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segunda-feira, 7 de novembro de 2016




Há cento e quinze anos nascia Cecília Meireles:

Um caminho singular no Modernismo brasileiro





"A onda", Anita Malfatti (1917)


Há cento e quinze anos, em sete de novembro de 1901, nascia Cecilia Benevides de Carvalho Meireles, na cidade do Rio de Janeiro, uma das poetas mais queridas do Brasil.

Com uma carreira artística e uma atividade intelectual prodigiosas para uma mulher da primeira metade do século passado, Cecília Meireles foi educadora vocacionada e militante da causa da Educação pública, professora universitária, estudiosa do folclore, jornalista, viajante atenta e apaixonada e, acima de tudo, poeta que teve a coragem silenciosa de seguir o seu próprio caminho, em oposição ao impulso moderno pelos manifestos e programas, que guiou a trajetória de tantos escritores ao longo do século.

Possivelmente por causa desse “caminho singular”, falta uma compreensão mais abrangente dessa trajetória e uma interpretação das opções formais e temáticas da escritora que, fiel ao intimismo, à musicalidade do verso – que dominou como poucos em nossa poesia - e à observação e investigação delicada e minuciosa dos seres, produziu uma obra de inúmeros pontos altos e admirável na sua coerência e na sua organicidade.

Cecília Meireles faleceu na mesma cidade do Rio de Janeiro, no dia nove de novembro de 1964.

A ela voltaremos, por dever de ofício.


PEQUENA FLOR


Como pequena flor que recebeu uma chuva enorme
e se esforça por sustentar o oscilante cristal das gotas
na seda frágil, e preservar o perfume que aí dorme,

e vê passarem as leves borboletas livremente,
e ouve cantarem os pássaros acordados sem angústia,
e o sol claro do dia as claras estátuas beijando sente,

e espera que se desprenda o excessivo, úmido orvalho
pousado, trêmulo, e sabe que talvez o vento
a libertasse, porém a desprenderia do galho,

e nesse temor e esperança aguarda o mistério transida
assim, repleto de acasos e todo coberto de lágrimas
há um coração nas lânguidas tardes que envolvem a vida.



Da obra: "Vaga música" (1942), in: Cecília Meireles - Obra poética. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1987, p. 171.



http://famosos.culturamix.com/blog/wp-content/gallery/cecilia-meireles/cecilia-meireles-12.jpg 


domingo, 23 de outubro de 2016


Sosígenes Costa: o grande poeta pavônico da Bahia


 


O última dia quatorze marcou os cento e quinze anos de nascimento do ilustre poeta de Belmonte, Bahia, que faleceu no Rio de Janeiro há quarenta e sete anos, em cinco de novembro de 1968.



Podemos associar a obra de Sosígenes Costa à beleza e aos passos do pavão, ave-símbolo de sua poesia: enquanto o pavão é um motivo recorrente nos seus escritos poéticos, o reconhecimento da obra do poeta caminha lentamente, muito embora uma quantidade crescente de estudiosos e admiradores, entre os quais o autor deste blog, reivindiquem para o artista baiano o lugar que lhe cabe no panteão do Modernismo brasileiro.



É provável que o reconhecimento, ainda limitado, do poeta seja vítima de sua personalidade retraída: a sua Obra poética só veio a lume em 1959, pela editora Leitura, e, ainda assim, por insistência de amigos, quando o autor já estava aposentado, residindo no Rio de Janeiro. O livro foi agraciado, em 1960, com o prêmio Jabuti, na primeira edição dessa láurea.



Sosígenes Costa, nascido na litorânea Belmonte, passou a maior parte de sua vida em Ilhéus, região da “civilização do cacau”; nessa cidade, em que produz a maior parte de sua obra, tinha os ofícios de telegrafista do Departamento de Correios e Telégrafos e secretário da Associação Comercial.



O verso da folha de rosto da primeira publicação do poeta fazia menção à edição próxima da Obra poética II; o poeta faleceu, contudo e tal não aconteceu. 

Dez anos após a morte do poeta, uma reedição dá maior repercussão à sua obra 




Passados dez anos da morte do poeta e motivado pelos comentários de James Amado (*), José Paulo Paes (**) entra em contato com o irmão de Sosígenes, Octavio Marinho da Costa, e tem acesso a uma mala com manuscritos e datiloscritos do escritor. Num diligente trabalho de filologia, buscando, a partir do material que lhe foi confiado, reconstituir o que seria a vontade do autor, Paes faz publicar, no mesmo ano, em edição da Cultrix e Instituto Nacional do Livro, uma nova edição revista e ampliada da Obra poética (317 pp.), contendo os poemas constantes da publicação de 1959, ora acrescida do que seria a Obra poética II.



No ano seguinte, em 1979, seria publicado, igualmente pela Cultrix e com texto fixado por Paes – responsável também pela Introdução e glossário, Iararana (115 pp.), longo poema dedicado ao cacau, com apresentação de Jorge Amado e ilustrações e capa de Aldemir Martins.


Antes, em 1977, Paes publicara Pavão, parlenda, paraíso - uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa (Cultrix; 119 pp.).



Temos, portanto, um dívida inestimável para com José Paulo Paes, que empregou energia e esforços para reposicionar a obra de Sosígenes Costa no panorama da poesia brasileira, uma tarefa que ainda está em andamento e, assim, cabe às novas gerações dar continuidade à recepção desse legado, fazendo jus a uma das poesias mais inventivas de nossas letras.



Trataremos aqui de literatura de diversas épocas e estilos, mas voltaremos, de forma intermitente, ao poeta grapiúna, celebrando a sua obra.



Poeta do mar, poeta do cacau, poeta social marcado por seu tempo, tão requintado e ao mesmo tempo tão popular, pois grande parte de sua obra se baseia na vida do povo e dela se alimenta – folclore, hábitos, expressões, humanismo – ele ficará nas nossas letras como uma dessas grandes árvores isoladas que se destacam na floresta”.



Jorge Amado

(“O grapiúna Sosíges Costa”, “Apresentação”, in: Iararana, op. cit.).




 
Sosígenes Costa
__________

* Ilhéus, Bahia – 1922 – Salvador, Bahia – 2013; romancista, tradutor e jornalista; irmão de Jorge Amado.


** Taquaritinga, São Paulo, 1926 – São Paulo, São Paulo, 1998; poeta, tradutor, crítico e ensaísta literário.