase por acaso que se publicou meu primeiro livro. Sem dinheiro pra presentes comprados, eu escrevia uma dessas histórias, desenhava uma capa bonitinha e dava de presente aos amigos... assim, um amigo, Frei Betto, acabou por passar um texto meu a um editor, Pascoal Soto, que um dia me telefonou pedindo mais... daí foi ainda uma longa história até que se publicasse. Com a idade, eu já não podia mais continuar nas mesmas andanças, com a mochila às costas, então escrever tornou-se uma atividade que, penso, pode também contribuir para que se veja o que muitas vezes fica escondido e, da força do nosso povo, colher esperança.


Guimarães Rosa, do qual há uma citação em epígrafe em Vasto mundo, transfigurou radicalmente toda a tradição brasileira do regionalismo, unindo o local a uma temática universal em uma experiência de linguagem que representa um dos cumes das nossas Letras. Foi desafiador escrever à sombra do grande escritor de Cordisburgo, ao situar os seus contos no interior do Nordeste brasileiro?
Como sempre escrevi espontaneamente, simplesmente porque tinha uma história para contar a mim mesma, porque, mesmo para quem a vê e vive, uma história só se revela quando a gente a conta, e não tinha a pretensão de ser escritora reconhecida, nunca comparei o que escrevia com outro autor... muito menos com o grande Rosa, que li inúmeras vezes, desde minha adolescência, assim como centenas, talvez milhares de outros livros que absorvi ao longo da minha vida. Quando me perguntam para quem escrevo, a única resposta que posso dar é que escrevo para meus personagens. Sempre me pergunto se eles se reconhecerão ali. E parece que sim.

À semelhança de Flaubert, a Sra. pode dizer que “Aurora dos Prazeres, c’est moi”?
Aurora dos Prazeres, que é fabulação a partir de fatos realmente acontecidos, não sou eu, somos milhares de religiosas que, sobretudo a partir dos anos 60, deixamos a proteção dos muros dos conventos para nos "inserir" por longos anos entre os mais pobres e oprimidos, no interior, no campo ou nas periferias das grandes cidades, para compartilhar sua vida, para tentar ser entre eles "fermento na massa" como diz o Evangelho. Então, creio que se dissermos "Aurora dos Prazeres c'est nous", estaremos constatando um fato bem mais concreto e exato do que dizia Flaubert na sua tirada literária!

A Sra. é uma das grandes ficcionistas brasileiras em atividade, mas a sua própria vida certamente está cercada de inúmeras passagens que podem contar muito sobre a História recente do Brasil ou sobre as difíceis condições de vida de populações de diversos países. Os seus leitores podem aguardar a publicação de suas memórias?
Na verdade nem seria capaz de escrever minhas memórias, senão como já as escrevo, ficcionalmente... só sabemos da realidade o que nos entra pelos nossos fracos cinco sentidos... são fragmentos do real, como retalhos que nós vamos ligando uns aos outros com crochê para fazer uma colcha cujo desenho faça sentido. Acho que toda memória tem ficção e toda ficção tem memória. Acho bem mais divertido fazer livremente ficção juntado peças de memória e fazendo um novo desenho do que tentar "dizer a verdade" num texto de "memórias".


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Imagem:
Xilogravura do cordelista José Costa Leite (Sapé, Paraíba, Brasil, 1925).
Fonte:
http://www.paraibacriativa.com.br/artista/jose-costa-leite/


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Marlos Nobre, “Dengues da mulata desinteressada”, op. 20 (1966).
Duo Cappuccino: Mere Oliveira, mezzo-soprano; André Simão, violão.
St. Edigienkirche, Beerbach, Nuremberg, Alemanha, 9/5/2010.

Sobre poema de Ribeiro Couto:

Te dei um vidro de cheiro
Te dei um colar de conchas
De nenhum fizeste conta
Comprei artigo estrangeiro
outro vidro, outro colar
Não quiseste olhar,
Não quiseste olhar
Vendo que eras ambiciosa
te prometi um vestido
Te prometi um vestido
disseste “Eu rasgo atrevido!”
Mas falei baixinho: “Rosa”...
Fui buscar o meu violão,
E suspiraste, suspiraste: “Romão”
Te dei um vidro de cheiro
Te dei um colar de conchas
De nenhum fizeste conta
Comprei artigo estrangeiro
outro vidro, outro colar.


quarta-feira, 4 de abril de 2018


Liturgia do fim, de Marília Arnaud

O patriarcalismo e as raízes da violência

 

                        Iberê Camargo, "Auto-retrato", 1983


Começo pelo dia em que saí de casa. À medida que o ônibus se afastava do lugarejo, a massa verde-escura, recortada contra o céu de anil, ia se dissolvendo lentamente numa bruma de poeira e olhos marejados, minha vida a se despregar de mim, a se desmanchar no vazio. Num estupor de animal dessangrado, órfão de mim mesmo, eu estava lá e não estava, e embora a manhã espanejasse a plumagem de luz sobre todas as coisas, eram as asas da noite que se estendiam por cima de Perdição. (p. 11).

Vem de Campina Grande (terra do dramaturgo Paulo Pontes), a ficcionista Marília Arnaud, atualmente residente na Capital paraibana, que atinge com o seu segundo romance, após início de carreira no conto, maturidade artística admirável, fazendo de Liturgia do fim (1) uma obra marcante na literatura brasileira dessa segunda década, com muitos e variados méritos.

Respondendo à revista “A Semana”, a propósito do lançamento de seu primeiro romance, Suíte de silêncios (Rio de Janeiro: Rocco, 2012), Marília Arnaud é indagada sobre uma possível produção poética; a escritora responde que “nunca pensei em fazer poesia” (2). Nem é necessário: uma das qualidades marcantes de Liturgia do fim é justamente o fino artesanato de uma escrita que se esmera na musicalidade de assonâncias e aliterações, no ritmo da frase ou do período, cadenciados segundo as intenções dramáticas dos fatos narrados, muitas vezes em longas orações encadeadas, e na riqueza extraordinária do léxico e das imagens. Como nesse belo trecho, em que a sinestesia dos sons, das fragrâncias e das cores e figuras da Natureza entrelaçam-se, num crescendo sufocante, com a angústia da personagem:

Podia ouvir a cantiga do vento lapeando a ramaria, o clangor de um ferreiro rasgando a solidão da mata, a flauta da correnteza nos calhaus do riacho, o tinido de chocalhos misturado à toada de garotos na guiança de cabras. O mundo murmurava um segredo que irrompia do ventre da serra, que soprava nos milharais, estalejava nos galhos das árvores, recendia nos frutos, o meu segredo, um soluço da natureza a me queimar os ouvidos, uma melodia a ressoar alucinadamente dentro de mim, uma cascata de acordes que avançava para além das margens, alagando-me, submergindo-me, forçando-me as comportas do peito. (pp. 33-34).

A poesia da escrita de Liturgia do fim, um dos grandes prazeres da obra, não é, contudo, uma música a serviço de si mesma. Temos aqui um romance solidamente estruturado que mantém o leitor firmemente atado à sua trama.
Inácio retorna, após trinta anos, à Perdição de sua infância e juventude: localidade fictícia, cujo nome tem alta carga simbólica.

É próprio da narração em primeira pessoa impelir o leitor para a memória, as experiências, a visão de mundo do narrador. No caso de Liturgia do fim, a trama consiste no lento e angustiante processo pelo qual o Narrador, Inácio (e, por via de consequência, o leitor), toma consciência, em sua totalidade, lentamente e a custo, do percurso trágico de sua existência, juntando cacos, fragmentos e cenas.
Muito da estratégia narrativa ou da atitude do Narrador em relação ao público advém justamente do suspense sobre a história que se formará, ao fim, a partir das peças do quebra-cabeça que vão sendo colocadas aleatoriamente pelo Narrador.
O leitor sente-se como se colocado na posição de um analista que ouve a trama exposta por Inácio, muito embora o Narrador não se dirija a alguém em especial, mas a si mesmo. Aos poucos, a narrativa indica que há um ou mais acontecimentos traumáticos, recalcados no inconsciente do Narrador, aos quais o protagonista tenta dar forma ou organizar no plano do consciente, no anseio de alcançar perdão, remissão, libertação.

Raramente me ligava. Nunca àquela hora da manhã. Fui acordado com alguém me chamando à porta do quarto. Vesti-me rapidamente e fui atender ao telefone. Na véspera, sonhara que meus dentes despencavam e desapareciam pelo ralo de um lavatório, e a sensação angustiante de boca vazia e fatalidade anunciada perdurara o dia inteiro.
Mãe? Atropeladas pelo choro, as palavras de desespero não se ordenavam em sua boca, até que um sentido, a princípio inimaginável, foi ganhando forma e, áspero contundente, arremeteu-se contra mim e me fez desabar. Maldito pai! Veneno de aguilhões por todo o corpo, talho fundo na alma, morri naquele instante, naquela manhã, e segui morrendo, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo, até hoje, até agora, quando morro ainda, o ar rarefeito, o peito esbagaçado por patas disparadas de pampas e alazões. (p. 20).

Numa dupla jornada de retorno a Perdição - retorno numa viagem para visitar o pai muito doente e retorno em memória, investigando o seu passado e os traumas e as tragédias ali soterrados, a narrativa de Liturgia do fim é, pois, num primeiro plano, a tentativa de Inácio de, impulsionado pela culpa, rever a sua existência e a ela dar sentido e significado, buscando as raízes de uma vida que, massacrada pelo pai, Joaquim Boaventura, ficou para sempre acorrentada em elos de culpa a Perdição, muito embora dela distante, e redundou em fracasso, desnorteamento, embrutecimento e solidão.

Na casa de sua infância, estão agora, nesse retorno de Inácio, apenas o pai moribundo e Damiana, agregada que desde menina foi acolhida e é testemunha silenciosa de toda a desventura da família. A mãe, Adalgisa, a irmã, Ifigênia – esta, peça central na tragédia que empurrou Inácio para o exílio de si mesmo -, a outra irmã, Teresa, tia Florinda e seu filho, Felinto, estão todos mortos.

Acovardado, perambulei pela vida, arrastando correntes, réu errante a bater no peito, por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. (p. 21).


                                                             Iberê Camargo, "Fantasmagoria III", 1987


Em um plano superior, acima das circunstâncias específicas das vidas dos integrantes da família Boaventura, monta-se, no decorrer dos dez capítulos do romance, o quadro do patriarcalismo brasileiro e como daí deflui e reconstitui-se, geração a geração, o seu correlato, a saber, a violência como essência da formação familiar dos indivíduos, lastreada na relação hierárquica entre homem e mulher e entre pai e filhos.

Desvelador no romance é, igualmente, a investigação de como as estruturas sociais e familiares apropriam-se, de maneira patológica, dos valores religiosos como meios auxiliares de opressão para a manutenção do patriarcalismo. Ocorre que a narrativa mostra justamente o avesso dessas práticas que, em verdade, acabam por encobrir as perversões dos indivíduos:

Em nome desse Deus e amparado em lendas bíblicas, alegorias crísticas, salmos, versículos, novenas, terços, penitências, criaste teus filhos com severidade e frieza, mas comigo, pai, especialmente comigo, por razões que me eram obscuras, ias além, confessa, confessa que me querias comendo no cocho, gastando o couro ao sol e à chuva do pasto, carregando no lombo teus picuás, balançando o rabo à tua passagem, lambendo a merda nos teus coturnos, e que quando me encaravas com teu olhar de domador querias aniquilar o infame e o absurdo que existia de ti em mim. (p. 67).

Encobriste tua paixão com a máscara do patriarca, do guardião dos bons costumes, do homem reto e religioso, cidadão respeitado e cumpridor dos seus deveres, mas não para mim, pai, sangue do teu sangue, carne da tua carne, de quem arrancaste a inocência com o peso da tua falta. Assinalavas em mim o pecado, e o pecado, em toda a sua bestialidade, flamejava em tuas mãos de sátrapa, em tua face farisaica, em teu olhar de canga. (p. 66).

Muito embora a opressão do patriarcalismo dirija-se de forma contundente à mulher, são as figuras femininas as personagens fortes do romance.

Ifigênia, irmã de Inácio:

Ifigênia. Nem seu Joaquim Boaventura conseguia por-lhe peia, a única que o arrostava, sem palavras, a cabeça erguida, o olhar aprumado. Peça perdão ao seu pai, menina de gênio ruim, implorava mamãe, e ela não lhe dava ouvidos, não arredava de si, empertigada, os lábios grossos bem abotoados, senhora de um mundo indevassável. (…)
De minha parte, não acreditava que ela se comportasse assim por orgulho ou capricho, como mamãe imaginava, antes supunha que desejava nos mostrar, a nós, trancafiados em nosso servilismo e temor, que era possível viver sem jugo, e daquela firmeza triste que se alçava dentro dela rebentava um canto de liberdade. (p. 41).

Ieda, esposa de Inácio, da qual ele se separa, deixando também a filha, para voltar a Perdição:

A confiança em si mesma e no mundo repousava na própria natureza de Ieda, e me parecia um milagre que, diante de tanta vida, aquele sentimento não houvesse enfraquecido nem se degradado. (p. 32).

Da mesma forma, Adalgisa, mãe de Inácio, e Damiana, lutam para dar humanidade ao ambiente áspero de Perdição, como fruto do controle férreo exercido pelo pai, Joaquim Boaventura. A própria loucura de tia Florinda é apresentada como uma recusa à “normalização” de submeter-se e aceitar a opressão do patriarcalismo, cujo poder é tão implacável que as personagens que ousam desafiá-lo, as femininas notadamente, ou enlouquecem ou dão cabo da própria vida ou têm as suas vidas transformadas em ruínas, como é o caso de Inácio.

Por causa de um forte conflito com o pai, Inácio deixa Perdição, mas a sua vida estará para sempre marcada por uma tragédia ali passada. Inácio joga toda a sua energia nos livros e na ambição de tornar-se um artista; casa-se, dedica-se a lecionar, em seguida ingressa na vida acadêmica, consegue algum reconhecimento como escritor, por fim, mas leva a sua existência como um exilado de si mesmo, incapaz de estabelecer vínculos reais seja com a esposa, a quem trai compulsivamente, com o trabalho e até mesmo com a sua pretensão artística, cujo produto mostra-se, ao final, artificioso e estéril. Inácio projeta-se em sua sexualidade puramente instintiva, esquecendo as mulheres com as quais se relaciona tão logo lhes dá as costas.

O ódio que Inácio devota ao pai volta-se contra ele mesmo, pois ele se vê como vítima e, por outro lado, lamenta a covardia de não ter se insurgido contra a opressão patriarcal e, principalmente, de ter fechado os olhos para os vínculos verdadeiros que nos unem às pessoas.

*

Ressalte-se, por fim, que, embora passado em meio rural, o romance foge ao regionalismo. Não há nenhum acento típico nas falas das personagens e laivo algum de exotismo. Muito pelo contrário. Liturgia do fim estabelece-se sobre outro registro: o da tragédia transposto para a estrutura do gênero romance. Temos aqui a transposição da inevitabilidade do Destino, típico da tragédia antiga aqui na forma do patriarcalismo, ao qual as personagens estão submetidas -, para o herói problemático do romance, que, na formulação de Georg Lukács, é a epopeia do mundo abandonado por deus (3).
Essa fatura elevada é dada no romance por constantes intertextualidades que remetem às escrituras bíblicas ou à tragédia ou épica antigas, inclusive no nome da marcante personagem Ifigênia.

Bastaria que eu começasse, te lembras, Damiana, do dia em que papai me expulsou de casa?, e ela logo emendaria sua memória na minha, porque também estava lá quando o impedi que matasse a própria filha, depois de tê-la arremessado contra a parede, chutando-a violentamente, enquanto rugia vadia, vadia, quem foi o canalha?, com mamãe esgoelando, pelo amor de Deus, para, Joaquim, para!, e nós todos ali, incrédulos e aterrorizados diante da fúria grandiosa daquele que parecia ter saltado das páginas do Velho Testamento para nos castigar, a nós, os ímprobos, os impuros, pois não eras tu, pai, o Deus do nosso ordinário mundo? E porventura não sabias que a língua é capaz de destrancar as páginas do inferno? (p. 48).

Uma palavra eu não tinha para a tecelã que urdia na profundeza da carne, com as ramas do próprio sangue, uma trama invisível de urgência e silêncio, fio a fio de uma última e secreta espera. Odisseu ordinário, à deriva num mar estrangeiro, fustigado pelas asas de uma tempestade, náufrago desde sempre, visceralmente derrotado, eu não voltaria à minha Ítaca de perdição, nem em nove meses, nem em vinte anos. (p. 100).

Belo e profundo romance da talentosa escritora paraibana. Que venham outros.




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(1) Edição utilizada:
ARNAUD, Marília. Liturgia do fim. São Paulo: Tordesilhas, 2016, 149 pp., 21x13cm. Texto de orelha: Maria Valéria Rezende. Capa: Andrea Vilela de Almeida. Projeto gráfico: Kiko Farkas e Thiago Lacaz. Impressão com tipografia Electra, em papel Lux Cream 70g.
ISBN 978-85-8419-043-0

(2) Em: https://www.trt13.jus.br/informe-se/noticias/2012/08/a-escritora-marilia-arnaud-lanca-mais-um-livro-desta-vez-o-romance-2018suite-de-silencios2019
Consultado em 4/4/2018

(3) LUKÁCS, Georg. A teoria do romance. Trad. José Marcos Mariani de Macedo, São Paulo: Duas Cidades, Editora 34, 2000, p. 89.

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Crédito das imagens:


Iberê Camargo, "Auto-retrato", 1983. In: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra4022/auto-retrato>. Acesso em: 04 de Abr. 2018. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7




Iberê Camargo, "Fantasmagoria III", 1987. In: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra2281/fantasmagoria-iii>. Acesso em: 04 de Abr. 2018. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7






Eli-Eri Moura (Campina Grande, Paraíba, Brasil, 1963), "Circumfractus para Quarteto de cordas".

quarta-feira, 14 de março de 2018



Úrsula, de Maria Firmina dos Reis

Mulher, negra e pioneira na literatura brasileira




                                                              "Tropical", Anita Malfatti


São vastos e belos os nossos campos; porque inundados pelas torrentes do inverno semelham o oceano em bonançosa calma — branco lençol de espuma, que não ergue marulhadas ondas, nem brame irado, ameaçando insano quebrar os limites, que lhe marcou a onipotente mão do rei da criação. Enrugada ligeiramente a superfície pelo manso correr da viração, frisadas as águas, aqui e ali, pelo volver rápido e fugitivo dos peixinhos, que mudamente se afagam, e que depois desaparecem para de novo voltarem — os campos são qual vasto deserto, majestoso e grande como o espaço, sublime como o infinito.


Em novembro de 2017, ocorreu a efeméride de cem anos da morte da escritora maranhense Maria Firmina dos Reis (São Luís, Maranhão, Brasil, 11/10/1825 – Guimarães, Maranhão, Brasil, 11/11/1917).

Filha de mãe negra e pai branco, exerceu o magistério na Instrução Primária de 1847 a 1881.

Em 1859, publicou o romance Úrsula (Tipografia do Progresso, São Luís), que é considerado, em nossas Letras, o primeiro romance escrito por uma mulher e também o primeiro romance abolicionista. Por causa dos preconceitos da época, o nome da autora não apareceu na publicação e a autoria foi dada sumariamente como “Por uma maranhense”.

A redescoberta dessa obra deve-se ao obstinado pesquisador paraibano Homero de Almeida (1896 – 1983), que adquiriu por acaso, no final da década de sessenta, um exemplar da edição de 1859 do romance Úrsula – em verdade, o único conhecido. Foi somente em meados dos anos setenta que, empenhado em fixar qual seria o primeiro livro escrito e publicado por uma mulher na literatura brasileira, Homero de Almeida retomou a investigação sobre a obra e, por meio de consultas a outros estudiosos, chegou ao nome da autora. Assim, Homero de Almeida constatou, para sua surpresa, que essa mulher pioneira era igualmente negra. O pesquisador gentilmente doou esse único exemplar conhecido ao Governo do Maranhão e, com base nele, publicou-se, em 1975, uma nova edição – fac-similada - do romance.

Coube a Nascimento Morais Filho (1922 – 2009) dar prosseguimento às pesquisas sobre a vida e a obra de Maria Firmina dos Reis, do que resultou a catalogação das outras obras publicadas pela autora, seja em livros, seja pela sua atuação na imprensa. Morais Filho publicou, ademais, a primeira biografia da artista: Maria Firmina, fragmentos de uma vida (Imprensa do Governo do Maranhão, 1975).

Maria Firmina era prima do escritor e gramático Francisco Sotero dos Reis (1800 – 1871).

A escritora fundou em Guimarães a primeira escola mista do Brasil; tal ousadia teve como consequência pressões e protestos, do que era considerado como uma ousadia, e, por causa disso, o estabelecimento teve que ser fechado após dois anos.

Maria Firmina publicou também: o romance Gupeva, de temática indígena(1861/1862); o livro de poemas Cantos à beira-mar (Tipografia do País, 1871) e o conto “A escrava” (A Revista Maranhense no. 3, 1887), afora publicações esparsas na imprensa. Compôs ainda letra e música do “Hino da libertação dos escravos” (1888).

Em setembro último, a Editora da PUC Minas publicou uma nova edição do romance Úrsula e está disponível na rede mundial uma edição digital dessa mesma obra pela “Coleção Acervo Brasileiro”, dos Cadernos do Mundo Inteiro (www.cadernosdomundointeiro.com.br).

Desde a redescoberta de Maria Firmina dos Reis, por obra e méritos dos pesquisadores Homero de Almeida e Nascimento Morais Filho, a vida e a obra da escritora têm, crescentemente, sido de objeto de estudos na Universidade; pode-se dizer, assim, que a autora já tem alguma fortuna crítica, por meio de dissertações, prefácios, artigos em revistas especializadas, ensaios e comunicações em Congressos.

O crescente interesse da Academia, contudo, não se reproduziu ainda para o cidadão e a cidadã não integrados à Universidade, mas interessados em literatura, cultura e história brasileiras, feminismo e história do negro no Brasil.

É necessário, pois, investigar e sanar, urgentemente, o apagamento da obra de Maria Firmina da história da literatura e da cultura brasileiras. Sob esse prisma, é de se perguntar: como isso foi possível? Ressalte-se que, se o acaso não tivesse brilhado a Homero de Almeida, levando às suas mãos o único exemplar conhecido do romance de 1859, teria caído no esquecimento a memória dessa brasileira e maranhense ilustre e mulher negra, artista e educadora corajosa e com talento e sensibilidade notáveis.

Temos, assim, uma dívida histórica com Maria Firmina dos Reis, que deve ser encarada como um símbolo, simultaneamente da mulher e do povo negro, da luta pelo reconhecimento a uma vida plena de direitos e de realização nas mais diversas instâncias da vida.


                      "Saudade", Chiquinha Gonzaga; piano: Clara Sverner


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Imagem:
"Tropical", Anita Malfatti (São Paulo, Brasil, 2/12/1889 - São Paulo, Brasil, 6/11/1964), 1917, óleo sobre tela, 77cm x 102 cm, Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil.
http://noticias.universia.com.br/tempo-livre/noticia/2012/10/24/976830/conheca-tropical-anita-malfatti.html