terça-feira, 5 de maio de 2020


Cinco de maio, dia da língua portuguesa




As plantas rindo estão, estão vestidas
de verde variado de mil cores;
cantam tarde e manhã os seus amores
as aves, que de amor andam vencidas;

as neves, já nos montes derretidas,
regam nos baixos vales novas flores;
alegram as cantigas dos pastores
as ninfas pelos bosques escondidas.

O tempo, que nas cousas pode tanto,
a graça que por ele a terra perdemos
lhe torna com mais graça e fermosura.

Só para mim nem flor nem erva verde
nem água clara tem, nem doce canto,
que tudo falta a quem falta ventura.

Diogo Bernardes (Ponte da Barca, Portugal, ca. 1520 – ca. 1605)



***



Querelas do Brasil
Aldir Blanc e Maurício Tapajós


O Brazil não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazil
Tapir, jabuti
Liana, alamanda, ali, alaúde
Piau, ururau, aki, ataúde
Piá-carioca, porecramecrã
Jobim akarore, Jobim-açu
Uô, uô, uô

Pererê, camará, tororó, olerê
Piriri, ratatá, karatê, olará
Pererê, camará, tororó, olerê
Piriri, ratatá, karatê, olará

O Brazil não merece o Brasil
O Brazil tá matando o Brasil

Jereba, saci
Caandrades, cunhãs, ariranha, aranha
Sertões, Guimarães, bachianas, águas
Imarionaíma, ariraribóia
Na aura das mãos de Jobim-açu
Uô, uô, uô

Jererê, sarará, cururu, olerê
Blá-blá-blá, bafafá, sururu, olará
Jererê, sarará, cururu, olerê
Blá-blá-blá, bafafá, sururu, olará

Do Brasil, SOS ao Brasil
Do Brasil, SOS ao Brasil
Do Brasil, SOS ao Brasil

Tinhorão, urutu, sucuri
Ujobim, sabiá, bem-te-vi

Cabuçu, Cordovil, Cachambi, olerê
Madureira, Olaria e Bangu, olará
Cascadura, Água Santa, Acari, olerê
Ipanema e Nova Iguaçu, olará

Do Brasil, SOS ao Brasil
Do Brasil, SOS ao Brasil


"Querelas do Brasil", de Aldir Blanc e Maurício Tapajós. Elis Regina no especial "Elis Regina Carvalho Costa", da TV Globo, em outubro de 1980.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Herman Hesse na cesta básica

Alimento para corpo e alma em Montevidéu



                                                     Joaquín Torres García, “América invertida”


A jornalista Paula Sperb informa-nos, em matéria do jornal “Folha de S. Paulo”, na edição do dia 10 de abril de 2020 (caderno “Mundo”, p. A11), que a Prefeitura de Montevidéu distribuiu cinco mil obras literárias a pessoas em situação social vulnerável, no âmbito de ações de assistência social para atenuar os efeitos da crise sanitária com a Covid-19.

Mais adiante, detalha a matéria:

Entre os autores das obras distribuídas, há clássicos como Hermann Hesse, Aldous Huxley, Alberto Camus, Júlio Verne e George Orwell. A literatura uruguaia foi contemplada com escritores canônicos, como Horácio Quiroga e Juan José Morosoli, e contemporâneos como Fabian Severo. Livros infantis e juvenis também foram entregues.
“A ideia é que a cesta básica, mais do que algo para superar a emergência, seja um carinho para o coração das pessoas”, disse à Folha Juan Canessa, secretário-geral da prefeitura e idealizador da iniciativa.

Não é de hoje que o Uruguai, desse povo admirável, tem nos dado lições de coragem e arrojo.

Ficam aqui os cumprimentos à criativa gestão da capital uruguaia.

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“Um livro pode ser nosso sem nos pertencer. Só um livro lido nos pertence realmente.”

Eno Teodoro Wanke (Ponta Grossa, 23 de junho de 1929 - Rio de Janeiro, 28 de maio de 2001).
Paralelamente à sua carreira de engenheiro civil, Wanke foi sonetista, haicaista, tradutor, antologista, biógrafo, ensaísta, historiador, folclorista, estudioso da língua, cronista, biógrafo, dicionarista, contista, fabulista e memorialista. Suas publicações ultrapassam os mil títulos.

Fontes: 
RÓNAI, Paulo. Dicionário universal Nova Fronteira de citações. 3a. ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 574. 
https://enoteodorowanke.blogspot.com/
https://nuhtaradahab.wordpress.com/2008/06/07/eno-teodoro-wanke-1929-2001
(Sítios consultados em 10/4/2020).

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Imagem:

Joaquín Torres García (Montevidéu, Uruguai, 28/7/1874 – Montevidéu, Uruguai, 8/8/1949), “América invertida” (1943).
Fonte:
http://www.revistadiagonal.com/articles/una-mirada-critica-a-las-imagenes-cartograficas-la-construccion-del-mapa-y-del-estado/
(Consultado em 10/4/2020)
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Abel Carlevaro (Montevidéu, Uruguai, 16/12/1916 – Berlim, Alemanha, 17/7/2001) interpreta “Estilo pampeano”, de Abel Fleury (Buenos Aires, Argentina, 5/4/1903 – Buenos Aires, Argentina, 19/8/1958).

Abel Carlevaro foi um notável instrumentista do violão erudito, além de compositor, professor e teórico do violão. Estudou com Andrés Segóvia e veio ao Brasil a convite de Heitor Villa-Lobos, do qual apresentou, pela primeira vez, no Rio de Janeiro, os “Prelúdios n. 3 e 4”. Carlevaro foi uma das figuras mais influentes do violão erudito na segunda metade do século XX. Faleceu circunstancialmente em Berlim, por ocasião de uma de suas frequentes viagens para as Américas, Europa e Ásia, como grande personalidade do violão, seja para concertos, palestras, masterclass, seminários ou como membro de concursos.



sábado, 11 de janeiro de 2020


A chave da casa, de Tatiana Salem Levy
Identidade em fragmento e mosaico



                                                                    Bedri Rahmi Eyüboglu, "Efkarli" 



Escrevo com as mãos atadas. Na concretude imóvel do meu quarto, de onde não saio há longo tempo. Escrevo sem poder escrever e: por isso escrevo. De resto, não saberia o que fazer com este corpo que, desde a sua chegada ao mundo, não consegue sair do lugar. Porque eu já nasci velha, numa cadeira de rodas, com as pernas enguiçadas, os braços ressequidos. Nasci com cheiro de terra úmida, o bafo de tempos antigos sobre o meu dorso. Por mais estranho que isso possa parecer, a verdade é que nasci com os pés na cova. Não falo de aparência física, mas de um peso que carrego nas costas, um peso que me endurece os ombros e me torce o pescoço, que me deixa dias a fio – às vezes um, dois meses – com a cabeça no mesmo lugar. Um peso que não é de todo meu, pois já nasci com ele. Como se toda vez em que digo “eu” estivesse dizendo “nós”. Nunca falo sozinha, falo sempre na companhia desse sopro que me segue desde o primeiro dia. (p. 9).


Para Aristóteles, “a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular. Por ‘referir-se ao universal’ entendo eu atribuir a um indivíduo determinada natureza, pensamentos e ações que, por liame de necessidade e verossimilhança, convém a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que dê nomes às suas personagens; particular, pelo contrário, é o que fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu”. (1)

É, pois, por intermédio da poesia, no caso a épica, que a narradora de A chave da casa (2007), da escritora brasileira Tatiana Salem Levy (Lisboa, Portugal, 24/1/1979), serve-se para investigar as suas origens e a relação de seus ancestrais com a História; narradora, ressalte-se, que traz ressonâncias da própria trajetória pessoal da escritora, no contexto da tendência, na literatura brasileira contemporânea, da autoficção, como vimos em postagem anterior a propósito do romance A imensidão íntima dos carneiros, de Marcelo Maluf. Mas a matéria primária da vida, é preciso dizer, é apenas um motivador para a obra ficcional altamente elaborada de Tatiana Salem Levy que põe em questão identidade, história e o próprio suporte da estrutura narrativa e a sua correlação com a realidade.

De fato, a protagonista, da qual não é citado o nome e que narra a história em primeira pessoa, é, assim como a própria escritora, judia sefardita descendente de turcos e nasceu em Lisboa, em janeiro de 1979, durante o exílio de seus pais, que para lá se dirigiram por participação em organização clandestina atuante contra a ditadura militar.

Os sefarditas são o segmento judaico da diáspora que se estabeleceu na Península Ibérica; com as perseguições advindas da Inquisição, esse ramo emigrou para o Novo Mundo, principalmente ao Brasil, para o norte da África e também para o Império Otomano, como é o caso dos ancestrais da narradora e da escritora e que, no romance, estão representados pelo avô da protagonista.

O início da narrativa, como vimos, é sombrio: a protagonista afirma estar imobilizada, desde há muito tempo, em seu quarto:

Um sopro que me paralisa. Uma espécie de fardo. Pesado. Mais do que isso: bruto, acimentado, capaz de me tirar todas as possibilidades de movimento, amarrando as articulações uma à outra, colando todos os espaços vazios do meu corpo. Não que eu seja uma pessoa triste. Não se trata de ser ou não ser feliz, mas de uma herança que trago comigo e da qual quero me livrar. (p. 9)

E a escrita, “dar nome às coisas” (p. 10), é o instrumento para se libertar do fardo.

E por isso, só por isso, escrevo. (p. 10).

O desencadeamento da ação é dado quando o avô da narradora entrega-lhe a chave da casa em que ele morava na Turquia, sem dizer o que ela deve fazer com a chave, remetendo às mensagens enigmáticas dos antigos oráculos:

E o que vou fazer com ela? Você é quem sabe, ele respondeu, como se não tivesse nada a ver com isso. As pessoas vão ficando velhas e, com medo da morte, passam aos outros aquilo que deveriam ter feito mas, por motivos diversos, não fizeram.
E agora cabe a mim inventar que destino dar a essa chave, se não quiser passá-la adiante. (p. 13; grifo nosso).

A narradora resolve, assim, refazer a circularidade da trajetória das gerações a que está presa e de cujo fardo quer se livrar, a saber: os sefaraditas fugiram, na Idade Média, de Portugal para o Império Otomano; o avô da narradora, saiu da Turquia em direção ao Brasil; os pais da narradora exilaram-se em Portugal, onde ela veio a nascer, meses antes da anistia política, em 1979, quando então os seus pais retornam ao Brasil.


                                                                 Bedri Rahmi Eyüboglu, sem título


Como se sabe, a identidade étnico-religiosa dos judeus é um componente muito forte desse povo, com poucos paralelos na história: mesmo desterritorializados por muitos séculos, até a criação do Estado de Israel em 1948, esse povo permaneceu unido na diáspora, mantendo crenças e costumes. Essa resistência à assimilação, contudo, custou perseguições e tragédias aos judeus ao longo da sua história. É justamente o peso dessa história sobre cada um dos herdeiros dessa corrente que é o centro da indagação do romance.


A chave da casa está estruturado em um jogo de armar. Os capítulos são, via de regra, curtos e sucedem-se fragmentos dos seguintes planos narrativos: o desencanto amoroso do avô na Turquia e a posterior emigração para o Brasil; a viagem da narradora à Turquia e, depois, a Portugal, a dolorosa convivência da narradora com o câncer da mãe, a vida dos pais na clandestinidade política - aí incluída uma trágica passagem da mãe pela tortura - e o posterior exílio em Portugal e a turbulenta relação amorosa da narradora.

A viagem, um topos fundamental da literatura ocidental – pense-se, no tocante às fundações da literatura, em Ulisses, em Eneias, em Dante -, expressa no romance seja pela viagem interior da narradora ao seu passado e às suas origens, seja a viagem propriamente dita à terra dos antepassados, é o fio condutor da narrativa.

O simbolismo da viagem, particularmente rico, resume-se no entanto na busca da verdade, da paz, da imortalidade, da procura e da descoberta de um centro espiritual. (2)

A isso, adicione-se a imagem simbólica da chave:

Nos contos, como nas lendas, muitas vezes se mencionam três chaves: elas introduzem sucessivamente em três recintos secretos que são outras tantas antecâmaras do mistério. (…) A chave é, aqui, o símbolo do mistério a penetrar, do enigma a resolver, da ação dificultosa a empreender, em suma, das etapas que conduzem à iluminação e à descoberta. (3)

A chave da casa deixa claro, contudo, que mais do que contar a história como um meio para se livrar “das dores de toda uma família” (p. 106), vale dizer, a sucessão de tragédias da história, trata-se de recontar ou, ainda além, de criar uma história, uma vez que a própria forma-narrativa convencional é colocada em questão.

Conto (crio) essa história dos meus antepassados (…) (p. 133).


                                                                            Bedri Rahmi Eyüboglu, sem título, 48x33cm.


A propósito: estamos no campo da modernidade tardia, ou seja, do questionamento das grandes narrativas totalizantes.

Em oposição ao entendimento do passado “como ele de fato foi”, para recorrermos a Walter Benjamim (4), A chave da casa dá centralidade à criação, ao lúdico, ao jogo, em detrimento do factual:

Parece que quanto mais me aproximo dos fatos mais me afasto da verdade. (p. 99)

Pois, é a mensagem implícita do romance, a forma de deter o carrossel das gerações e a transmissão irresolvida do trauma é fazer com que cada geração aproprie-se criativamente do passado, pois contar a história é recontá-la (p. 132).

Esse primado da criação remete à ousada e clarividente formulação estética do poeta, filósofo e historiador alemão Friedrich Schiller, no final do século XVIII nas Cartas sobre a educação estética do homem. Diante da realidade alienante do mundo da revolução industrial que então se descortinava:

A utilidade é o grande ídolo da época, ela exige que todas as forças lhe sejam submetidas e que todos os talentos lhe prestem homenagem. (5)

Estabelece o pensador uma conexão entre o exercício lúdico da imaginação, o gozo da liberdade e, no plano agregado da vida social, um Estado com garantia de igualdade entre os cidadãos, por meio da experiência do belo:

No Estado estético, todo mundo, mesmo um servente, que é apenas um instrumento, é um cidadão livre cujos direitos são iguais aos de maior nobreza. (6)

Herbert Marcuse retoma essas reflexões de Schiller, que ele qualifica como “uma das mais avançadas posições do pensamento” (7):

Assim que realmente ganhar ascendência como um princípio da civilização, o impulso lúdico transformará literalmente a realidade. A natureza, o mundo objetivo, seriam então experimentados primordialmente, não como domínio sobre o homem (tal como na sociedade primitiva) nem como dominados pelo homem (tal como na civilização estabelecida) mas, pelo contrário, como objetos de contemplação.

Assim, sugerir que a peregrinação à terra dos ancestrais seja tão somente produto da viagem interior, ou seja, da imaginação, transcende o mero jogo artístico, para alçar-se ao elogio da liberdade como busca da redenção diante da História, nesse belo primeiro romance de Tatiana Salem Levy, justificadamente agraciado com o Prêmio São Paulo de Literatura 2008, de melhor livro de autor estreante.

Então, continuei a lhe contar. Contei como tinha sido a viagem à Turquia, as pessoas que tinha encontrado, a casa que não estava mais lá. Contei que tinha feito esse percurso para tentar sair do lugar, porque havia muito eu não me levantava da cama, no Brasil. Contei também da morte da minha mãe, da dor, do luto. Disse-lhe que falo com ela ainda hoje. Falo com os mortos, afirmei, com os mortos que me acompanham. (p. 200).



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(1) ARISTÓTELES. Metafísica: livro 1 e livro 2; Ética a Nicômaco; Poética. Trad. Vincenzo Cocco, São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 249.

(2) CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 6a. ed., trad. Vera da Costa e Silva et allii, Rio de Janeiro,: José Olympio, 1992, p. 951.

(3) Id., ibid., p. 232.

(4) BENJAMIM, Walter. “Sobre o conceito da história”, In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7a. ed., trad. Sérgio Paulo Rouanet, São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 224.

(5) SCHILLER, Friedrich, “A educação estética segundo Schiller”, In: JIMENEZ, Marc. O que é Estética. Trad. Fúlvia M. L. Moretto, São Leopoldo, RS: Ed. Unisinos, 1999, p. 156.

(6) Id., ibid., pp. 160 – 161.

(7) MARCUSE, Herbert. Eros e civilização. 6a. ed., trad. Álvaro Cabral, Rio de Janeiro: Zahar, 1975, p. 167.

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Edição utilizada:
Tatiana Salem Levy. A chave da casa. 3a. ed., Rio de Janeiro: Record, 2009. 206 pp.. Brochura, 13,5x20,5cm. Capa: Victor Burton. Fonte: ClassGaramond 11/15. Papel off-white 90g/m2.

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Imagens
Bedri Rahmi Eyüboglu (Görele, Província de Giresun, Império Otomano, 1911 - Istambul, Turquia, 1975), "Efkarli", óleo sobre tela, 50x35cm, ca. 1950.
Bedri Rahmi Eyüboglu, sem título, 121x93cm.
Bedri Rahmi Eyüboglu, sem título, 48x33cm.
Fonte: mutualart.com

Retrato de Tatiana Salem Levy:
www.premiosaopaulodeliteratura.org.br

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Pinar Köksal (Adana, Turquia, 1946), "Bir Şarkı İstedim", canção curda, interpretado pela própria compositora.

sábado, 14 de setembro de 2019

Acre, de Lucrecia Zappi

Na selva das cidades




                        Prédio na Vila Buarque, São Paulo


Eu só lembrava do sinteco novo quando chegava em casa. Não estava de mau humor, mas não era possível que nem eu nem a Marcela, que ninguém nesta casa pensasse antes de sair que o sol estaria forte – hoje mais forte que ontem, e amanhã mais forte que hoje – e faria o sinteco crepitar até no escuro.
Agachei para sentir nos dedos a madeira machucada, e pensei no cara que tinha passado o fim de semana ajoelhado no chão da nossa sala, falando da vida no celular, a gente comprando lanche para ele, o sujeito enchendo o saco, tudo para eu me ver parado ali, mais uma vez lamentando minha distração, enquanto o sol já tinha ido e voltado quinhentas vezes no horizonte. Contemplei por um instante a claridade da noite que se espalhava pela sala e fechei a cortina.
Ao dar as costas para a janela, notei uma silhueta na penumbra: era Marcela sentada sobre a bancada da cozinha americana, como ela gostava de chamar aquele vão sem porta.
Pensei em começar perguntando por que não fechara a cortina. Ou que era esquisito que ela ficasse daquele jeito no escuro com as pernas balançantes como se fosse uma menina pequena demais para alcançar o chão.
O que você tá fazendo aí, Marcela?
Nada.
Ela alongou o corpo até o interruptor e tapou os olhos para se proteger do clarão súbito. Minha mulher parecia mesmo uma criança em cima da bancada, com os pés longe do chão.
Tá me vendo agora? Com a mão ligeiramente elevada diante do rosto, Marcela passou de criança a um desses anjos de cemitério, que escondem o rosto das trevas. Você não sabe quem subiu comigo no elevador.
Quem?
O Nelson. O de Santos.
Achei que esse cara tinha morrido. (pp. 7 - 8)


Não obstante cidadã do mundo - nascida em Buenos Aires, em 1972, mudou-se para o Brasil aos quatro anos, tendo vivido posteriormente no México, na Holanda e na Bélgica -, a escritora, jornalista e tradutora Lucrecia Zappi considera-se brasileira e paulistana. A artista reside atualmente em West Village, Nova Iorque. Tal sentimento fica evidente na forma como a cidade de São Paulo ou, mais especificamente, a Vila Buarque - onde de fato a escritora viveu, após se mudar da Argentina, aos quatro anos -, fornece o quadro social e espacial no qual se movem as personagens do romance Acre (2017). Chama a atenção, de imediato, assim, que essa relevância da cidade e da região onde se dá a trama seja contrastada pelo título ambíguo do romance; pois é justamente o deslocamento, a inadequação, o estranhamento, a incerteza, que criam, em parte, a atmosfera opressiva dessa obra bem recebida pela crítica, a segunda obra de ficção da autora: antes, estreara com o romance Onça preta (São José dos Campos: Benvirá, 2013).

Tolstói afirmou que “toda grande literatura é uma destas duas histórias: um homem que parte numa viagem ou um forasteiro que chega a uma cidade.” Pois bem, em Acre temos claramente, numa apreciação formal da narrativa, a segunda situação: Nelson, à semelhança do que se viu em Não falei, de Beatriz Bracher, é uma assombração do passado, um forasteiro que vem de longe, seja temporalmente, seja espacialmente, do Acre, levando à ressurgência dos conflitos recalcados na consciência de Oscar, o narrador em primeira pessoa do romance, que se desenvolve em dois planos espaço-temporais.

Não há marcas temporais definidas para o plano em que se inicia o romance, mas se depreende que seja a época contemporânea, na Vila Buarque, onde reside, em um condomínio predial, na rua Major Sertório, o casal Oscar e Marcela, ambos com cerca de 50 anos.

No centro da trama há um quadrilátero amoroso ocorrido entre trinta anos e trinta e dois anos antes, na cidade de Santos, envolvendo, Oscar, Marcela, Nelson e seu primo, Washington. Um fato trágico levou à ruptura da convivência dessas personagens, em Santos, e, por fim, Oscar e Marcela se casam e fixam residência em São Paulo. O casal vivera, a princípio, por dezoito anos em uma quitinete na Praça Roosevelt. Quando o romance se inicia, o casal já mora há onze anos em um apartamento na rua Major Sertório. Oscar tem uma loja de luminárias na rua da Consolação, herdada do pai, e Marcela tem um restaurante a quilo na Vila Buarque. Oscar cursou apenas dois anos de Arquitetura e não concluiu a Faculdade. Marcela, a enigmática personagem, que remete à Capitu machadiana, nessa trama movida pelo ciúme obsessivo do seu marido, tem origem em uma família muito pobre.

Como dissemos, a vinda de Nelson, do Acre, move a trama e os ciúmes de Oscar. A mãe de Nelson, Dona Vera, é vizinha de parede do casal. Nelson, essa presença aterradora, fica, assim, separado apenas por uma parede de Oscar, o que só faz aumentar a angústia deste.

Como é esperável em uma narrativa exclusivamente em primeira pessoa, muito da tensão da obra advém do fato de que a trama é gerada unicamente pelo relato, pela consciência e pela memória do narrador e, assim sendo, não sabemos quais são as intenções e motivações das demais personagens, o que realça uma narrativa que tem como fio condutor o ciúme.

O aparecimento do “forasteiro” Nelson desata os traumas e as suspeitas do narrador e ficamos sabendo, aos poucos, em flashback, desses fatos pretéritos por meio de alternância dos planos temporais.

O trauma: Nelson é uma personagem bestial. A mãe despachou-o, adolescente, para a casa do irmão, em Santos, depois de arrancar a orelha de um jovem, em uma briga e, com isso, ter passado uma temporada em uma instituição pública de abrigo de menores infratores. Em Santos, Oscar e Nelson passam a fazer parte do mesmo grupo de jovens, com características de gangue, e acabam se envolvendo em uma briga, na qual Oscar leva a pior, dramaticamente, ficando hospitalizado por traumatismo craniano. É, pois, esse fantasma, que fora namorado de Marcela naquela época, que ressurge na vida de Oscar.


Na praia, o instinto foi o de proteger minha longboard, mas o chute que levei na cara fez com que eu batesse a cabeça na quina da prancha. Minha voz saiu débil, senti que o som vindo de dentro da cabeça despedaçava meu crânio. Eram descargas elétricas que me faziam arranhar a areia. Ouvia as pessoas ao redor em eco e o céu tremia ao mesmo tempo, com um azul tão estridente que chegava a enjoar. Minha boca se encheu de sangue, por isso o que eu tentava dizer saía incompreensível. Cuspi e limpei o nariz ensanguentado. Juntou mais gente, a torcida pela briga cresceu.
Foi quando vi Marcela. Estava parada na roda, abraçada a um cara loiro queimado de sol. Como no filme do surfista que lixava a prancha. Não sei dizer por que fui fixar a vista nela, naquela moça de olhos escuros. Achei-a bonita. Foi a última certeza que tive antes de apagar. (p. 31).



                       Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo


As assombrações do passado e o ciúme são, contudo, apenas a superfície da narrativa; a atmosfera sufocante e angustiante daí decorrente servem, em verdade, para dar relevo a uma outra personagem e a um tema subjacente que lhe é conexo: a Vila Buarque e a sua degradação, talvez a própria cidade de São Paulo e, no limite, a crise civilizatória ou, emprestando a expressão de Celso Furtado, a construção reiteradamente interrompida de nosso país. Disso trataremos a seguir.

A Vila Buarque, bairro da cidade de São Paulo, faz parte do processo histórico de expansão urbanística da atual megalópole, o maior centro metropolitano do país e um dos maiores do mundo. A região era originalmente uma chácara, cujo terreno e imóvel tiveram sucessivos proprietários, cujos nomes, posteriormente atribuídos a vias locais, são familiares aos paulistanos: Marechal José Toledo de Arouche Rendon, Senador Antonio Pinto do Rego Freitas, Engenheiro Manoel Buarque de Macedo. Com a venda e posterior desmembramento da chácara, a região abrigou, a partir de fins do século XIX e início do século XX, as residências amplas e luxuosas de famílias de posses que se afastavam do núcleo central da cidade. A partir de meados do século XX, aí se construíram também edifícios de classe média. 

Um corte brutal na história da Vila Buarque ocorre, na década de 1970, com o surgimento de uma obra polêmica, batizada sintomaticamente com o nome de um general do período ditatorial, o Elevado Costa e Silva (posteriormente a obra passou a denominar-se Elevado Presidente João Goulart, em uma dessas irônicas inversões da História), conhecido popularmente como “Minhocão”: trata-se de uma via expressa elevada que liga a Praça Roosevelt ao bairro da Barra Funda, em um percurso de 3,4km. Desde a sua inauguração, em 1971, o Minhocão, por causa dos danos paisagísticos, da poluição do ar e sonora causada aos edifícios próximos, da degradação urbana e social, com moradores de rua, prostituição e usuários de drogas, tornou-se um caso exemplar de estudos na área de urbanismo, por ser fruto típico do planejamento autoritário na gestão de um Prefeito não eleito, em época de regime de exceção, e igualmente fonte de polêmicas sem fim que se arrastam até os dias atuais. 
 
O Minhocão é apenas uma das faces grotescas de uma cidade e sua região metropolitana onde vivem incrivelmente mais de vinte e um milhões de pessoas, situação a que se chegou sem planejamento urbano algum, em uma realidade sócio-econômica totalmente contrastiva, a qual faz conviver encraves populacionais altamente abastados, globalizados e de consumo de alto luxo, ao lado de populações pobres ou miseráveis, com a violência e a marginalidade inevitáveis decorrentes desse atrito e contradições social.

A Vila Buarque de passado elegante, atualmente degradada, em que populações de classe média convivem com moradores de rua, travestis e drogados é, dessa forma, tomada como um microcosmo e sinal dos impasses de uma cidade e de um país.

Além do mais, o romance reflete o clima caótico do Brasil posterior às jornadas de junho de 2013 e antecipa a atmosfera sombria e regressiva do país atual.

Os nomes do condomínio onde mora o casal e da loja de luminárias de Oscar - “Trapézio Imperial” e “Lustres Imperial” - são alusões irônicas e nostálgicas de um tempo perdido em meio ao rebaixamento atual do horizonte de expectativas.

O romance respira a degradação: das edificações, da vida urbana, dos padrões de vida e de civilidade, das consciências, e que se consubstancia na violência ameaçadora e onipresente.

Do lado da praça, dava para notar o efeito do tempo nos prédios. À exceção do nosso edifício, cuja fachada era um retângulo alto de vidros antigos, nada se destacava na quadra. Era um conjunto de construções baixas, com fissuras e remendos, caixotes de ar-condicionado isolados e uma cortina ou outra de cor forte. No nível da rua, entradas de prédios residenciais se misturavam a fachadas comerciais. Eram soluções totalmente diversas que conduzia a uma homogeneidade opaca de arrebiques. (p. 82).

Nelson provavelmente não fazia ideia de que sua mãe andava descendo com uma sacola para pegar restos de comida depois da feira, junto com os mendigos, e que acabava ficando por ali. Queria companhia, decerto, e tinha pouco dinheiro mesmo. Não sei se chegou a passar fome, mas Vera não parecia ter vergonha de se juntar aos da rua. Até Marcela, que não era de se comover com a miséria, quando ficou sabendo do desespero de nossa vizinha, entre abandono e falta de grana, começou a pensar a respeito.
Imagina chegar à velhice assim, comendo sobras, disse ela. Se não fosse a gente, ela poderia acabar feito essa indigência doida do centro da cidade. Reparou na quantidade de pessoas que mora nas ruas? (p.41).

Ana seguiu adiante, cada vez mais diluída na distância e na escuridão, parando para conversar com outro vizinho. Vera aproveitou para contar ao filho que Ana tinha sido assaltada recentemente.
O dano que faz uma arma apontada na cabeça, ouvi dona Vera dizer baixinho. E o pior é que foi bem ali na praça, quase na frente do prédio, perto do posto policial. Parece que abusaram dela.
Nelson cuspiu na mão um caroço de azeitona. Abusaram como?
Não sei detalhes, não. Ela acha que o perigo está em todos os lados e que a violência nas ruas é uma maldição entre nós. (p. 69).

A bestialidade de Nelson, acometido de um vitiligo que avança pelos seus braços, a sua violência instintiva, a incontrolável tendência ao trambique, à atuação à margem da lei, a ameaça que representa aos laços sociais, à família, é, igualmente, símbolo tanto do terror que inspira, principalmente às camadas médias, que anseiam por uma vida cosmopolita e estável, mas que se defrontam continuamente, em uma realidade subdesenvolvida, com a realidade bruta, instável e contraditória de suas vidas, como da própria incerteza do projeto de nação. A impotência e passividade de Oscar diante da ameaça representada pelo forasteiro Nelson é muito significativa, aí incluída, como seu ápice trágico, a própria incapacidade de decifrar os gestos, os significados e as intenções de sua esposa.

Muito bem estruturado, o início do romance, pautado pela preocupação de Oscar com o sinteco, a demonstrar o achatamento de horizontes e a mediocridade em que está imersa a vida do protagonista, encerra-se em anticlímax: a coroação corrosiva da capitulação de Oscar e de tudo o que ele representa.

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Há notícias de que Lucrecia Zappi está trabalhando em sua terceira obra ficcional: eis uma notícia alvissareira para os admiradores das novas vozes artísticas e da vertente crítica e instigante da nossa literatura.


              Lucrecia Zappi, na Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo

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Edição utilizada:
Lucrecia Zappi. Acre. São Paulo: Todavia, 2107. 208 pp.. Brochura, 13,5x21cm. Capa: Daniel Trench. Fotos de capa: Bianca Vasconcellos; a foto da capa é de detalhe do prédio Santa Rita, na Vila Buarque, onde a escritora morou. Fonte: Register. Papel Munken print cream 80 g/m2.

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A própria autora traduziu a obra para o espanhol, em publicação para a Editorial La Huerta Grande (2017), assinando-se como Lucrecia Zappi Luhring.

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Acre foi finalista do Prêmio Jabuti, 2018.

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Imagens

Prédio na Vila Buarque, São Paulo
vivareal.com.br
 
Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo
br.kekanto.com 

Lucrecia Zappi, na Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo.
Foto: Filipe Redondo / ÉPOCA
https://epoca.globo.com/cultura/noticia/2017/08/novo-livro-de-lucrecia-zappi-reproduz-o-ruido-do-bairro-onde-ela-cresceu.html



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Lucrecia Zappi fala sobre o romance Acre.





José Antonio Resende de Almeida Prado (Santos, 8 de fevereiro de 1943 — São Paulo, 21 de novembro de 2010). Noturno n. 4. Piano: Alexandre Dias. Festival "Vamos Ouvir Música?", Teatro Nacional Claudio Santoro, Brasília, 2007.

https://www.youtube.com/watch?v=nF4uv8w24a4



domingo, 16 de junho de 2019

ENTREVISTA COM MARIA VALÉRIA REZENDE

A autora de Vasto mundo responde ao blog




                              José Costa Leite, "Cavalo-marinho", xilogravura


Em entrevista ao Búfalo Celeste, a escritora Maria Valéria Rezende fala sobre a origem do volume de contos Vasto mundo, diz que escreve para seus personagens, revela que o conto “Aurora dos Prazeres” baseia-se em fatos que vivenciou e comenta sobre a possibilidade de dedicar-se à literatura memorialística.

Em sua participação na série “Encontros com o escritor”, em 2018, promovida pela Editora Unesp, na cidade de São Paulo, a Sra. relatou a forte ambiência cultural que fez com que a sua vida, desde sempre, em Santos, fosse cercada por livros, poemas, saraus, recitais. Assim, escrever histórias ou versos foi-lhe algo natural e que se manteve ao longo de toda a sua vida. Por que, então, tardou tanto a vir a público essa coletânea de contos, Vasto mundo?
Escrever as histórias inspiradas nos fatos que eu via ou pressentia sempre foi uma prática para mim, um meio de tentar me por no lugar dos outros, compreender, adivinhar, e também, por que não?, me divertir em noites silenciosas do interior nordestino. Mas meu projeto de vida era mesmo a educação popular, a conscientização e a organização dos oprimidos, e não ser "escritora". Foi quase por acaso que se publicou meu primeiro livro. Sem dinheiro pra presentes comprados, eu escrevia uma dessas histórias, desenhava uma capa bonitinha e dava de presente aos amigos... assim, um amigo, Frei Betto, acabou por passar um texto meu a um editor, Pascoal Soto, que um dia me telefonou pedindo mais... daí foi ainda uma longa história até que se publicasse. Com a idade, eu já não podia mais continuar nas mesmas andanças, com a mochila às costas, então escrever tornou-se uma atividade que, penso, pode também contribuir para que se veja o que muitas vezes fica escondido e, da força do nosso povo, colher esperança.


Guimarães Rosa, do qual há uma citação em epígrafe em Vasto mundo, transfigurou radicalmente toda a tradição brasileira do regionalismo, unindo o local a uma temática universal em uma experiência de linguagem que representa um dos cumes das nossas Letras. Foi desafiador escrever à sombra do grande escritor de Cordisburgo, ao situar os seus contos no interior do Nordeste brasileiro?
Como sempre escrevi espontaneamente, simplesmente porque tinha uma história para contar a mim mesma, porque, mesmo para quem a vê e vive, uma história só se revela quando a gente a conta, e não tinha a pretensão de ser escritora reconhecida, nunca comparei o que escrevia com outro autor... muito menos com o grande Rosa, que li inúmeras vezes, desde minha adolescência, assim como centenas, talvez milhares de outros livros que absorvi ao longo da minha vida. Quando me perguntam para quem escrevo, a única resposta que posso dar é que escrevo para meus personagens. Sempre me pergunto se eles se reconhecerão ali. E parece que sim.

À semelhança de Flaubert, a Sra. pode dizer que “Aurora dos Prazeres, c’est moi”?
Aurora dos Prazeres, que é fabulação a partir de fatos realmente acontecidos, não sou eu, somos milhares de religiosas que, sobretudo a partir dos anos 60, deixamos a proteção dos muros dos conventos para nos "inserir" por longos anos entre os mais pobres e oprimidos, no interior, no campo ou nas periferias das grandes cidades, para compartilhar sua vida, para tentar ser entre eles "fermento na massa" como diz o Evangelho. Então, creio que se dissermos "Aurora dos Prazeres c'est nous", estaremos constatando um fato bem mais concreto e exato do que dizia Flaubert na sua tirada literária!

A Sra. é uma das grandes ficcionistas brasileiras em atividade, mas a sua própria vida certamente está cercada de inúmeras passagens que podem contar muito sobre a História recente do Brasil ou sobre as difíceis condições de vida de populações de diversos países. Os seus leitores podem aguardar a publicação de suas memórias?
Na verdade nem seria capaz de escrever minhas memórias, senão como já as escrevo, ficcionalmente... só sabemos da realidade o que nos entra pelos nossos fracos cinco sentidos... são fragmentos do real, como retalhos que nós vamos ligando uns aos outros com crochê para fazer uma colcha cujo desenho faça sentido. Acho que toda memória tem ficção e toda ficção tem memória. Acho bem mais divertido fazer livremente ficção juntado peças de memória e fazendo um novo desenho do que tentar "dizer a verdade" num texto de "memórias".


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Imagem:
Xilogravura do cordelista José Costa Leite (Sapé, Paraíba, Brasil, 1925).
Fonte:
http://www.paraibacriativa.com.br/artista/jose-costa-leite/


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Marlos Nobre, “Dengues da mulata desinteressada”, op. 20 (1966).
Duo Cappuccino: Mere Oliveira, mezzo-soprano; André Simão, violão.
St. Edigienkirche, Beerbach, Nuremberg, Alemanha, 9/5/2010.

Sobre poema de Ribeiro Couto:

Te dei um vidro de cheiro
Te dei um colar de conchas
De nenhum fizeste conta
Comprei artigo estrangeiro
outro vidro, outro colar
Não quiseste olhar,
Não quiseste olhar
Vendo que eras ambiciosa
te prometi um vestido
Te prometi um vestido
disseste “Eu rasgo atrevido!”
Mas falei baixinho: “Rosa”...
Fui buscar o meu violão,
E suspiraste, suspiraste: “Romão”
Te dei um vidro de cheiro
Te dei um colar de conchas
De nenhum fizeste conta
Comprei artigo estrangeiro
outro vidro, outro colar.