Diogo
Bernardes (Ponte da Barca, Portugal, ca. 1520 – ca. 1605)
***
Querelas
do Brasil
Aldir
Blanc e Maurício Tapajós
O
Brazil não conhece o Brasil
O
Brasil nunca foi ao Brazil
Tapir,
jabuti
Liana,
alamanda, ali, alaúde
Piau,
ururau, aki, ataúde
Piá-carioca,
porecramecrã
Jobim
akarore, Jobim-açu
Uô,
uô, uô
Pererê,
camará, tororó, olerê
Piriri,
ratatá, karatê, olará
Pererê,
camará, tororó, olerê
Piriri,
ratatá, karatê, olará
O
Brazil não merece o Brasil
O
Brazil tá matando o Brasil
Jereba,
saci
Caandrades,
cunhãs, ariranha, aranha
Sertões,
Guimarães, bachianas, águas
Imarionaíma,
ariraribóia
Na
aura das mãos de Jobim-açu
Uô,
uô, uô
Jererê,
sarará, cururu, olerê
Blá-blá-blá,
bafafá, sururu, olará
Jererê,
sarará, cururu, olerê
Blá-blá-blá,
bafafá, sururu, olará
Do
Brasil, SOS ao Brasil
Do
Brasil, SOS ao Brasil
Do
Brasil, SOS ao Brasil
Tinhorão,
urutu, sucuri
Ujobim,
sabiá, bem-te-vi
Cabuçu,
Cordovil, Cachambi, olerê
Madureira,
Olaria e Bangu, olará
Cascadura,
Água Santa, Acari, olerê
Ipanema
e Nova Iguaçu, olará
Do
Brasil, SOS ao Brasil
Do
Brasil, SOS ao Brasil
"Querelas do Brasil", de Aldir Blanc e Maurício Tapajós. Elis Regina no especial "Elis Regina Carvalho Costa", da TV Globo, em outubro de 1980.
sexta-feira, 10 de abril de 2020
Herman
Hesse na cesta básica
Alimento
para corpo e alma em Montevidéu
Joaquín
Torres García, “América invertida”
A
jornalista Paula Sperb informa-nos, em matéria do jornal “Folha de
S. Paulo”, na edição do dia 10 de abril de 2020 (caderno “Mundo”,
p. A11), que a Prefeitura de Montevidéu distribuiu cinco mil obras
literárias a pessoas em situação social vulnerável, no âmbito de
ações de assistência social para atenuar os efeitos da crise
sanitária com a Covid-19.
Mais
adiante, detalha a matéria:
Entre
os autores das obras distribuídas, há clássicos como Hermann
Hesse, Aldous Huxley, Alberto Camus, Júlio Verne e George Orwell. A
literatura uruguaia foi contemplada com escritores canônicos, como
Horácio Quiroga e Juan José Morosoli, e contemporâneos como Fabian
Severo. Livros infantis e juvenis também foram entregues.
“A
ideia é que a cesta básica, mais do que algo para superar a
emergência, seja um carinho para o coração das pessoas”, disse à
Folha Juan Canessa, secretário-geral da prefeitura e idealizador da
iniciativa.
Não
é de hoje que o Uruguai, desse povo admirável, tem nos
dado lições de coragem e arrojo.
Ficam aqui os cumprimentos à criativa gestão da capital uruguaia.
__________
“Um
livro pode ser nosso sem nos pertencer. Só um livro lido nos
pertence realmente.”
Eno
Teodoro Wanke (Ponta Grossa, 23 de junho de 1929 - Rio de Janeiro, 28
de maio de 2001).
Paralelamente
à sua carreira de engenheiro civil, Wanke foi sonetista, haicaista,
tradutor, antologista, biógrafo, ensaísta, historiador,
folclorista, estudioso da língua, cronista, biógrafo, dicionarista,
contista, fabulista e memorialista. Suas publicações ultrapassam os
mil títulos.
Fontes:
RÓNAI, Paulo. Dicionário universal Nova Fronteira de citações. 3a. ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 574.
Abel
Carlevaro (Montevidéu, Uruguai, 16/12/1916 – Berlim, Alemanha,
17/7/2001) interpreta “Estilo pampeano”, de Abel Fleury (Buenos
Aires, Argentina, 5/4/1903 – Buenos Aires, Argentina, 19/8/1958).
Abel
Carlevaro foi um notável instrumentista do violão erudito, além de
compositor, professor e teórico do violão. Estudou com Andrés
Segóvia e veio ao Brasil a convite de Heitor Villa-Lobos, do qual
apresentou, pela primeira vez, no Rio de Janeiro, os “Prelúdios n.
3 e 4”. Carlevaro foi uma das figuras mais influentes do violão
erudito na segunda metade do século XX. Faleceu circunstancialmente
em Berlim, por ocasião de uma de suas frequentes viagens para as
Américas, Europa e Ásia, como grande personalidade do violão, seja
para concertos, palestras, masterclass, seminários ou como
membro de concursos.
sábado, 11 de janeiro de 2020
A
chave da casa,
de Tatiana Salem Levy
Identidade
em fragmento e mosaico
Bedri Rahmi Eyüboglu, "Efkarli"
Escrevo
com as mãos atadas. Na concretude imóvel do meu quarto, de onde não
saio há longo tempo. Escrevo sem poder escrever e: por isso escrevo.
De resto, não saberia o que fazer com este corpo que, desde a sua
chegada ao mundo, não consegue sair do lugar. Porque eu já nasci
velha, numa cadeira de rodas, com as pernas enguiçadas, os braços
ressequidos. Nasci com cheiro de terra úmida, o bafo de tempos
antigos sobre o meu dorso. Por mais estranho que isso possa parecer,
a verdade é que nasci com os pés na cova. Não falo de aparência
física, mas de um peso que carrego nas costas, um peso que me
endurece os ombros e me torce o pescoço, que me deixa dias a fio –
às vezes um, dois meses – com a cabeça no mesmo lugar. Um peso
que não é de todo meu, pois já nasci com ele. Como se toda vez em
que digo “eu” estivesse dizendo “nós”. Nunca falo sozinha,
falo sempre na companhia desse sopro que me segue desde o primeiro
dia. (p. 9).
Para
Aristóteles, “a poesia é algo de mais filosófico e mais sério
do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e
esta o particular. Por ‘referir-se ao universal’ entendo eu
atribuir a um indivíduo determinada natureza, pensamentos e ações
que, por liame de necessidade e verossimilhança, convém a tal
natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que
dê nomes às suas personagens; particular, pelo contrário, é o que
fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu”. (1)
É,
pois, por intermédio da poesia, no caso a épica, que a narradora de
A chave da casa (2007), da escritora brasileira Tatiana Salem
Levy (Lisboa, Portugal, 24/1/1979), serve-se para investigar as suas
origens e a relação de seus ancestrais com a História; narradora,
ressalte-se, que traz ressonâncias da própria trajetória pessoal
da escritora, no contexto da tendência, na literatura brasileira
contemporânea, da autoficção, como vimos em postagem anterior a propósito do romance A imensidão íntima dos carneiros, de Marcelo Maluf. Mas a matéria primária da vida, é
preciso dizer, é apenas um motivador para a obra ficcional
altamente elaborada de Tatiana Salem Levy que põe em questão identidade, história e o
próprio suporte da estrutura narrativa e a sua correlação com a
realidade.
De
fato, a protagonista, da qual não é citado o nome e que narra a
história em primeira pessoa, é, assim como a própria escritora,
judia sefardita descendente de turcos e nasceu em Lisboa, em janeiro
de 1979, durante o exílio de seus pais, que para lá se dirigiram
por participação em organização clandestina atuante contra a
ditadura militar.
Os
sefarditas são o segmento judaico da diáspora que se estabeleceu na
Península Ibérica; com as perseguições advindas da Inquisição,
esse ramo emigrou para o Novo Mundo, principalmente ao Brasil, para o
norte da África e também para o Império Otomano, como é o caso
dos ancestrais da narradora e da escritora e que, no romance, estão
representados pelo avô da protagonista.
O
início da narrativa, como vimos, é sombrio: a protagonista afirma
estar imobilizada, desde há muito tempo, em seu quarto:
Um
sopro que me paralisa. Uma espécie de fardo. Pesado. Mais do que
isso: bruto, acimentado, capaz de me tirar todas as possibilidades de
movimento, amarrando as articulações uma à outra, colando todos os
espaços vazios do meu corpo. Não que eu seja uma pessoa triste. Não
se trata de ser ou não ser feliz, mas de uma herança que trago
comigo e da qual quero me livrar. (p. 9)
E
a escrita, “dar nome às coisas” (p. 10), é o instrumento para
se libertar do fardo.
E
por isso, só por isso, escrevo. (p. 10).
O
desencadeamento da ação é dado quando o avô da narradora
entrega-lhe a chave da casa em que ele morava na Turquia, sem dizer o
que ela deve fazer com a chave, remetendo às mensagens enigmáticas
dos antigos oráculos:
E
o que vou fazer com ela? Você é quem sabe, ele respondeu, como se
não tivesse nada a ver com isso. As pessoas vão ficando velhas e,
com medo da morte, passam aos outros aquilo que deveriam ter feito
mas, por motivos diversos, não fizeram.
E
agora cabe a mim inventar que destino dar a essa chave, se não
quiser passá-la adiante. (p. 13; grifo nosso).
A
narradora resolve, assim, refazer a circularidade da trajetória das
gerações a que está presa e de cujo fardo quer se livrar, a saber:
os sefaraditas fugiram, na Idade Média, de Portugal para o Império
Otomano; o avô da narradora, saiu da Turquia em direção ao Brasil;
os pais da narradora exilaram-se em Portugal, onde ela veio a nascer,
meses antes da anistia política, em 1979, quando então os seus pais
retornam ao Brasil.
Bedri Rahmi Eyüboglu, sem título
Como
se sabe, a identidade étnico-religiosa dos judeus é um componente
muito forte desse povo, com poucos paralelos na história: mesmo
desterritorializados por muitos séculos, até a criação do Estado
de Israel em 1948, esse povo permaneceu unido na diáspora, mantendo
crenças e costumes. Essa resistência à assimilação, contudo,
custou perseguições e tragédias aos judeus ao longo da sua
história. É justamente o peso dessa história sobre cada um dos
herdeiros dessa corrente que é o centro da indagação do romance.
A
chave da casa está estruturado em um jogo de armar. Os capítulos
são, via de regra, curtos e sucedem-se fragmentos dos seguintes
planos narrativos: o desencanto amoroso do avô na Turquia e a
posterior emigração para o Brasil; a viagem da narradora à Turquia
e, depois, a Portugal, a dolorosa convivência da narradora com o
câncer da mãe, a vida dos pais na clandestinidade política - aí
incluída uma trágica passagem da mãe pela tortura - e o posterior
exílio em Portugal e a turbulenta relação amorosa da narradora.
A
viagem, um topos fundamental da literatura ocidental –
pense-se, no tocante às fundações da literatura, em Ulisses, em
Eneias, em Dante -, expressa no romance seja pela viagem interior da
narradora ao seu passado e às suas origens, seja a viagem
propriamente dita à terra dos antepassados, é o fio condutor da
narrativa.
O
simbolismo da viagem, particularmente rico, resume-se no entanto na
busca da verdade, da paz, da imortalidade, da procura e da descoberta
de um centro espiritual. (2)
A
isso, adicione-se a imagem simbólica da chave:
Nos
contos, como nas lendas, muitas vezes se mencionam três chaves: elas
introduzem sucessivamente em três recintos secretos que são outras
tantas antecâmaras do mistério. (…) A chave é, aqui, o símbolo
do mistério a penetrar, do enigma a resolver, da ação dificultosa
a empreender, em suma, das etapas que conduzem à iluminação e à
descoberta. (3)
A
chave da casa deixa claro, contudo, que mais do que contar
a história como um meio para se livrar “das dores de toda uma
família” (p. 106), vale dizer, a sucessão de tragédias da
história, trata-se de recontar ou, ainda além, de criar uma
história, uma vez que a própria forma-narrativa convencional é
colocada em questão.
Conto
(crio) essa história dos meus antepassados (…) (p. 133).
Bedri
Rahmi Eyüboglu, sem título, 48x33cm.
A
propósito: estamos no campo da modernidade tardia, ou seja, do
questionamento das grandes narrativas totalizantes.
Em
oposição ao entendimento do passado “como ele de fato foi”,
para recorrermos a Walter Benjamim (4), A chave da casa dá
centralidade à criação, ao lúdico, ao jogo, em detrimento do
factual:
Parece
que quanto mais me aproximo dos fatos mais me afasto da verdade. (p.
99)
Pois,
é a mensagem implícita do romance, a forma de deter o carrossel
das gerações e a transmissão irresolvida do trauma é fazer com
que cada geração aproprie-se criativamente do passado, pois contar
a história é recontá-la (p. 132).
Esse
primado da criação remete à ousada e clarividente formulação
estética do poeta, filósofo e historiador alemão Friedrich
Schiller, no final do século XVIII nas Cartas sobre a educação
estética do homem. Diante da realidade alienante do mundo da
revolução industrial que então se descortinava:
A
utilidade é o grande ídolo da época, ela exige que todas as forças
lhe sejam submetidas e que todos os talentos lhe prestem homenagem.
(5)
Estabelece o pensador
uma conexão entre o exercício lúdico da imaginação, o gozo da
liberdade e, no plano agregado da vida social, um Estado com garantia
de igualdade entre os cidadãos, por meio da experiência do belo:
No
Estado estético, todo mundo, mesmo um servente, que é apenas um
instrumento, é um cidadão livre cujos direitos são iguais aos de
maior nobreza. (6)
Herbert
Marcuse retoma essas reflexões de Schiller, que ele qualifica como
“uma das mais avançadas posições do pensamento” (7):
Assim
que realmente ganhar ascendência como um princípio da civilização,
o impulso lúdico transformará literalmente a realidade. A natureza,
o mundo objetivo, seriam então experimentados primordialmente, não
como domínio sobre o homem (tal como na sociedade primitiva) nem
como dominados pelo homem (tal como na civilização estabelecida)
mas, pelo contrário, como objetos de contemplação.
Assim,
sugerir que a peregrinação à terra dos ancestrais seja tão
somente produto da viagem interior, ou seja, da imaginação,
transcende o mero jogo artístico, para alçar-se ao elogio da
liberdade como busca da redenção diante da História, nesse belo
primeiro romance de Tatiana Salem Levy, justificadamente agraciado
com o Prêmio São Paulo de Literatura 2008, de melhor livro de autor
estreante.
Então,
continuei a lhe contar. Contei como tinha sido a viagem à Turquia,
as pessoas que tinha encontrado, a casa que não estava mais lá.
Contei que tinha feito esse percurso para tentar sair do lugar,
porque havia muito eu não me levantava da cama, no Brasil. Contei
também da morte da minha mãe, da dor, do luto. Disse-lhe que falo
com ela ainda hoje. Falo com os mortos, afirmei, com os mortos que me
acompanham. (p. 200).
_________
(1)
ARISTÓTELES. Metafísica: livro 1 e livro 2; Ética a Nicômaco;
Poética. Trad. Vincenzo Cocco, São Paulo: Abril Cultural, 1979,
p. 249.
(2)
CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos.
6a. ed., trad. Vera da Costa e Silva et allii, Rio de
Janeiro,: José Olympio, 1992, p. 951.
(3)
Id., ibid., p. 232.
(4)
BENJAMIM, Walter. “Sobre o conceito da história”, In: Magia e
técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da
cultura. 7a. ed., trad. Sérgio Paulo Rouanet, São
Paulo: Brasiliense, 1994, p. 224.
(5)
SCHILLER, Friedrich, “A educação estética segundo Schiller”,
In: JIMENEZ, Marc. O que é Estética. Trad. Fúlvia M. L.
Moretto, São Leopoldo, RS: Ed. Unisinos, 1999, p. 156.
(6)
Id., ibid., pp. 160 – 161.
(7)
MARCUSE, Herbert. Eros e civilização. 6a. ed., trad.
Álvaro Cabral, Rio de Janeiro: Zahar, 1975, p. 167.
_________
Edição
utilizada:
Tatiana
Salem Levy. A chave da casa. 3a. ed., Rio de Janeiro:
Record, 2009. 206 pp.. Brochura, 13,5x20,5cm. Capa: Victor Burton.
Fonte: ClassGaramond 11/15. Papel off-white 90g/m2.
__________
Imagens
Bedri
Rahmi Eyüboglu (Görele, Província de Giresun, Império Otomano,
1911 - Istambul, Turquia, 1975), "Efkarli", óleo sobre
tela, 50x35cm, ca. 1950.
Bedri
Rahmi Eyüboglu, sem título, 121x93cm.
Bedri
Rahmi Eyüboglu, sem título, 48x33cm.
Fonte:
mutualart.com
Retrato
de Tatiana Salem Levy:
www.premiosaopaulodeliteratura.org.br
__________
Pinar
Köksal (Adana, Turquia, 1946), "Bir Şarkı İstedim",
canção curda, interpretado pela própria compositora.
sábado, 14 de setembro de 2019
Acre,
de Lucrecia Zappi
Na
selva das cidades
Prédio na Vila Buarque, São Paulo
Eu
só lembrava do sinteco novo quando chegava em casa. Não estava de
mau humor, mas não era possível que nem eu nem a Marcela, que
ninguém nesta casa pensasse antes de sair que o sol estaria forte –
hoje mais forte que ontem, e amanhã mais forte que hoje – e faria
o sinteco crepitar até no escuro.
Agachei
para sentir nos dedos a madeira machucada, e pensei no cara que tinha
passado o fim de semana ajoelhado no chão da nossa sala, falando da
vida no celular, a gente comprando lanche para ele, o sujeito
enchendo o saco, tudo para eu me ver parado ali, mais uma vez
lamentando minha distração, enquanto o sol já tinha ido e voltado
quinhentas vezes no horizonte. Contemplei por um instante a claridade
da noite que se espalhava pela sala e fechei a cortina.
Ao
dar as costas para a janela, notei uma silhueta na penumbra: era
Marcela sentada sobre a bancada da cozinha americana, como ela
gostava de chamar aquele vão sem porta.
Pensei
em começar perguntando por que não fechara a cortina. Ou que era
esquisito que ela ficasse daquele jeito no escuro com as pernas
balançantes como se fosse uma menina pequena demais para alcançar o
chão.
O
que você tá fazendo aí, Marcela?
Nada.
Ela
alongou o corpo até o interruptor e tapou os olhos para se proteger
do clarão súbito. Minha mulher parecia mesmo uma criança em cima
da bancada, com os pés longe do chão.
Tá
me vendo agora? Com a mão ligeiramente elevada diante do rosto,
Marcela passou de criança a um desses anjos de cemitério, que
escondem o rosto das trevas. Você não sabe quem subiu comigo no
elevador.
Quem?
O
Nelson. O de Santos.
Achei
que esse cara tinha morrido. (pp. 7 - 8)
Não
obstante cidadã do mundo - nascida em Buenos Aires, em 1972,
mudou-se para o Brasil aos quatro anos, tendo vivido posteriormente
no México, na Holanda e na Bélgica -, a escritora, jornalista e
tradutora Lucrecia Zappi considera-se brasileira e paulistana. A
artista reside atualmente em West Village, Nova Iorque. Tal
sentimento fica evidente na forma como a cidade de São Paulo ou,
mais especificamente, a Vila Buarque - onde de fato a escritora
viveu, após se mudar da Argentina, aos quatro anos -, fornece o
quadro social e espacial no qual se movem as personagens do romance
Acre (2017). Chama
a atenção, de imediato, assim, que essa relevância da cidade e da
região onde se dá a trama seja contrastada pelo título ambíguo do
romance; pois é justamente o deslocamento, a inadequação, o
estranhamento, a incerteza, que criam, em parte, a atmosfera
opressiva dessa obra bem recebida pela crítica, a segunda obra de
ficção da autora: antes, estreara com o romance Onça preta
(São José dos Campos: Benvirá, 2013).
Tolstói
afirmou que “toda grande literatura é uma destas duas histórias:
um homem que parte numa viagem ou um forasteiro que chega a uma
cidade.” Pois bem, em Acre temos claramente, numa apreciação
formal da narrativa, a segunda situação: Nelson, à semelhança do
que se viu em Não falei, de Beatriz Bracher, é uma
assombração do passado, um forasteiro que vem de longe, seja
temporalmente, seja espacialmente, do Acre, levando à ressurgência
dos conflitos recalcados na consciência de Oscar, o narrador em
primeira pessoa do romance, que se desenvolve em dois planos
espaço-temporais.
Não
há marcas temporais definidas para o plano em que se inicia o
romance, mas se depreende que seja a época contemporânea, na Vila
Buarque, onde reside, em um condomínio predial, na rua Major
Sertório, o casal Oscar e Marcela, ambos com cerca de 50 anos.
No
centro da trama há um quadrilátero amoroso ocorrido entre trinta
anos e trinta e dois anos antes, na cidade de Santos, envolvendo,
Oscar, Marcela, Nelson e seu primo, Washington. Um fato trágico
levou à ruptura da convivência dessas personagens, em Santos, e,
por fim, Oscar e Marcela se casam e fixam residência em São Paulo.
O casal vivera, a princípio, por dezoito anos em uma quitinete na
Praça Roosevelt. Quando o romance se inicia, o casal já mora há
onze anos em um apartamento na rua Major Sertório. Oscar tem uma
loja de luminárias na rua da Consolação, herdada do pai, e Marcela
tem um restaurante a quilo na Vila Buarque. Oscar cursou apenas dois
anos de Arquitetura e não concluiu a Faculdade. Marcela, a
enigmática personagem, que remete à Capitu machadiana, nessa trama
movida pelo ciúme obsessivo do seu marido, tem origem em uma família
muito pobre.
Como
dissemos, a vinda de Nelson, do Acre, move a trama e os ciúmes de
Oscar. A mãe de Nelson, Dona Vera, é vizinha de parede do casal.
Nelson, essa presença aterradora, fica, assim, separado apenas por
uma parede de Oscar, o que só faz aumentar a angústia deste.
Como
é esperável em uma narrativa exclusivamente em primeira pessoa,
muito da tensão da obra advém do fato de que a trama é gerada
unicamente pelo relato, pela consciência e pela memória do narrador
e, assim sendo, não sabemos quais são as intenções e motivações
das demais personagens, o que realça uma narrativa que tem como fio
condutor o ciúme.
O
aparecimento do “forasteiro” Nelson desata os traumas e as
suspeitas do narrador e ficamos sabendo, aos poucos, em flashback,
desses fatos pretéritos por meio de alternância dos planos
temporais.
O
trauma: Nelson é uma personagem bestial. A mãe despachou-o,
adolescente, para a casa do irmão, em Santos, depois de arrancar a
orelha de um jovem, em uma briga e, com isso, ter passado uma
temporada em uma instituição pública de abrigo de menores
infratores. Em Santos, Oscar e Nelson passam a fazer parte do mesmo
grupo de jovens, com características de gangue, e acabam se
envolvendo em uma briga, na qual Oscar leva a pior, dramaticamente,
ficando hospitalizado por traumatismo craniano. É, pois, esse
fantasma, que fora namorado de Marcela naquela época, que ressurge
na vida de Oscar.
Na
praia, o instinto foi o de proteger minha longboard, mas o
chute que levei na cara fez com que eu batesse a cabeça na quina da
prancha. Minha voz saiu débil, senti que o som vindo de dentro da
cabeça despedaçava meu crânio. Eram descargas elétricas que me
faziam arranhar a areia. Ouvia as pessoas ao redor em eco e o céu
tremia ao mesmo tempo, com um azul tão estridente que chegava a
enjoar. Minha boca se encheu de sangue, por isso o que eu tentava
dizer saía incompreensível. Cuspi e limpei o nariz ensanguentado.
Juntou mais gente, a torcida pela briga cresceu.
Foi
quando vi Marcela. Estava parada na roda, abraçada a um cara loiro
queimado de sol. Como no filme do surfista que lixava a prancha. Não
sei dizer por que fui fixar a vista nela, naquela moça de olhos
escuros. Achei-a bonita. Foi a última certeza que tive antes de
apagar. (p. 31).
Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo
As
assombrações do passado e o ciúme são, contudo, apenas a
superfície da narrativa; a atmosfera sufocante e angustiante daí
decorrente servem, em verdade, para dar relevo a uma outra personagem
e a um tema subjacente que lhe é conexo: a Vila Buarque e a sua
degradação, talvez a própria cidade de São Paulo e, no limite, a
crise civilizatória ou, emprestando a expressão de Celso Furtado, a
construção reiteradamente interrompida de nosso país. Disso
trataremos a seguir.
A
Vila Buarque, bairro da cidade de São Paulo, faz parte do processo
histórico de expansão urbanística da atual megalópole, o maior
centro metropolitano do país e um dos maiores do mundo. A região
era originalmente uma chácara, cujo terreno e imóvel tiveram
sucessivos proprietários, cujos nomes, posteriormente atribuídos a
vias locais, são familiares aos paulistanos: Marechal José Toledo
de Arouche Rendon, Senador Antonio Pinto do Rego Freitas, Engenheiro
Manoel Buarque de Macedo. Com a venda e posterior desmembramento da
chácara, a região abrigou, a partir de fins do século XIX e início
do século XX, as residências amplas e luxuosas de famílias de
posses que se afastavam do núcleo central da cidade. A partir de
meados do século XX, aí se construíram também edifícios de
classe média.
Um corte brutal na história da Vila Buarque ocorre, na década de
1970, com o surgimento de uma obra polêmica, batizada
sintomaticamente com o nome de um general do período ditatorial, o
Elevado Costa e Silva (posteriormente a obra passou a denominar-se
Elevado Presidente João Goulart, em uma dessas irônicas inversões
da História), conhecido popularmente como “Minhocão”: trata-se
de uma via expressa elevada que liga a Praça Roosevelt ao bairro da
Barra Funda, em um percurso de 3,4km. Desde a sua inauguração, em
1971, o Minhocão, por causa dos danos paisagísticos, da poluição
do ar e sonora causada aos edifícios próximos, da degradação
urbana e social, com moradores de rua, prostituição e usuários de
drogas, tornou-se um caso exemplar de estudos na área de urbanismo,
por ser fruto típico do planejamento autoritário na gestão de um
Prefeito não eleito, em época de regime de exceção, e igualmente
fonte de polêmicas sem fim que se arrastam até os dias atuais.
O
Minhocão é apenas uma das faces grotescas de uma cidade e sua
região metropolitana onde vivem incrivelmente mais de vinte e um
milhões de pessoas, situação a que se chegou sem planejamento
urbano algum, em uma realidade sócio-econômica totalmente
contrastiva, a qual faz conviver encraves populacionais altamente
abastados, globalizados e de consumo de alto luxo, ao lado de
populações pobres ou miseráveis, com a violência e a
marginalidade inevitáveis decorrentes desse atrito e contradições
social.
A
Vila Buarque de passado elegante, atualmente degradada, em que
populações de classe média convivem com moradores de rua,
travestis e drogados é, dessa forma, tomada como um microcosmo e
sinal dos impasses de uma cidade e de um país.
Além
do mais, o romance reflete o clima caótico do Brasil posterior às
jornadas de junho de 2013 e antecipa a atmosfera sombria e regressiva
do país atual.
Os
nomes do condomínio onde mora o casal e da loja de luminárias de
Oscar - “Trapézio Imperial” e “Lustres Imperial” - são
alusões irônicas e nostálgicas de um tempo perdido em meio ao
rebaixamento atual do horizonte de expectativas.
O
romance respira a degradação: das edificações, da vida urbana,
dos padrões de vida e de civilidade, das consciências, e que se
consubstancia na violência ameaçadora e onipresente.
Do
lado da praça, dava para notar o efeito do tempo nos prédios. À
exceção do nosso edifício, cuja fachada era um retângulo alto de
vidros antigos, nada se destacava na quadra. Era um conjunto de
construções baixas, com fissuras e remendos, caixotes de
ar-condicionado isolados e uma cortina ou outra de cor forte. No
nível da rua, entradas de prédios residenciais se misturavam a
fachadas comerciais. Eram soluções totalmente diversas que conduzia
a uma homogeneidade opaca de arrebiques. (p. 82).
Nelson
provavelmente não fazia ideia de que sua mãe andava descendo com
uma sacola para pegar restos de comida depois da feira, junto com os
mendigos, e que acabava ficando por ali. Queria companhia, decerto, e
tinha pouco dinheiro mesmo. Não sei se chegou a passar fome, mas
Vera não parecia ter vergonha de se juntar aos da rua. Até Marcela,
que não era de se comover com a miséria, quando ficou sabendo do
desespero de nossa vizinha, entre abandono e falta de grana, começou
a pensar a respeito.
Imagina
chegar à velhice assim, comendo sobras, disse ela. Se não fosse a
gente, ela poderia acabar feito essa indigência doida do centro da
cidade. Reparou na quantidade de pessoas que mora nas ruas? (p.41).
Ana
seguiu adiante, cada vez mais diluída na distância e na escuridão,
parando para conversar com outro vizinho. Vera aproveitou para contar
ao filho que Ana tinha sido assaltada recentemente.
O
dano que faz uma arma apontada na cabeça, ouvi dona Vera dizer
baixinho. E o pior é que foi bem ali na praça, quase na frente do
prédio, perto do posto policial. Parece que abusaram dela.
Nelson
cuspiu na mão um caroço de azeitona. Abusaram como?
Não
sei detalhes, não. Ela acha que o perigo está em todos os lados e
que a violência nas ruas é uma maldição entre nós. (p. 69).
A
bestialidade de Nelson, acometido de um vitiligo que avança pelos
seus braços, a sua violência instintiva, a incontrolável tendência
ao trambique, à atuação à margem da lei, a ameaça que representa
aos laços sociais, à família, é, igualmente, símbolo tanto do
terror que inspira, principalmente às camadas médias, que anseiam
por uma vida cosmopolita e estável, mas que se defrontam
continuamente, em uma realidade subdesenvolvida, com a realidade
bruta, instável e contraditória de suas vidas, como da própria
incerteza do projeto de nação. A impotência e passividade de Oscar
diante da ameaça representada pelo forasteiro Nelson é muito
significativa, aí incluída, como seu ápice trágico, a própria
incapacidade de decifrar os gestos, os significados e as intenções
de sua esposa.
Muito
bem estruturado, o início do romance, pautado pela preocupação de
Oscar com o sinteco, a demonstrar o achatamento de horizontes e a
mediocridade em que está imersa a vida do protagonista, encerra-se
em anticlímax: a coroação corrosiva da capitulação de Oscar e de
tudo o que ele representa.
*
Há
notícias de que Lucrecia Zappi está trabalhando em sua terceira
obra ficcional: eis uma notícia alvissareira para os admiradores das
novas vozes artísticas e da vertente crítica e instigante da nossa
literatura.
Lucrecia Zappi, na Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo
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Edição
utilizada:
Lucrecia
Zappi. Acre. São Paulo: Todavia, 2107. 208 pp.. Brochura, 13,5x21cm.
Capa: Daniel Trench. Fotos de capa: Bianca Vasconcellos; a foto da
capa é de detalhe do prédio Santa Rita, na Vila Buarque, onde a
escritora morou. Fonte: Register. Papel Munken print cream 80 g/m2.
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A
própria autora traduziu a obra para o espanhol, em publicação para
a Editorial La Huerta Grande (2017), assinando-se como Lucrecia Zappi
Luhring.
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Acre
foi finalista do Prêmio Jabuti, 2018.
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Imagens
Prédio na Vila Buarque, São Paulo
vivareal.com.br
Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo
br.kekanto.com
Lucrecia Zappi, na Praça Rotary, Vila Buarque, São Paulo.
José Antonio
Resende de Almeida Prado (Santos, 8 de fevereiro de 1943 — São
Paulo, 21 de novembro de 2010). Noturno n. 4. Piano: Alexandre Dias.
Festival "Vamos Ouvir Música?", Teatro Nacional Claudio
Santoro, Brasília, 2007.
https://www.youtube.com/watch?v=nF4uv8w24a4
domingo, 16 de junho de 2019
ENTREVISTA
COM MARIA VALÉRIA REZENDE
A
autora de Vasto mundo responde ao blog
José Costa Leite, "Cavalo-marinho", xilogravura
Em
entrevista ao Búfalo Celeste, a escritora Maria Valéria
Rezende fala sobre a origem do volume de contos Vasto mundo,
diz que escreve para seus personagens, revela que o conto “Aurora
dos Prazeres” baseia-se em fatos que vivenciou e comenta sobre a
possibilidade de dedicar-se à literatura memorialística.
Em
sua participação na série “Encontros com o escritor”, em 2018,
promovida pela Editora Unesp, na cidade de São Paulo, a Sra. relatou
a forte ambiência cultural que fez com que a sua vida, desde sempre,
em Santos, fosse cercada por livros, poemas, saraus, recitais. Assim,
escrever histórias ou versos foi-lhe algo natural e que se manteve
ao longo de toda a sua vida. Por que, então, tardou tanto a vir a
público essa coletânea de contos, Vasto mundo?
Escrever
as histórias inspiradas nos fatos que eu via ou pressentia sempre
foi uma prática para mim, um meio de tentar me por no lugar dos
outros, compreender, adivinhar, e também, por que não?, me divertir
em noites silenciosas do interior nordestino. Mas meu projeto de vida
era mesmo a educação popular, a conscientização e a organização
dos oprimidos, e não ser "escritora". Foi quase por acaso
que se publicou meu primeiro livro. Sem dinheiro pra presentes
comprados, eu escrevia uma dessas histórias, desenhava uma capa
bonitinha e dava de presente aos amigos... assim, um amigo, Frei
Betto, acabou por passar um texto meu a um editor, Pascoal Soto, que
um dia me telefonou pedindo mais... daí foi ainda uma longa história
até que se publicasse. Com a idade, eu já não podia mais continuar
nas mesmas andanças, com a mochila às costas, então escrever
tornou-se uma atividade que, penso, pode também contribuir para que
se veja o que muitas vezes fica escondido e, da força do nosso povo,
colher esperança.
Guimarães
Rosa, do qual há uma citação em epígrafe em Vasto mundo,
transfigurou radicalmente toda a tradição brasileira do
regionalismo, unindo o local a uma temática universal em uma
experiência de linguagem que representa um dos cumes das nossas
Letras. Foi desafiador escrever à sombra do grande escritor de
Cordisburgo, ao situar os seus contos no interior do Nordeste
brasileiro? Como
sempre escrevi espontaneamente, simplesmente porque tinha uma
história para contar a mim mesma, porque, mesmo para quem a vê e
vive, uma história só se revela quando a gente a conta, e não
tinha a pretensão de ser escritora reconhecida, nunca comparei o que
escrevia com outro autor... muito menos com o grande Rosa, que li
inúmeras vezes, desde minha adolescência, assim como centenas,
talvez milhares de outros livros que absorvi ao longo da minha vida.
Quando me perguntam para quem escrevo, a única resposta que posso
dar é que escrevo para meus personagens. Sempre me pergunto se eles
se reconhecerão ali. E parece que sim.
À
semelhança de Flaubert, a Sra. pode dizer que “Aurora dos
Prazeres, c’est moi”? Aurora
dos Prazeres, que é fabulação a partir de fatos realmente
acontecidos, não sou eu, somos milhares de religiosas que, sobretudo
a partir dos anos 60, deixamos a proteção dos muros dos conventos
para nos "inserir" por longos anos entre os mais pobres e
oprimidos, no interior, no campo ou nas periferias das grandes
cidades, para compartilhar sua vida, para tentar ser entre eles
"fermento na massa" como diz o Evangelho. Então, creio que
se dissermos "Aurora dos Prazeres c'est nous", estaremos
constatando um fato bem mais concreto e exato do que dizia Flaubert
na sua tirada literária!
A
Sra. é uma das grandes ficcionistas brasileiras em atividade, mas a
sua própria vida certamente está cercada de inúmeras passagens que
podem contar muito sobre a História recente do Brasil ou sobre as
difíceis condições de vida de populações de diversos países. Os
seus leitores podem aguardar a publicação de suas memórias? Na
verdade nem seria capaz de escrever minhas memórias, senão como já
as escrevo, ficcionalmente... só sabemos da realidade o que nos
entra pelos nossos fracos cinco sentidos... são fragmentos do real,
como retalhos que nós vamos ligando uns aos outros com crochê para
fazer uma colcha cujo desenho faça sentido. Acho que toda memória
tem ficção e toda ficção tem memória. Acho bem mais divertido
fazer livremente ficção juntado peças de memória e fazendo um
novo desenho do que tentar "dizer a verdade" num texto de
"memórias".
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Imagem:
Xilogravura
do cordelista José Costa Leite (Sapé, Paraíba, Brasil, 1925).